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De Volta à Casa

Os olhos, ordinariamente embaciados, tinham um pequeno brilho duro. Apaguei a luz e dirigi-me novamente à sala de jantar. Lembrei-me da garrafa de aguardente, mas quando ia pegá-la, senti a necessidade de lavar as mãos. Estava imundo e receava contaminar os objetos. Tomei um pedaço de papel, segurei com ele o ferrolho e abri a porta do quintal. Fui ao banheiro, meti as mãos no balde de água e lavei-as, muito lentamente porque as feridas começavam a doer em demasia. Deitei fora a água, mergulhei o balde no tanque e recomecei a lavagem. Enxuguei as mãos nos cabelos, voltei para a sala de jantar, bebi um pouco de aguardente. A garrafa estava quase cheia. Bebi outro gole, mas o meu desejo era tornar ao banheiro. Os cabelos estavam sujos e tinham sujado as mãos. Lembrei-me de ter posto na cabeça o chapéu de Julião Tavares. Lembrança intolerável. Fui ao quarto, descalcei-me, despi-me às escuras, deixei a roupa e os sapatos numa trouxa a um canto, agarrei a toalha e voltei, nu, meio atordoado pelo álcool. Achei na borda do tanque um pedaço de sabão ordinário e esfreguei cuidadosamente as mãos e os cabelos. O corpo todo estava sujo, mas o que mais me preocupava eram os cabelos e as mãos. O banho durou uma eternidade. Que horas seriam? Não me viera a ideia de olhar a parede da sala de jantar. A cabeça começou a pesar-me. Bem. Ia dormir como um porco. Certamente... Dormir como um porco. Banhava-me devagar, para não fazer barulho. Se os vizinhos ouvissem as pancadas de água no cimento? Uma culpa grave. Se fosse descoberto, infelicidades me chegariam. Todos os gestos eram culpas graves. Pisava como um gato. Talvez no banheiro próximo estivessem pessoas escondidas. Que horas seriam? A cabeça pesava. Certamente... Sim, certamente era preciso dormir, ajudar a noite que não queria acabar. Tinha topado num buraco enorme, ia caindo nele, mas conseguira escapar agarrando­-me às estacas de uma cerca e metendo as mãos na terra fofa. Esfregava os dedos. Para lá daquele buraco escuro havia um nevoeiro. Marina, d. Adélia, seu Ramalho, Julião Tavares, tudo era nevoeiro. Enrolei-me na toalha e voltei à sala de jantar. Em cima do guarda-comidas encontrei cigarros e fósforos. Bem. Agora estava limpo. Acendi um cigarro e bebi mais aguardente. Queria embebedar-me e dormir, mas tive a ideia de que só poderia dormir sentado, encostado à parede. A cama estava suja, tinham-se espojado nela criaturas que se agatanhavam com raiva, babando, uivando. Três pancadas. Olhei a parede, mas não consegui distinguir as letras e os ponteiros. Aproximei-me, estirei o pescoço para o mostrador, fiquei nas pontas dos pés. Pensei em Cirilo de Engrácia e recuei até a mesa sem ver as horas. Com os diabos! Tinha ouvido distintamente três pancadas. Enchi o copo e continuei a beber. Aproximei-me novamente da parede: uma neblina diante do mostrador. Felizmente agora estava fumando, quase tranquilo. Teria ouvido as três pancadas? Então aquilo tinha acontecido de meia-noite a três horas! A marcha ao longo da linha de bonde, a volta, a necessidade de fumar, a escuridão cheia de zum-zum das carapanãs, aquela coisa terrível - tudo de meia-noite a três horas. Sentei-me, deitei fora o cigarro apagado, acendi