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Prefácio

I. A consciência de si e o erro de Narciso

A Consciência de si é um livro destinado a mostrar, por meio de um apelo à experiência de todos os dias, que a consciência que temos de nós mesmos é justamente nós mesmos. O ponto em que ela nos permite dizer “eu” é também o único ponto do mundo em que se produz uma coincidência exata entre conhecer e ser. E procuramos, neste livro, mostrar qual é esse ser de que a consciência de si nos traz uma espécie de revelação: um ser feito de sombra e de luz, que apreende o real sob a forma da ideia, que é capaz de comunicar seu pensamento ao outro pela palavra ou pela escrita, que age por uma iniciativa que lhe é própria, mas pondo em prática uma atividade que recebeu e da qual apenas dispõe, que está sempre presente a si mesmo, mas como uma testemunha cuja sinceridade o amor-próprio sempre falsifica, que está para sempre encerrado em sua própria solidão e, contudo, comunga com todos os seres humanos; que, no amor, descobre sua intimidade mais profunda no fundo da dupla e recíproca intimidade entre quem ama e quem é amado; cuja vida, enfim, escoa no tempo e se encerra na morte, mas reside, no entanto, num presente eterno em que ele já pode desfrutar de todos os bens que há de possuir e que são bens puramente espirituais.

Apesar dessas análises, o próprio título do livro pode ter feito temer que a consciência de si nos encerrasse numa atenção complacente ao nosso ser separado. É esse o erro em que caiu Narciso e contra o qual procuramos nos defender com um novo livro. Pois ter consciência de si não é olhar-se num espelho, como queria Narciso, que nele via apenas a sombra de si mesmo: ao buscar alcançar essa sombra vã no fundo da fonte em que se mirava, ele não podia senão perecer. É que o eu não tem realidade anterior a esse ato pelo qual se interroga — nem sequer sobre o que é, mas apenas sobre o que vai ser. Ora, um espelho só reflete coisas: é o universo que ele nos mostra e, no universo, um corpo que suspeito, com uma espécie de estupor, ser o meu — é assim que os outros me veem —, mas com o qual hesito em me confundir; de que ora me aproximo, ora me afasto, e cuja figura, que sou incapaz de tocar, confronto sem cessar com a deste corpo vivo do qual nunca me separo, sobre o qual deslizo a mão e que mal consigo ver.

Esse esforço impotente que fez para abraçar sua imagem conduziu Narciso ao túmulo: ele morreu de amor de si. Mas, na realidade, as coisas se passam de outro modo. O ser humano que procura ver-se não encontra em si a beleza que espera; e, numa espécie de cinismo ou de desespero, assustado e humilhado pelo que a natureza lhe mostra, está sempre pronto a dizer, com uma mistura de consternação e desafio: “eis o que eu sou.” Ora, ele o diz quando ainda não é nada, isto é, assim que sente despertar todas essas forças que nele animam a vida do corpo e que solicitam seu consentimento sem que ele ainda o tenha dado. Ele não as descobre sem uma espécie de terror: pois também sente que esse ser que está nele é ele e, no entanto, não é ele; mas depende dele que ele se torne ele mesmo. O que só acontece se ele consegue convertê-lo em sua própria substância, isto é, tomar sobre si a responsabilidade por ele e assumi-lo. O eu nasce do animal que permanece sempre presente nele e cujos impulsos ele desvia, em vez de renunciar a eles.

Mas é possível ultrapassar ao mesmo tempo a Consciência de si e O Erro de Narciso, ou ao menos mostrar que esses dois livros são, eles próprios, expressões de uma filosofia em que a consciência que temos de nós mesmos envolve a consciência que temos do mundo. Reduzido a si mesmo, o eu não apreenderia senão o vazio; ora, é o mundo que vem preenchê-lo. Reduzido a si mesmo, o mundo seria um espetáculo puro cujo sentido nos escaparia: esse sentido é a consciência de si que lhe dá.

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