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Capítulo 6 — Inverno

A caatinga ressuscitara, em parte. As folhas caíam, cobriam a terra de tapetes vermelhos, depois murchavam, tornavam-se pardas e sumiam. Novas folhas nasciam, pequeninas, débeis, enroladas, e abriam-se, duras, resistentes. Por baixo delas os gravetos secos alastravam-se, pretos, reduzidos, sem serventia.

Na lama seca do bebedouro, as pegadas dos animais desapareciam. Nas porteiras dos currais e nos cruzeiros das veredas, o chão gretava-se, cobria-se de fendas insaciáveis, que, adormecidas na seca, agora se escancaravam, vermelhas, indiscretas.

A fazenda renascia. E Fabiano esfregava as mãos, satisfeito. Sim senhor, a fazenda era dele. Era. Ao se apossar da casa, tivera a impressão de que ela lhe pertencia. Pensando bem, isso era um erro, mas nem sempre a gente pensa direito. Agora, ali na catinga, era possível esquecer a cidade, o patrão, o soldado amarelo, e tudo quanto há de ruim no mundo. Fabiano estirava-se no chão, os olhos azuis perdidos nos ramos da umbuzeira. Por que não podia viver escondido com a família naquele deserto?

Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. A caatinga ficaria toda verde. As águas corriam, um pé-de-turco verdejava, as várzeas se cobririam de capim. Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água e o baú de folha pintada. Os meninos cresceriam e o ajudariam na lida do campo.

Fechou os olhos para não ver a catinga amarela, e aquele bem-estar que estava sentindo cresceu. Não tinha culpa de em dias de aperto comer carne de gado alheio. Era assim com todos os vaqueiros do sertão. Demais não comia propriamente a carne; era o couro. Quando um sujeito chegava à boca do forno, não tinha outro jeito senão comer o que não lhe pertencia. E depois... Que ideia de besteira! Não era possível que um cristão matasse outro cristão por causa de um boi. A fazenda tinha tantas reses! Não fazia falta um bezerro, em tantas cabeças de gado. De certo o patrão nem dava por aquilo.

Levantou-se, agarrou o facão e dirigiu-se aos juazeiros. A novilha raposa estava comendo ramos de catingueira. Não tinha morrido, a oração e a creolina haviam-lhe curado a bicheira. Fabiano encostou-se ao tronco de um pau, abandonou o facão, acendeu o cachimbo, matou a saudade dos meninos e de Sinha Vitória.

Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.

Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam?

Fabiano, você é um bicho. Estava ouvindo falar demais. Puxou a fumaça do cachimbo e cuspiriu-a. Agora Sinha Vitória vivia de mal com ele. Mulher é um bicho difícil de entender, pior que a aparição do demônio em quatro patas. A cama. Sinha Vitória vivia falando em cama. Havia mister juntar dinheiro, comprar um móvel, uma miséria qualquer, e estavam naquela matinada por causa de cama.

Tolice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era tolice. Cambembes podiam ter luxo? Ao chegarem àquele lugar tinham a impressão de estarem sempre de viagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo. Carregariam cama no lombo? Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau.

Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas — ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo.

Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como Seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.

— Um homem, Fabiano.

Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.

E o chocalho dos badalos de ossos? Esperava com certeza que as fontes borbulhassem, que o riachinho se enchesse de água, que a bicheira se espalhasse pelas reses. Mataria um bezerro e comeria a carne antes que o patrão o expulsasse da casa. Mas ia depressa demais. Fabiano tinha medo que a fome chegasse de supetão e o apanhasse ali, na catinga vermelha, entre as árvores sem folhas. Não queria viver e morrer como um bicho.

Afastou esses pensamentos. Dali a pouco chegaria à beira do rio. Desejaria subir a ladeira e encontrar na cozinha Sinha Vitória acocorada junto à trempe, soprado o fogo. Os meninos estariam no barreiro, brincando com Baleia. A cachorra corria, farejando pegadas. Infelizmente Fabiano tinha obrigações. Apertava-lhe o coração deixar a casa vazia. Mas ele era vaqueiro, sinha Vitória costureira, e aquilo não tinha remédio.

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