Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
Os meninos, em perigo, sentiam falta dela. Baleia se inquietou, ouvindo-os:
— Vão bulir com a Baleia?
Ela queria protegê-los, mas nem se podia mexer, inútil, um bagaço. Um peso enorme esmagava-a, uma sombra a cobria. Fabiano estava perto e Baleia desejou acordar para defender-lhe as pernas. Infelizmente não conseguia agarrar-se ao sono, como desejava. Sentia a aproximação da morte, por isso fugira para ali. O corpo já estava frio, mas o resto ainda não se resolvera a extinguir-se. Abandonou-se como se em redor tudo fosse escuro.
Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas do amigo, não conseguiu. Sombras. Muitas sombras. E as pernas de Fabiano eram as maiores sombras da campina.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barranco haviam-lhe embotado os sentidos. Agora não podia mais levantar-se, nem latir, nem correr, e estava transformada num objeto pardo e peludo que mexia a custo a cabeça e não tinha força para morder Fabiano.
Fabiano era o dono dela, um dono enorme. E Baleia via vagamente uma coisa qualquer, que era a mão de Fabiano. Não podia ver a cara do amo. Os olhos da cachorra estavam vidrados e Fabiano, um vulto indeciso, crescia, vacilava, sumia-se. Baleia arfava, a língua pendente para fora da boca. Seria bom deitar-se numa sala com ladrilhos, como fizera algumas vezes. Lembrou-se confusamente dos preás, das pedras, da agua. Tentou adivinhar a intenção de Fabiano, esforçando-se por entendê-lo. Sombras apenas.
Iria morrer. Bem. O que sentia agora era raiva daquela situação desagradável, raiva e ciúmes de Fabiano. A tremura subia, deixava a barriga e o peito, alcançava o pescoço, espalhava-se na cabeça. Os olhos ficaram azulados e meio fechados.
Baleia procurou Fabiano. Queria avisar-lhe que estava morrendo. Mas Fabiano não pareceu entender. Baleia continuava a bater as pálpebras, procurando ver melhor, e mexia o rabo, implorando um olhar do dono.
Provavelmente Fabiano pensava que ela estava com raiva dele. Não estava. Fabiano continuava a ser um deus, e Baleia divinizava também os meninos e Sinha Vitória. Conservava um resto de esperança na humanidade. Se conseguisse ficar boa, apanharia muitos preás. Ofereceria alguns a Fabiano. Daquela vez não dissera que ela era como uma pessoa da família. Não. Era um bicho, a obrigação dela era viver arrastada, curva, submissa. E esfregava-se contra a pedra.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.