Ia tão cego que bati com as ventas em Madalena, que saía da igreja.
— Meia-volta — gritei segurando-lhe um braço. — Temos negócio.
— Ainda? — perguntou Madalena.
E deixou-se levar para a escuridão da sacristia. Acendi uma vela e, encostando-me à mesa carregada de santos, sobre o estrado onde padre Silvestre se paramenta em dias de missa:
— Que estava fazendo aqui? Rezando? É capaz de dizer que estava rezando.
— Ainda? — repetiu Madalena.
Esperei que ela me sacudisse desaforos, mas enganei-me: pôs-se a observar-me como se me quisesse comer com os olhos muito abertos. Ferviam dentro de mim violências desmedidas. As minhas mãos tremiam, agitavam-se em direção a Madalena. Apertei-as para conter os movimentos e, com os queixos contraídos:
— A senhora escreveu uma carta.
O vento frio da serra entrava pela janela, mordia-me as orelhas, e eu sentia calor. A porta gemia, de quando em quando dava no batente pancadas coléricas, depois continuava a gemer. Aquilo me irritava, mas não me veio a ideia de fechá-la. Madalena estava como se não ouvisse nada. E eu, dirigindo-me a ela e a uma litografia pendurada à parede:
— Cuidam que isto vai ficar assim?
O pequeno mais velho do Marciano entrou nas pontas dos pés. Sem me voltar para ele, bradei:
— Vai-te embora.
O menino aproximou-se da janela.
— Vai-te embora — berrei de novo.
Provavelmente o meu aspecto lhe causou estranheza. Balbuciou:
— Fechar a igreja, seu Paulo.
Percebi que os meus modos eram desarrazoados e respondi com simulada brandura:
— Perfeitamente. Volta mais tarde, ainda é cedo.
Nove horas no relógio da sacristia.
O nordeste começou a soprar, e a porta bateu com fúria. Mergulhei os dedos nos cabelos.
— Que estás fazendo, peste?
O cabrito fugiu.
Nem sei quanto tempo estive ali, em pé. A minha raiva se transformava em angústia, a angústia se transformava em cansaço.
— Para quem era a carta?
E olhava alternadamente Madalena e os santos do oratório. Os santos não sabiam, Madalena não quis responder.
O que me espantava era a tranquilidade que havia no rosto dela. Eu tinha chegado fervendo, projetando matá-la. Podia viver com a autora de semelhante maroteira?
À medida, porém, que as horas se passavam, sentia-me cair num estado de perplexidade e covardia.
As imagens de gesso não se importavam com a minha aflição. E Madalena tinha quase a impassibilidade delas. Por que estaria assim tão calma?
Afirmei a mim mesmo que matá-la era ação justa. Para que deixar viva mulher tão cheia de culpa? Quando ela morresse, eu lhe perdoaria os defeitos.
As minhas mãos contraíam-se, moviam-se para ela, mas agora as contrações eram fracas e espaçadas.
— Fale — exclamei com voz mal segura.
— Para quê?
— Há uma carta. Eu preciso saber, compreende?
Meti a mão no bolso e apresentei-lhe a folha, já amarrotada e suja. Madalena estendeu-a sobre a mesa, examinou-a, afastou-a para um lado.
— Então?
— Já li.
A vela acabou-se. Acendi outra e fiquei com o fósforo entre os dedos até queimar-me.
— Diga alguma coisa.
Pareceu-me que havia ali um equívoco e que, se Madalena quisesse, tudo se esclareceria. O coração dava-me coices desesperados, desejei doidamente convencer-me da inocência dela.
— Para quê? — murmurou Madalena. — Há três anos vivemos uma vida horrível. Quando procuramos entender-nos, já temos a certeza de que acabamos brigando.
— Mas a carta?
Madalena apanhou o papel, dobrou-o e entregou-mo:
— O resto está no escritório, na minha banca. Provavelmente esta folha voou para o jardim quando eu escrevi.
— A quem?
— Você verá. Está em cima da banca. Não é caso para barulho. Você verá.
— Bem. Respirei.
Que fadiga!
— Você me perdoa os desgostos que lhe dei, Paulo?
— Julgo que tive as minhas razões.
— Não se trata disso. Perdoa?
Rosnei um monossílabo.
— O que estragou tudo foi esse ciúme, Paulo.
