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No dia seguinte encontrei Madalena escrevendo. Avizinhei-me nas pontas dos pés e li o endereço de Azevedo Gondim.

— Faz favor de mostrar isso?

Madalena agarrou uma folha que ainda não havia sido dobrada.

— Não tem que ver. Só interessa a mim.

— Perfeitamente. Mas é bom mostrar. Faz favor?

— Já não lhe disse que só interessa a mim? Que arrelia!

— Mostra a carta — insisti, segurando-a pelos ombros.

Madalena defendia-se, ora levantando o papel com os braços estirados, ora escondendo-o atrás das costas:

— Vá para o inferno, trate da sua vida.

Aquela resistência enfureceu-me:

— Deixa ver a carta, galinha.

Madalena desprendeu-se e entrou a correr pelo quarto, gritando:

— Canalha!

D. Glória chegou à porta, assustada:

— Pelo amor de Deus! Estão ouvindo lá fora.

Perdi a cabeça:

— Vá amolar a puta que a pariu. Está mouca, aí com a sua carinha de santa? É isto: puta que a pariu. E se achar ruim, rua. A senhora e a boa de sua sobrinha, compreende? Puta que pariu as duas.

D. Glória fugiu com o lenço nos olhos.

— Miserável! — bradou Madalena.

E eu só sabia dizer:

— Mostra a carta, perua.

Madalena rasgou o papel em pedacinhos e atirou-os pela janela:

— Miserável!

Saiu como um redemoinho. No corredor ainda gritou:

— Assassino!

Atordoado, murmurei:

— Cachorra!

E fiquei olhando os pedaços de papel que na manhã de vento esvoaçavam pelo jardim, entre as folhas das roseiras. Longe, no salão ou na cozinha, Madalena continuava a gritar:

— Assassino!

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