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Capítulo 11 — O mundo

O menino mais velho ia tagarelando. Não obtinha resposta e não se incomodava. De quando em quando fazia uma pergunta, esperava a explicação que não vinha e caía num assombro que durava pouco, porque vinha outra pergunta.

Sinha Vitória, agoniada, queria ver-se livre daquele incômodo. Mostrou as folhas distantes, que pareciam birutas multicores. Não tinha dúvida: eram as terras do Seu Tomás, muito longe. Que iriam fazer eles lá? Bem. Daqui a muito tempo iriam. Chegariam a uma cidade. Os meninos frequentariam escola, seriam diferentes dos pais. Isto havia de acontecer. Preciso viajar e conhecer aquilo tudo.

Fabiano, a mulher e os dois filhos iam-se amolando. Precisavam sair daquele lugares, passar uns dias afastados da fazenda. Agora estavam descansados, podiam mudar-se quando quisessem. Levavam a família, as malas de couro, os troços. Iriam para diante, sempre para diante, não voltariam nunca, e quando chegassem a uma terra distante, ficariam nela, descansariam, com o coração sem sobressaltos.

Falavam de coisas agradáveis. Sinha Vitória mencionava a cama de lastro de couro. Fabiano concordava, encolhendo os ombros. Se ela queria, estava dito. Não ia desagradar à mulher por causa de um móvel. Sinha Vitória arranjava explicações. Era feio dormir no chão, como porcos. Fabiano grunhia: — "Hum! hum!" Como porcos, dizia ela. Fabiano não se opôs: era duro viver como bichos e não falar como gente.

Concordava com a mulher. Mudar-se-iam, levariam os filhos para uma cidade qualquer e os colocariam numa escola. Ele só teria a resmungar, mas a obrigação dela era falar, conversar com Sinha Terta, fofocar com a comadre, admirar as saias das outras. Ao chegarem a uma terra civilizada, os meninos entrariam na escola. Ele, Fabiano, seria o pai deles, um pobre diabo, cabra, mas os meninos seriam diferentes. Sinha Vitória teria uma cama de lastro de couro. E os meninos dormiriam em redes.

O menino mais velho se aproximou, perguntou não sei que coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o, aludindo à roupa, ao calçado, aos objetos de uso doméstico. Em seguida, afastou-se e começou a andar de um lado para outro.

— Inferno!

Queria Sinha Vitória e os filhos felizes. Mas estava preso a uma terra, a um patrão, ao soldado amarelo, ao fiscal da prefeitura. Procurou em vão perceber o que eles desejavam dele. Certamente havia de livrar-se dessas pestes. Era impossível continuar a viver assim, arreliado, puxando facão, largando-o, tenso, desesperado.

Estirou o beiço, avançou uns passos no escuro. Mas sentiu frio, e foi-se arrepiando, morrendo de medo. Caminhou mais depressa. A fazenda enorme, a noite enorme, o mundo enorme. Estranha demais a claridade da lua, os objetos brilhando. Meteu-se entre as pedras, avançou cautelosamente, devagar, afastou-se, num desvio. Mas para onde se dirigia? Desandou. Voltou, inquieto. Precisava saber onde estava Sinha Vitória. Os juazeiros. O escuro estava demasiado denso. Apressou-se, amedrontado. Diante dele o caminho era incerto. Como poderia saber que caminho tomara Sinha Vitória? Mexeu na cabeça. Nada. Onde estaria Sinha Vitória? Onde estariam os meninos? Talvez estivessem perto. Quem sabe? Por que se ocultavam?

Chamou a mulher, em vão. Uma coruja piou. Estava perto. Onde estaria a coruja? Esticou o pescoço, pôs as mãos em concha junto às orelhas, para distinguir melhor a direção do ruído. Esquerda. Direita. Atrás. Não sabia onde estava a coruja. Ninguém saberia dizer onde estava a coruja. Bem. Não havia pensamento nenhum na cabeça dele. Olhou o céu, procurando constelações. Não as encontrou. O mundo estava disposto de maneira que ele não podia saber onde estava a coruja nem onde estava Sinha Vitória. Afligiu-se. Chamou de novo. Nada. O pio da coruja, que enchia o mundo de mistério, vinha da esquerda, da direita, de trás, de todos os lados. Desgraça. Estava perdido.

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