Palavras de arrependimento vieram-me à boca. Engoli-as, forçado por um orgulho estúpido. Muitas vezes por falta de um grito se perde uma boiada.
— Seja amigo de minha tia, Paulo. Quando desaparecer essa quizília, você reconhecerá que ela é boa pessoa.
Eu era tão bruto com a pobre da velha!
— Consequência desse mal-entendido. Ela também tem culpa. Um bocado ranzinza.
— Seu Ribeiro é trabalhador e honesto, você não acha?
— Acho. Antigamente deu cartas e jogou de mão. Hoje é refugo. Um sujeito decente, coitado.
— E o Padilha...
— Ah! Não! Um enredeiro. Nem está direito você torcer por ele. Safadíssimo.
— Paciência! O Marciano... Você é rigoroso com o Marciano, Paulo.
— Ora essa! — exclamei enfadado. — Que rosário!
— Não se zangue — disse Madalena sem erguer a voz.
— O que eu queria...
Sentei-me num banco. O que eu queria era que ela me livrasse daquelas dúvidas.
— Que é que você queria? — perguntou Madalena sentando-se também.
— Sei lá!
E encolhi-me, as mãos pesadas sobre os joelhos. Madalena, com ar meio sério, meio de brincadeira:
— Se eu morrer de repente...
— Que história é essa, mulher? Lembrança fora de propósito.
— Por que não? Quem sabe qual há de ser o meu fim? Se eu morrer de repente...
— Acabe com isso, criatura. Para que falar nessas coisas?
— Ofereça os meus vestidos à família de mestre Caetano e à Rosa. Distribua os livros com seu Ribeiro, o Padilha e o Gondim.
Levantei-me, impaciente:
— Que conversa sem jeito!
E agarrei-me a um assunto agradável para afugentar aquelas ideias tristes:
— Estou com vontade de viajar.
Sentei-me novamente, animei-me, acendi um cigarro:
— Depois da safra. Deixo seu Ribeiro tomando conta da fazenda. Vamos à Bahia. Ou ao Rio. O Rio é melhor. Passamos uns meses descansando, você cura a macacoa do estômago, engorda e se distrai. É bom a gente arejar. A vida inteira neste buraco, trabalhando como negro! E damos um salto a São Paulo. Valeu?
Madalena, olhando a luz, que tremia, agitando sombras nas paredes, saiu-se com esta:
— Hoje pela manhã já havia na mata alguns paus-d'arco com flores. Contei uns quatro. Daqui a uma semana estão lindos. É pena que as flores caiam tão depressa.
— Efetivamente — resmunguei procurando relacionar o Rio e São Paulo com os paus-d'arco. — E que me diz da viagem?
Madalena tinha os olhos presos na vela:
— Sim, estive rezando. Rezando, propriamente, não, que rezar não sei. Falta de tempo.
Meu Deus! Como andava aquela cabeça! Era a resposta à minha primeira pergunta.
— Escrevia tanto que os dedos adormeciam. Letras miudinhas, para economizar papel. Nas vésperas dos exames dormia duas, três horas por noite. Não tinha proteção, compreende? Além de tudo, a nossa casa na Levada era úmida e fria. No inverno levava os livros para a cozinha. Podia visitar igrejas? Estudar sempre, sempre, com medo das reprovações…
Estava perturbada, via-se perfeitamente que estava perturbada. Largou outras incoerências:
— As casas dos moradores, lá embaixo, também são úmidas e frias. É uma tristeza. Estive rezando por eles. Por vocês todos. Rezando... Estive falando só.
O relógio da sacristia tocou meia-noite.
— Meu Deus! Já tão tarde! Aqui, tagarelando...
Levantou-se e pôs-me a mão no ombro:
— Adeus, Paulo. Vou descansar.
Voltou-se da porta:
— Esqueça as raivas, Paulo.
Por que não acompanhei a pobrezinha? Nem sei. Porque guardava um resto de dignidade besta. Porque ela não me convidou. Porque me invadiu uma grande preguiça.
Fiquei remoendo as palavras desconexas e os modos esquisitos de Madalena. Depois pensei na carta que ela havia deixado no escritório, incompleta.
Para quem seria? Lá vinha novamente o ciúme. Aquilo ainda causaria infelicidades sem remédio.