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Os amigos e os jornais traziam-me a revolução.

— Uma peste! — bradava Azevedo Gondim. — Foi um bluff. Ameaças pelo telégrafo e pelo rádio, boletins jogados por aeroplanos — todo o mundo se pelava de medo. Isto é o povo mais covarde que Deus fabricou.

— Exagero — opinava o advogado. Houve bravura.

— Que bravura! — berrava Gondim. — Gente que devia pegar no paufurado escondeu-se.

— Os da situação passada. Entre os revolucionários é diferente: há idealismo, há coragem. Não digo isto em público, mas há.

— Diabo leve o idealismo deles. E quanto a coragem...

— Vamos ser justos, Gondim — intervinha eu conciliador e murcho. — Essa coisa estava na massa do sangue do povo. Não valia a pena brigar.

— Não valia! Ora não valia! Todos iam pensando assim e eles foram entrando. E que falta de vergonha! Figurões do governo apareceram de repente com lenços vermelhos no pescoço.

— Isso foi em Alagoas — atalhava João Nogueira.

— Foi em toda a parte, homem. E mesmo agora, muitos não se passam porque não são aceitos.

— Quanto a mim — declarava Nogueira —, tanto me faz estar em cima como embaixo, que política nunca me rendeu nada. Estou embaixo e não pretendo subir. É verdade que sempre achei a democracia um contrassenso. Muitas vezes lhe disse. O diabo é que votei na chapa do governo. Mas, aqui entre nós, a ditadura só não presta porque estamos no chão.

Gondim protestava, indignava-se. E eu:

— Só queria ver padre Silvestre fardado de tenente.

— Que interesse tem ele em bancar o patriota? — dizia Nogueira.

— Animal! — resmungava Azevedo Gondim.

O Cruzeiro tinha perdido a subvenção. Conversas assim, repetidas, distraíam-me. Uma vez por semana os dois jantavam comigo. E na cidade sujeitos exaltados começavam a espalhar que S. Bernardo era um ninho de reacionários.

— Como vai o fuzuê?

— Mal.

E lá vinham notícias de violências desnecessárias, vinganças, comissões de sindicâncias lavando roupa suja.

Nogueira, moderado, desejava um acordo entre vencedores e vencidos.

Gondim detestava acordos. Dente por dente, percebíamos? Davanos conselhos violentos, a mim, ao Nogueira, às árvores do pomar, e instigava-nos a uma contrarrevolução (quanto mais depressa melhor) que varresse do poder aquela cambada de parlapatões. Queria um governo enérgico, sim senhor, duro, sim senhor, mas sensato, um governo que trabalhasse, restabelecesse a ordem, a confiança do credor e a subvenção de cento e cinquenta mil-réis mensais ao Cruzeiro. Como íamos é que não podíamos continuar.

Atirava-nos palavrões encorpados que no jornal lhe serviam para tudo. São Paulo havia de se erguer, intrépido; em São Paulo ardia o fogo sagrado; de São Paulo, terra de bandeirantes, sairiam novas bandeiras para a conquista da liberdade postergada.

— Você fala bem, Gondim — murmurava eu impressionado. — Você havia de trepar, Gondim, se o nosso partido não tivesse virado de pernas para o ar.

João Nogueira metia as botas na eleição e inculcava os conselhos técnicos. Gondim gostava do voto como de um filho pequeno e só admitia técnicos nas comissões da Câmara.

Casimiro Lopes, afastado, escutava-os com assombro.

Eu olhava a torre da igreja. E o meu pensamento estirava-se pela paisagem, encolhia-se, descia as escadas, ia ao jardim, ao pomar, entrava na sacristia.

João Nogueira condenava a literatura revolucionária, a patriotice alambicada.

O oratório, sobre a mesa, estava cheio de santos; na parede penduravam-se litografias; a porta dava pancadas no batente; apagava-se a vela, eu acendia outra e ficava com o fósforo entre os dedos até queimar-me. As casas dos moradores eram úmidas e frias. A família de mestre Caetano vivia num aperto que fazia dó. E o pobre do Marciano tão esbodegado, tão escavacado, tão por baixo!

Azevedo Gondim reclamava liberdade, aos gritos. Contenta-se com a renda mofina do jornal e deve os cabelos da cabeça. Conforma-se com isso. O que deseja é ver a gazeta de mangas arregaçadas, espumando, e no bilhar do Sousa, quando a carambola falha, insultar os políticos, umas toupeiras.

Agora a vela estava apagada. Era tarde. A porta gemia. O luar entrava pela janela. O nordeste espalhava folhas secas no chão. E eu já não ouvia os berros do Gondim.

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