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Ia pregar-lhe uma descompostura, mas avistei Madalena, que, no paredão do açude, se virava para as ruínas do Marciano. Fui ao encontro dela, resmungando:

— Insolente! Dá-se o pé, e quer tomar a mão.

Mas a cólera tinha desaparecido. O que agora me importunava eram as caixas com o material pedagógico inútil nestes cafundós. Para que aquilo? O governador se contentaria se a escola produzisse alguns indivíduos capazes de tirar o título de eleitor.

— Tomando fresca, hem? — perguntei a Madalena, que tinha a vista presa no telhado escuro do estábulo.

Não deu resposta. Pus-me a olhar o bebedouro dos animais, o leito vazio do riacho além do sangradouro do açude e, longe, na encosta da serra, a pedreira, que era apenas uma nódoa alvacenta. A mata ia enegrecendo. Um vento frio começou a soprar. As últimas cargas de algodão chegaram ao descaroçador. Houve um apito demorado e os trabalhadores largaram o serviço. Consultei o relógio: seis horas.

— É horrível! — bradou Madalena.

— Como?

— Horrível! insistiu.

— Que é?

— O seu procedimento. Que barbaridade!

Despropósito.

— Que diabo de história...

Estaria tresvariando? Não: estava bem acordada, com os beiços contraídos, uma ruga entre as sobrancelhas.

— Não entendo. Explique-se.

Indignada, a voz trêmula:

— Como tem coragem de espancar uma criatura daquela forma?

— Ah! Sim! Por causa do Marciano. Pensei que fosse coisa séria. Assustou-me.

Naquele momento não supus que um caso tão insignificante pudesse provocar desavença entre pessoas razoáveis.

— Bater assim num homem! Que horror!

Julguei que ela se aborrecesse por outro motivo, pois aquilo era uma frivolidade.

— Ninharia, filha. Está você aí se afogando em pouca água. Essa gente faz o que se manda, mas não vai sem pancada. E Marciano não é propriamente um homem.

— Por quê?

— Eu sei lá! Foi vontade de Deus. É um molambo.

— Claro. Você vive a humilhá-lo.

— Protesto! — exclamei, alterando-me. — Quando o conheci, já ele era molambo.

— Provavelmente porque sempre foi tratado a pontapés.

— Qual nada! É molambo porque nasceu molambo.

Madalena calou-se, deu as costas e começou a subir a ladeira. Acompanhei-a, embuchado. De repente voltou-se e, com voz rouca, uma chama nos olhos azuis, que estavam quase pretos:

— Mas é uma crueldade. Para que fez aquilo?

Perdi os estribos:

— Fiz aquilo porque achei que devia fazer aquilo. E não estou habituado a justificar-me, está ouvindo? Era o que faltava. Grande acontecimento, três ou quatro muxicões num cabra. Que diabo tem você com o Marciano para estar tão parida por ele?

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