Capítulo 12 — Pia
Sinha Vitória tinha amanhecido nos seus azeites. Fora de propósito, dissera ao marido umas inconveniências a respeito da cama de varas. Fabiano, que não esperava semelhante desatino, apenas grunhira: — "Hum! hum!" E, recolhendo o chapéu de couro à arca da roupa, saíra para amansar um cavalo novo, pensando na mulher, que era um bicho esquisito, mulher de lua.
Sinha Vitória desejava possuir uma cama real, de couro e sucupira, igual à de Seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não sabia onde Seu Tomás arranjara aquela cama. Mas asseverava que era de couro e sucupira. Fabiano, que desconfiava da veracidade de Seu Tomás, tentara convencê-la de que ela se enganava, mas não insistira.
Agora pensava noutro objeto, também de categoria. Não sabia bem de que se tratava. Ouvira falar da coisa, muitas vezes, mas não tinha propriamente noção dela. Precisava consultar o marido, e isto lhe dava desgosto. Arreliar-se-ia por causa de uma palavra. Estava escuro, Fabiano andava no campo, não podia vê-la. E provavelmente nem sabia que ela existia. Sinha Vitória encolheu os ombros. Que importava que Fabiano soubesse ou não soubesse?
Trouxera do bebedouro um pote cheio até o gargalo, e desejava lavar as mãos. Mas o pote ficava em cima duma prateleira, e era difícil fazê-lo descer e torná-lo a colocar no lugar, sem auxílio. Pedir o braço de Fabiano, que estava ausente? Besteira. Uma criatura tão diminuída valer-se de uma criatura tão grande! Esforçar-se-ia, tentaria o impossível. Chegava a encolher-se toda, a fim de agarrar com a boca o gargalo do pote e puxá-lo. E ficava numa imobilidade rígida, receosa de que ele lhe caísse em cima da cabeça.
Naquele tempo a família vivia em sobressaltos, o chiqueiro e o curral estavam cheios, engordara bem. Um dia, quem sabe? Seria conveniente realizar o sonho. Não compreenderiam que realizá-lo era necessário. Sinha Vitória era uma pobre cabocla da fazenda. Nunca tinha visto uma cidade. Mas tinha certeza de que nas cidades as casas deviam ter o negócio que ela desejava.
Vivia dando voltas nos seus sonhos, vivia com esperança. Realizaria o sonho, e quando chegasse uma visita, ia mostrar a ela uma coisa de primeira, direitinha. A visita ficaria admirada, falaria nisso com as vizinhas, e as vizinhas invejavam Sinha Vitória. Ora, era preciso realizar aquele sonho. Iam-se transformar, e ela seria como as pessoas da cidade.
Assim pensando, Sinha Vitória lembrou-se da palavra. Pronunciou-a com uma satisfação de menina travessa. E acocorou-se na cozinha, junto à trempe. Desejou possuir aquilo, mesmo ignorando para que servia.
— Fabiano!
O marido estava no campo, não podia ouvir. Ninguém ouviria. E talvez a coisa não existisse. Sinha Vitória desejara durante meses uma cama de lastro de couro, e a cama de varas continuava firme. Na verdade não era firme: balançava e rangia. Seria bom substituí-la por uma cama de verdade. Ora, a cama estava ali, rangendo. Não havia meio de transformá-la. A palavra era: cama. E ela, Sinha Vitória, não tinha outra.
Agora desejava outra coisa, uma coisa diferente, que ela mesma não sabia dizer. Sabia, mas tinha um nome esquisito. Ouvira-o na cidade e ficara um pouco admirada. Depois se habituara. E passara a desejar a coisa esquisita, o nome esquisito. Que nome seria? Esquecido. Procurou lembrar-se, inútil. Estava escuro, Fabiano andava no campo. O que ela desejava tinha uma forma e uma cor, mas Sinha Vitória não podia dizer que cor e que forma eram aquelas. E tinha um nome.
— Pia.
Ora, bolas! Lembrou-se da forma e da cor. A forma era bonita. Esforçou-se por tornar a vê-la com os olhos da alma. Não viu. Vira a cama de varas, imaginara a transformação dela numa cama de couro. Quis ver a coisa diferente. Em vão. E aquele nome feio, pia.
Levantou-se, aprumou-se, caminhou de um lado para outro. Tinha uma forma e uma cor, tinha um nome. Devia servir para alguma coisa. Fazia parte das casas da cidade. E Sinha Vitória desejava possuir uma, importantes, como as pessoas da cidade.
— Pia.
Palavra feia. Não sabia onde a metera na cabeça. Ouvira-a a várias pessoas, homens e mulheres. Alguém a pronunciara perto dela, na feira. E ela gravara a palavra, com a esperança de aprender qualquer coisa. Fora em conversa de gente instruída, umas tantas palavras que ela não compreendia. Que importava? Sinha Vitória sabia que as pessoas da cidade tinham muitas coisas que ela não tinha.
Pia. Nunca vira uma, mas tinha a certeza de que era um objeto valioso. Principalmente porque ouvira falar dele quando uma filha de Seu Tomás da bolandeira tinha vindo visitar a fazenda. Indagara à pequena se na cidade havia pia, e ela respondera que sim, havia. Então ficara convencida de que era necessário possuir uma pia.
Balançou a cabeça, lamentando a condição dela. Provavelmente as pias eram caras. E ela, pobre, sem nada, desejando uma coisa difícil! Necessário ir ver as pias, se aperfeiçoar. Uma grande ambição, mas talvez fosse possível. Com tanto trabalho, poderiam economizar dinheiro. Viriam tempos melhores, choveriam para os lados do sertão.
— Pia.
Era uma esquisitice. Não sabia para que serviam as pias. Sabia, entretanto, que eram úteis. A filha de Seu Tomás não falaria uma coisa à-toa. Uma pessoa da cidade, instruída, tinha dito que havia pias. E se havia, seria bom ter uma no seu rancho. Os outros viriam admirá-la, invejá-la. E ela, Sinha Vitória, possuiria uma coisa que os outros não tinham.
Não havia dúvida: as pessoas da cidade sabiam muitas coisas, serviam-se de objetos maravilhosos. E Sinha Vitória desejava aproximar-se delas, reproduzir as suas maneiras e os seus costumes.
Foi buscar um pote vazio, trouxe-o do bebedouro e colocou-o num canto da cozinha. Ficou a contemplá-lo. A vasilha de barro ali acocorada era uma pia, não tinha dúvida.