outro e pus-me a esgaravatar as unhas com o fósforo. As unhas doídas iam-se entorpecendo. Olhei-as, mas entre os olhos e as mãos havia um nevoeiro que engrossava. As paredes tornaram-se inconsistentes. Fechei os olhos, encostei a cabeça à mesa, remexi os dedos com o fósforo queimado. Um rumor enchia-me os ouvidos, burburinho que ia crescendo e me dava a impressão de que a casa, a cidade, tudo, caía lentamente. As paredes se desmoronavam como pastas de algodão. E no ruído confuso surgiam sons que me arrastavam à realidade: o tique-taque do relógio, o apito do guarda-civil, o canto de um galo, um miar de gato no telhado. Essas notas familiares me exasperavam. Queria deixar-me embalar pelo rumor abafado e dormir. Impossível. Os dedos agitavam-se despedaçando o fósforo. Levantei a cabeça, arregalei os olhos e novamente cheguei a eles os dedos, que desapareciam no nevoeiro. Ergui-me, dei uns passos cambaleantes. O burburinho morreu: o que se ouvia era a respiração de Vitória. Fechei os olhos com força, tornei a abri-los. O nevoeiro adelgaçou-se: as mãos esfoladas e grossas, terra nas unhas. Tomei outro fósforo e recomecei a limpá-las. Em seguida fui ao banheiro lavá-las, livrá-las daquela porcaria. Voltei desanimado, enxuguei as pontas dos dedos tempo sem fim. Provavelmente não conseguiria dormir. Um, dois, um, dois. Eram as pancadas do pêndulo, mas eu pensava em marchas. Olhei a porta aberta. Vi apenas um buraco escuro, mas era como se visse a luz do farol espalhando-se sobre a folhagem da mangueira. Estremeci. Os galhos iluminados de vermelho, de branco. Que loucura ter deixado aquela porta aberta! Se alguém, oculto entre as folhas, me espiasse? Fechei a porta. Estava em segurança. Tentei encaminhar o pensamento para coisas simples e ordinárias, mas estas coisas fugiam, truncavam-se. Em segurança. Quantos dias faltavam para receber o ordenado? Precisava dar uns dinheiros a Moisés. Pimentel tinha-me pedido um artigo sobre... Sobre quê? Lobisomem agora trazia sapatos novos. D. Rosália e o marido estariam dormindo? Tão tarde... O marido de d. Rosália chegara do interior. Dar uns cobres a Moisés, sem dúvida, quando recebesse o ordenado. Um artigo para Pimentel. Os sapatos de Lobisomem. O marido de d. Rosália com certeza estava cansado e dormia. Eu também estava cansado, mas não podia dormir. Enxugava as mãos entorpecidas, lentamente, e quase não sentia as escoriações. Dei uns passos, estaquei. Que ia fazer? Avancei até o corredor. Uma felicidade não pensar, andar assim trôpego como um papagaio. Fui fechar a porta da cozinha, devagar para não acordar Currupaco, que dormia com a cabeça debaixo da asa. De repente estranhei achar-me ali em pé, nu, com a toalha no ombro, enxugando os dedos. Dormir, acabar aquela noite imensa. Bebi o resto da aguardente. O estômago contraiu-se, embrulhado, o pescoço entortou-se, a boca encheu-se de saliva. Senti que ia vomitar, encostei-me à mesa para não cair. Fechei os olhos - e o burburinho recomeçou. Pancadas na porta da frente. Abri os olhos numa agonia. O suor corria-me pela cara, ensopava a toalha, não havia jeito de estancá-lo. Teriam realmente batido na porta? Ia arrastar-me, bambeando, pé aqui, pé acolá, até o quarto, vestiria o pijama aos tombos, engulhando, arrotando. Quem seria?

