Prefácio
II. O extraordinário poder que tenho de dizer “mim” e “eu”
A existência é um grande mistério. Mas só o descubro nesse extraordinário poder que tenho de dizer “mim” ou “eu”. Nada conheço da existência; mas eu a trago em mim, eu a possuo: é ela que faz com que eu seja. E a maior emoção que eu possa experimentar, fonte de todas as outras, é que haja um ser sempre presente para mim, do qual nunca me separo, que me constitui, que parece sempre me escapar e que sempre reencontro, que se impõe a mim apesar de mim e que, no entanto, é tal que é ele que eu sou. Nenhum hábito apaga essa emoção pela qual descubro, no mundo, uma existência que é a minha: assim que me é dado o menor ócio, que me arranca do espetáculo das coisas e das tarefas mais familiares, ela sempre renasce. Ela me encerra numa solidão em que ninguém penetra. Mas, nessa solidão, não sei se meu abalo é maior ao descobrir a presença de um mundo do qual faço parte ou ao sentir que eu mesmo faço parte dele. Eis um segredo duplo e indivisível: em comparação, as coisas familiares que captam todos os olhares não passam de aparências frágeis que se afastam de mim como um cenário quimérico.
O eu forma com a existência um nó invisível e subterrâneo. Ele lança, no fundo mesmo do ser, raízes que vêm perfurar a superfície do solo e fazer emergir à luz toda a minha vida como uma arborescência milagrosa. Ali mesmo onde ele é mais obscuro, parece estar inteiro presente, embora nada saiba disso.
No entanto, onde nada sei de mim, ainda posso dizer “mim”? Essa coisa tão próxima e que me parece ser eu, se permanecesse sempre sepultada nas trevas, seria para mim tão estranha quanto as coisas mais distantes e das quais o eu jamais saberá nada.
Não o creio, porém. Pois me parece haver uma afinidade profunda, impossível de definir, entre esse ser misterioso que trago em mim e o eu que um dia serei, quando dele tiver tomado consciência. Não encontro nenhuma afinidade desse gênero entre um objeto desconhecido e o conhecimento que eu possa vir a ter dele: este nunca o revela como meu, nem como eu; ele permanece um ser outro que eu, do qual apenas o conhecimento me pertence. Mas, quando se trata do eu, tudo muda: o eu nasce da própria consciência que dele tomo.
Encontro-me, pois, diante de um estranho paradoxo. Pois eis um ser que, para mim, era como se não fosse nada enquanto minha consciência o ignorava, mas que, assim que minha consciência se apodera dele — por uma espécie de verdadeira transfiguração ou de transubstanciação —, torna-se de súbito a substância do que sou. Diante de tantas coisas misteriosas que a experiência da vida faz surgir, uma após outra, da noite de minha alma, tremo sempre ao pensar que elas saem de mim, que vão me surpreender e me invadir sem que eu seja capaz nem de reivindicá-las, nem de negá-las.
Mas o que eram elas, antes de desabrochar à luz do dia? Como posso sequer afirmar sua existência antes do momento em que vêm me trazer seu testemunho, solicitar minha atenção para que eu as conheça como minhas, minha vontade para que eu tome sobre mim o encargo delas? Elas ainda não são senão puras possibilidades ocultas no fundo da minha natureza, mas que o eu ainda não ratificou nem incorporou. Às vezes procuram me arrastar apesar de mim e atravessam minha consciência, submergindo-a, sem que eu tenha o ócio de a elas aderir e assumi-las. Dir-se-ia que estão em mim sem serem eu. São forças que agem em mim sem mim. E eu sempre me desculpo por ser tão fraco que, ora me parece sucumbir a elas — como nos ímpetos do instinto ou da paixão —, ora me parece que elas me elevam acima de mim mesmo, como em certos ditados da inspiração.