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Capítulo 8 — Baleia

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por esse motivo Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito. Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

— Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferenciavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.

Não era preciso barulho não. O que estava feito estava feito. Não se conserta um erro com um gemido, nem arrumam-se cacos de louça partida com lágrimas. Tinha sido uma desgraça, mas era preciso esquecer. Nunca ter havido gente como eles. E a culpa era do bicho. Por que teria o estúpido animal dado para aquela desesperação repentina, mordido os homens e tornado a vida difícil? Necessidade de morrer.

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Os meninos, em perigo, sentiam falta dela. Baleia se inquietou, ouvindo-os:

— Vão bulir com a Baleia?

Ela queria protegê-los, mas nem se podia mexer, inútil, um bagaço. Um peso enorme esmagava-a, uma sombra a cobria. Fabiano estava perto e Baleia desejou acordar para defender-lhe as pernas. Infelizmente não conseguia agarrar-se ao sono, como desejava. Sentia a aproximação da morte, por isso fugira para ali. O corpo já estava frio, mas o resto ainda não se resolvera a extinguir-se. Abandonou-se como se em redor tudo fosse escuro.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas do amigo, não conseguiu. Sombras. Muitas sombras. E as pernas de Fabiano eram as maiores sombras da campina.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barranco haviam-lhe embotado os sentidos. Agora não podia mais levantar-se, nem latir, nem correr, e estava transformada num objeto pardo e peludo que mexia a custo a cabeça e não tinha força para morder Fabiano.

Fabiano era o dono dela, um dono enorme. E Baleia via vagamente uma coisa qualquer, que era a mão de Fabiano. Não podia ver a cara do amo. Os olhos da cachorra estavam vidrados e Fabiano, um vulto indeciso, crescia, vacilava, sumia-se. Baleia arfava, a língua pendente para fora da boca. Seria bom deitar-se numa sala com ladrilhos, como fizera algumas vezes. Lembrou-se confusamente dos preás, das pedras, da agua. Tentou adivinhar a intenção de Fabiano, esforçando-se por entendê-lo. Sombras apenas.

Iria morrer. Bem. O que sentia agora era raiva daquela situação desagradável, raiva e ciúmes de Fabiano. A tremura subia, deixava a barriga e o peito, alcançava o pescoço, espalhava-se na cabeça. Os olhos ficaram azulados e meio fechados.

Baleia procurou Fabiano. Queria avisar-lhe que estava morrendo. Mas Fabiano não pareceu entender. Baleia continuava a bater as pálpebras, procurando ver melhor, e mexia o rabo, implorando um olhar do dono.

Provavelmente Fabiano pensava que ela estava com raiva dele. Não estava. Fabiano continuava a ser um deus, e Baleia divinizava também os meninos e Sinha Vitória. Conservava um resto de esperança na humanidade. Se conseguisse ficar boa, apanharia muitos preás. Ofereceria alguns a Fabiano. Daquela vez não dissera que ela era como uma pessoa da família. Não. Era um bicho, a obrigação dela era viver arrastada, curva, submissa. E esfregava-se contra a pedra.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

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