Prefácio
III. O eu, ou o poder indivisível de se conhecer e de se fazer
A consciência de si não se reduz à descoberta de um ser secreto que eu reconheceria como meu. Ela é inseparável de uma iniciativa cujo exercício depende de mim. O eu não é um ser dado, mas um ser que se dá, todos os dias, a si mesmo. Quando o eu se interroga sobre si, acontece que não encontra em si senão uma espécie de deserto. E compreende-se que quem procura um objeto do qual possa dizer que é seu não encontre senão o próprio corpo. Esse corpo, é verdade, produz sem cessar uma espécie de vibração interior de que o eu nunca se livra; mas essa vibração o arruína, se nela se compraz, e o ofusca ou o paralisa, em vez de constituí-lo. Pois o eu não é uma coisa: é um simples poder que detém em si recursos ocultos, sempre disponíveis, mas cujo uso está em suas mãos. Quantas pessoas deixam esses recursos sem uso e nunca se tornam tudo o que poderiam ser! Mas nenhuma delas consegue jamais realizar a própria totalidade do ser cuja possibilidade trazia em si. E parece que cada um de nós morre sempre inacabado. Todas essas tendências que há em nós e que nem sempre afloram à luz formam a matéria de todas as nossas intenções; só que cabe a nós pô-las em prática. Assim, somos responsáveis tanto por agir quanto por não agir. Vê-se isso bem nessa ambiguidade que nos aparece como inseparável da própria intenção, assim que empreendemos julgá-la; pois onde não há intenção, o eu deixa de estar presente, e onde há apenas intenção, o eu permanece um ser virtual, ainda não realizado: em ambos os casos, a justiça nos deixa quites.
A dificuldade nasce sempre da ideia de que há em nós um eu distinto da própria consciência que temos dele. Mas, antes de tudo, antes que eu tenha tomado consciência dele, não há nada de que eu possa dizer que me pertence, nem, com maior razão, que eu o seja. E essa consciência mesma não reside na luz com que ilumino algo diferente dela, mas num ato que eu assumo e pelo qual produzo essa luz sem a qual coisa alguma seria minha. A consciência de si é distinta do si-mesmo, se imaginamos o si-mesmo como um objeto que me é oferecido do exterior, e idêntica ao si-mesmo, se ele é a operação interior pela qual eu me faço, eu mesmo, aquilo que sou.
A consciência de si ultrapassa, portanto, de modo singular, a distinção que quase sempre estabelecemos entre conhecimento e ação. Não há diferença, para o eu, entre conhecer-se e fazer-se.
Na consciência de si, é o mistério da vida que se me revela em plena luz, mas sem perder nada do seu caráter misterioso, pois é essa própria luz que faz dele o maior mistério. Ela é o ponto em que não cesso de me descobrir e de me criar ao mesmo tempo, mas em que a descoberta e a criação de si se confundem, para ela, com a descoberta e a criação do mundo.