Capítulo I. A consciência de si
2. Ambiguidade da consciência
O que caracteriza a consciência é romper a unidade do mundo e opor ao Todo do qual ele faz parte um ser que diz “Eu”: nesse intervalo que os separa, ela produz a comunicação incessante que os une, insinua ao mesmo tempo o pensamento, a ação e a vida. Mas a consciência, que produz todos esses movimentos, está condenada a deixá-los inacabados; por isso há sempre nela um desajeitamento, um mal-estar, uma inquietação e até um sofrimento. Tal é a punição do pecado original, isto é, da separação. Mas a consciência é também o princípio de toda redenção, pois permite uma imitação de Deus e um retorno a ele. No entanto, os progressos que ela realiza, as alegrias que experimenta, só poderiam consumar-se com o seu desaparecimento.
Em toda parte onde a consciência aparece, observa-se uma ambiguidade que a impede de se fixar. É a consciência que nos prende a nós mesmos, à nossa carne secreta e separada; e, no entanto, é ela que rompe nossa solidão e nos faz comunicar com todo o universo. O ser humano é uma parte do mundo pelo corpo; mas procura fazer caber o mundo inteiro no espírito: e é essa dupla relação entre esse corpo que está contido no mundo e esse espírito no qual o próprio mundo está contido que forma o drama da existência. A consciência não consente em se identificar nem com o corpo, que é para ela um companheiro cego e indócil, nem com o espírito, em relação ao qual ora consente, ora se rebela. O eu consiste precisamente nesse movimento de vai e vem que ora estreita minha comunhão com um, ora com o outro.
A consciência nos solicita a agir para sair da imobilidade, mas também a agir apenas em vista de um fim perfeito capaz de nos preencher. A liberdade se exerce no intervalo entre essas duas aspirações — uma nos impelindo, outra nos retendo —, e oscila entre todas as aparências que a seduzem.
Assim, há na consciência ao mesmo tempo perfeição, pois ela aumenta o que somos, nos permite irradiar sobre o mundo além dos limites do corpo e nos dá uma espécie de posse espiritual do universo; e imperfeição, pois, ao mesmo tempo, é feita de ignorância, de erro e de desejo. A consciência é uma transição entre a vida do corpo e a vida do espírito. É um perigo, pois pode ser posta a serviço do corpo, que, no entanto, ela não cessa de ultrapassar. É uma interrogação perpétua, uma hesitação que não cessa de nos dar insegurança em nossa vida cotidiana; e, no entanto, é uma luz que nos guia para a segurança de uma vida sobrenatural.