Advertência
Este livro tem sua origem em duas conferências proferidas aos alunos de filosofia da École Normale Supérieure em 1944. Pareceu-nos útil, naquele momento, confrontar a noção de existência, que contava então — e ainda conta — com tão grande favor junto ao público, com a noção tradicional de ser, à qual havíamos consagrado outrora o primeiro volume de nossa Dialética do Eterno Presente, e com a noção de realidade, com a qual se corria o risco de confundir uma e outra, e que era o objeto único da percepção comum e da experiência científica. E havíamos pensado que se podia definir o ser como a fonte de todos os modos possíveis de participação, a existência como o ato de participação no ser, na medida em que se efetua em um ser capaz de dizer «eu e mim», e a realidade como o ser ainda, na medida em que, presente por inteiro ao eu ou ao mim, ele todavia o ultrapassa e assume, diante dele, a forma de um ser dado. A partir daí, essas três noções, por exprimirem afirmações distintas sobre o ser, podiam ser definidas como as categorias primeiras da ontologia.
Mas se o ser, em sua raiz, é ato — isto é, interior a si —, se é um si, que é também um por si, é evidente que há identidade entre o ser e sua própria justificação. Daí a impossibilidade de separar a ontologia da axiologia. Ora, não é por acaso que a filosofia clássica havia aproximado, a ponto de confundi-las, as duas noções de ser e de bem, que os contemporâneos não conseguem dissociar a noção de existência da noção de valor, e que é impossível evocar a realidade sem confrontá-la com o ideal que ela contradiz. É que a consciência é indivisivelmente intelecto e querer, e é impossível ao intelecto enunciar qualquer afirmação sobre um dos modos do ser sem atribuir-lhe um caráter que faz dele, ao mesmo tempo, um objeto do querer: já na percepção mais simples, o objeto que se oferece à nossa atenção esboça, de algum modo, o interesse que ela nele deposita.
Talvez se pense que tal empreitada está implicada no fundo de toda discussão sobre as relações entre o ser e o ato, e que não deixa de evocar essa relação que os historiadores procuram às vezes estabelecer entre o desígnio do Sofista e o do Filebo.