Prefácio
IV. O eu é uma solidão aberta para todo o universo
A consciência de si nunca termina de revelar tudo o que é capaz de conter. Estamos tão estreitamente unidos às coisas e aos seres que encontramos em nosso caminho que não podemos desabrochar para nós mesmos sem que o mundo inteiro também desabroche para nós. A consciência me faz surgir à existência; e, ao mesmo tempo, vejo surgir à existência todas essas coisas e todos esses seres que habitam comigo o mesmo mundo e com os quais vou tecer todas as relações imprevisíveis que formarão a trama da minha existência. Para mim, é uma revelação contínua e uma criação ininterrupta.
O ser blasé e indiferente é aquele em quem a consciência de si se apaga aos poucos. O hábito pouco a pouco o envolve e o adormece. A existência é para ele uma espécie de objeto ao mesmo tempo irritante e familiar, cuja simples presença o entedia e o repele. Ele a relega naturalmente à noite, isto é, ao nada.
Mas a consciência de si é uma aurora perpetuamente nova. É uma luz que mal se sente chegar, mas que vemos, sucessivamente, desenhar os contornos das coisas, tornar transparente sua profundidade, mudar a cada instante seu aspecto e em breve nos dar o espetáculo de um mundo do qual somos o centro, mas cuja figura varia e se multiplica sem cessar segundo o menor movimento de nossos passos ou apenas do nosso olhar. Não é apenas, como se crê, um clarão secreto que ilumina somente a nossa caverna interior. É a mesma luz que nos revela o interior e o exterior. Se a consciência se perde, é o eu que afunda, mas é também o universo que desaba. Onde a consciência de si se atenua, não é preciso crer que as coisas, em troca, ganhem mais relevo: o interesse e a vida se retiram delas. Elas não passam de imagens desprovidas de significação. Deixam de nos comover. Sua existência já não é comparável à nossa. Deixamos de fazer parte, com elas, do mesmo universo; elas se destacam de nós e já não cooperam conosco na aventura do nosso destino.
Com mais razão ainda, a presença das outras pessoas no mundo é inseparável da nossa: a consciência de si é, para cada um de nós, a consciência das suas relações com o outro. O que restaria de nós mesmos se fosse preciso cortar os laços que nos unem a todos os seres no meio dos quais vivemos, cujo menor contato basta para modificar nosso equilíbrio interior e, às vezes, mudar o sentido de toda a nossa existência? No segredo da solidão, não cessamos de pensar em todos esses seres reais ou possíveis, e a simples imagem deles, assim que se nos oferece, basta para reacender em nós a chama da vida.
Isso é tão verdadeiro que se pode mesmo perguntar se não há uma unidade da consciência humana que se divide entre todas as consciências individuais, como numa multiplicidade de pontos luminosos, mas cuja luz, por uma sucessão de reflexos e refrações, vem de toda parte, de tal modo que cada um deles está, em relação a todos os outros, ao mesmo tempo iluminando e iluminado, isto é, sem dúvida, ao mesmo tempo criado e criador.
Eis a razão pela qual a consciência de si, longe de nos encerrar em nosso ser separado como numa estreita cela, nos dá uma abertura para o infinito.
A consciência de si me revela a intimidade de uma solidão, mas em que o universo pode ser recebido. É a solidão de um nascimento, mas que é a do universo.