Capítulo 9 — Contas
Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, rodiam os bichos do chiqueiro, depois os cabritos e os bezerros morriam. Vendia-os para se livrar de despesas. Não ficava com nada.
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria?
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo. Na porta, virando-se, enganchou as rosetas das esporas, afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no chão como cascos.
Foi até à esquina, parou, tomou fôlego. Queria entrar na bodega, puxar conversa com o vendeiro, desabafar. Era uma necessidade, mas teria de gastar dinheiro, e Fabiano detestava o desperdício. Bateu as alpercatas no chão, reacendeu o cigarro, puxou fumaça e empurrou a porta da bodega.
Seu Inácio, gorduroso, ensebado, estava detrás do balcão. Fabiano pediu uma pinga, virou o copo de um trago, limpou os beiços à manga, maldisse os patrões e esbravejou. Devia ser ignorância da mulher. Aqueles eram demais. A gente trabalhava como um mouro, guardava tostão sobre tostão — e um dia de tarde vinha o amo com um papel na mão, sentava-se na mesa da sala, em frente de Fabiano, e fazia contas. No fim da operação devolvia os tostões guardados.
Isto era. Ele, Fabiano, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Não percebia.
Seu Inácio evitou responder, e Fabiano, com o pensamento no patrão, dirigia-lhe injúrias. Seu Inácio bebeu um gole de café, resmungou qualquer coisa e foi mexer em umas garrafas, consertando prateleiras. Por que seria que Seu Inácio não queria dizer nada? Ficava em cima do muro, conversava com os dois lados. Cachorro, cambembe, estava bem. Mas para que tanto papel? Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava aí. Papagaio sabido como Seu Tomás da bolandeira falava bonito, disparava nomes arrevesados, mas um dia caíra no mundo, com a família, sem rumo, tangido pela seca. Seu Inácio cochichou:
— Governo.
Fabiano achou a palavra horrorosa. Pior que trovão, pior que o rumor dos matutos em casa de Seu Inácio. Era pior que tudo. Governo! Nunca vira o governo, mas sabia que ele era perverso, pior que os urubus e os donos de fazendas. Tinha pensado um momento em ser governo, mas isto fora um sonho. Bem. O governo como que estava longe. Se governasse, as coisas seriam direitas. Não eram. Governo era gente tirana, pegava tudo, não deixava ninguém viver. Até Seu Inácio, que tinha negócio, estava sujeito ao governo. Estremeceu. Aquilo, sim, era uma desgraça. Os homens ricos, com o governo, enganavam os pobres, roubavam.
Saiu da bodega, montou o cavalo de fábrica e partiu, na vertical do meio-dia, pensando na infeliz, nos filhos, nos amigos de Seu Tomás. Procurava avaliar a desgraça que o atingia e via-se perdido numa multiplicação confusa. Aquilo era língua de gente da cidade. Mas ele era bruto. Não sabia ler, escrever, não sabia fazer contas. Tinha trabalhado muito e recebido menos do que lhe pertencia. Era injusto, mas as leis deviam ser assim. Para se defender precisava ler e escrever. Estava preso. Por que estava preso? Achava-se na situação de um cachorro sem dono. Depois pensava na partida e no futuro incerto. Talvez fosse melhor.