Prefácio
V. O eu tem o universo por espelho
O mundo é como um vasto Si-mesmo ao qual, em princípio, o eu é coextensivo: ele contém riquezas incalculáveis, mas, em mim, não passam de potências cuja disposição me é, por assim dizer, confiada. Essas potências não contribuem apenas para me revelar e me fazer aquilo que sou: é o mundo inteiro que elas obrigam a desdobrar-se diante de mim. A consciência que cada um de nós soube tomar de si torna-se, numa espécie de projeção, o próprio rosto que o mundo lhe mostra. E a aventura de Narciso testemunha que não há fonte milagrosa em que o eu consiga se ver. É que não há para ele outro espelho senão o mundo. Pois ele não tem existência separada. O mundo é o seu reflexo. Em vez de dizer que posso conhecer tudo, com exceção de mim mesmo, é preciso dizer que, em tudo o que posso conhecer, nunca conheço senão a mim mesmo. Assim, o que caracteriza a consciência de si é espiritualizar a imagem do mundo, revelar-me sua interioridade e seu sentido.
A consciência de si é, portanto, uma presença a si mesmo e ao mundo, uma presença de todos os instantes: quanto mais estou presente a mim mesmo, mais estou presente ao mundo; onde cessa a consciência de si, vivo numa ausência perpétua. Ela é um diálogo de si consigo mesmo, com as coisas, com os outros seres e com Deus. E, nesse diálogo, já não sei se sou eu que respondo a mim mesmo ou se recebo uma resposta silenciosa de tudo o que é. Estou sempre dentro de mim mesmo e sempre fora: à medida que avanço mais, a linha de separação entre o dentro e o fora não para de se apagar e de se refazer. Crê-se com demasiada facilidade que é simples estabelecer uma fronteira rigorosa entre o que sou eu e o que não sou eu. Mas quem ousaria dizer: até aqui sou eu, e não além? Essa fronteira é indefinidamente variável e indefinidamente extensível segundo a direção e a potência da atenção ou do amor. Sinto, a cada instante, e numa sequência ininterrupta de oscilações, o mundo que se amplia ou se estreita para mim, que ora me acolhe, ora me abandona.
Nada aqui se encontra de antemão fixado, detido ou circunscrito. Pois a consciência do que sou é a consciência do que posso ser, de uma potência incessantemente em ação e que nunca consegue esgotar-se. A consciência me permite dispor dessa potência no milagre do instante. Não há aqui conhecimento de uma coisa dada, mas apenas lucidez no exercício de uma atividade cujo jogo jamais pode ser suspenso. Ela não é, portanto, como a visão de uma paisagem que se oferecesse de fora ao olhar, mas como uma paisagem que nascesse do próprio ato do olhar. A consciência de si é uma reflexão sobre si, mas uma reflexão que, em vez de supor o objeto ao qual se aplica, o engendra ao se aplicar a ele.
Não se deve pensar que a consciência de si nos revela tesouros que residiriam de antemão — segundo uma expressão célebre — num cofre do qual ela nos daria a chave. Isso não passa de uma metáfora. E seria melhor invertê-la: pois seria mais verdadeiro dizer que a consciência de si nos retira tudo o que pensávamos ter. Ela exige que sejamos livres e despojados, numa pobreza perfeita; que não pensemos em adquirir nada, nem em reter nada. Tudo o que chamamos riqueza é como um fardo sobre nossos ombros, um véu diante do nosso olhar. A consciência de si nos ensina a nada possuir para nos tornarmos presentes a tudo o que é e a tudo o que pode ser. É preciso que ela se reduza a um ato de atenção pura que, no fundo de nós mesmos, não é senão uma espécie de participação consentida naquele ato eterno e sempre recomeçado que é o próprio ato da criação.