— Vamos jantar. Mandei chamá-lo porque julguei que você necessitasse, Padilha. Desde que está ocupado, ponto final. Vamos para a mesa.
Durante o jantar Azevedo Gondim referiu o motivo da sua visita: tinha-se descoberto o paradeiro da velha Margarida.
— Que está dizendo! E você calado, Gondim!
Azevedo Gondim encheu o copo:
— Mora em Jacaré-dos-Homens.
— Onde é isso?
— Em Pão-de-Açúcar. Recebi hoje uma carta. Os sinais, a idade, a cor, tudo confere. Vive com uma família que faz queijos. Já retirei o anúncio do Cruzeiro.
— Está direito. Vocês conhecem alguém em Pão-de-Açúcar? Conhece alguém em Pão-de-Açúcar, seu Ribeiro?
Não conheciam.
— Ó Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigário que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra. Acho que acompanho vocês, vou falar a padre Silvestre. É conveniente que a mulher seja remetida com cuidado, para não se estragar na viagem. E quando ela chegar, pode encomendar as miçangas, Gondim. Como se chamam?
— Clichês. Clichês e vinhetas.
— Pois sim. Mande buscar os clichês e as vinhetas, quando tivermos a velha.
— Estava aqui pensando na escola, murmurou Padilha.
— E eu. Tirou-me a palavra da boca, atalhou João Nogueira. Convide a Madalena, seu Paulo Honório. Excelente aquisição, mulher instruída.
— Até lhe enfeita a casa, seu Paulo, gritou Azevedo Gondim.
— Tolice. Ando lá procurando bibelôs?
Padilha, meio desconcertado, rosnou, agarrando-se ao osso:
— Eu não disse que não aceitava. O que disse é que tenho muitas ocupações. Mas perguntei qual é o ordenado.
Entretido em desarticular uma asa de galinha, não respondi.
— Perguntei qual é o ordenado, tornou Padilha timidamente.
Coitado! Tão miúdo, tão chato, parecia um percevejo.
— Conforme. Nem sei quanto você vale. Uns cem mil-réis por mês. Ponhamos cento e cinquenta a título de experiência. Casa, mesa, boas conversas, cento e cinquenta mil-réis por mês e oito horas de trabalho por dia. Convém? Mas aviso logo: serviço é serviço, e aqui ninguém bebe. Aqui só bebem os hóspedes.
— Perfeitamente, mastigou Padilha encabulado. Vou refletir. Quanto à bebida dispenso recomendação, que não bebo. Bebo nas refeições, nem sempre, e lá uma vez ou outra um cálice, por insistência de amigos. Talvez aceite.