— Estava lendo, fumando, bebendo. Falta de sono. É costume velho, entende? Não sei nada. Estou aqui há muitas horas assim.

Poderia falar? Quem teria batido? Só se ouviam os roncos de Vitória, o tique-taque do relógio e o chiar dos ratos. O estômago embrulhava-se, o suor corria, a boca era pequena para conter a saliva. Quem estaria lá fora, na calçada? O relógio bateu meia hora e depois quatro. Não me lembro de ter feito nenhum movimento na derradeira meia hora, mas quando veio a primeira pancada eu estava de pé, quando soaram as quatro estava sentado, o queixo encostado à mesa. Levantei-me, dirigi-me ao quarto, firmando-me às paredes, tombei na cama, pesado, como um morto.

— Ó Vitória, faça o favor de ir ali à esquina, ouviu? Telefone à repartição, diga que não vou ao serviço hoje. Estou doente.

Quando ela saiu, deitei no saco a roupa branca que tinha vestido na véspera. Em seguida escondi o paletó e a calça rasgada debaixo do colchão.

Se dessem busca na casa? Fui remexer o saco, ver se na roupa branca havia sinais que me pudessem comprometer. O paletó e a calça não estavam bem escondidos. Pensei em queimá-los, enterrá-los. Levantei o colchão, tirei-os. Sujos de lama. Não podiam ficar ali. Se fossem descobertos? Atirei-os para trás da mala, apanhei do chão a gravata e fui para a sala de jantar.

— Telefonou, Vitória?

— Telefonei.

— Muito obrigado. É que estou com febre, morrinhento. Que há de novo?

— Um senador que chegou do Rio.

— Está bem.

Bebi uma xícara de café, procurei uma tesourinha e pus-me a cortar as unhas, que ainda tinham terra. Estava com febre e aturdido pela cachaça.

— Ó Vitória, se não estiver muito ocupada, leve a roupa à lavadeira, ouviu? Preciso camisas.

Vitória afastou-se e daí a pouco saiu com uma trouxa de roupa suja. A porta da frente abriu-se e fechou-se. Acabei de cortar as unhas arroxeadas. As mãos engrossavam e deformavam-se, a direita com uma esfoladura na palma, a esquerda cheia de fibras de madeira, que extraí com a ponta da tesoura. A gravata estava enrolada, como uma corda, exatamente igual a todas as gravatas que tenho tido, mas senti a necessidade de destruí-la. Cortei-a em pedacinhos, que desfiei, juntando os fios em cima da coxa. Vitória, arrastando os pés, ficaria muito tempo na rua. Dediquei-me nervosamente a desfiar os pedaços da gravata. Tossia e limpava os olhos, que lacrimejavam. Uma felicidade estar com febre. Os rumores externos eram os mesmos de todos os dias. D. Rosália despropositava com Antônia, d. Adélia cantava no banheiro, o trem passava apitando, automóveis e bondes rolavam longe. Desejei ver seu Ivo, pensei em oferecer qualquer coisa a seu Ivo. Isto me aliviaria. As alfaces no canteiro amarelavam. O homem triste enchia dornas. A mulher magra agitava garrafas e sacolejava-se como se tocasse ganzá. Nenhuma novidade. Moisés e Pimentel me seriam desagradáveis naquele momento, mas a companhia de seu Ivo me daria prazer. Subitamente imaginei que o homem triste e a mulher magra me espionavam. Afastei a cadeira para não ver o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas, continuei a tarefa. Quando a terminasse, ficaria tranquilo. Cortaria depois a calça e o paletó em pedacinhos que seriam desfiados. Ficaria inteiramente tranquilo. Nenhuma novidade. Apenas a viagem de um senador desconhecido. Tranquilo. Deitar-me-ia, descansaria. De minuto a minuto suspendia o trabalho para enxugar os olhos, e a umidade que havia no lenço era quente demais. Respirava com dificuldade, o corpo se derreava na cadeira, bocejos enormes. Compreendia que o exercício a que me entregava era inútil, perigoso talvez. Se alguém entrasse de repente e me visse desfiando pedaços de pano? Mas continuava a desfiá-los à pressa, e escondia o molho de fios entre as pernas. Vitória não chegava. Com certeza a comida ia esturrar. Que esturrasse. Podre de rica, Vitória: prata, libras esterlinas. Tentei pensar nas moedas. Impossível. Não acabaria a destruição da gravata? Sentia um medo horrível e ao mesmo tempo desejava que um grito me anunciasse qualquer acontecimento extraordinário. Aquele silêncio, aqueles rumores comuns, espantavam-me. Seria tudo ilusão? Findei a tarefa, ergui-me, desci os degraus e fui espalhar no quintal os fios da gravata. Seria tudo ilusão? Voltei, atravessei o corredor, cheguei à sala, olhei a rua pelas tabuinhas da rótula. Uma das filhas de Lobisomem mostrou a cabeça arrepiada. Antônia passou com o filho mais novo de d. Rosália pela mão, uma bicicleta rodou no paralelepípedo. Enxuguei os olhos. A cabeça doía-me. Encostei os cotovelos à janela. Entre duas tabuinhas afastadas distinguia a cara amarela, os olhos abotoados e os cabelos ruivos da filha de Lobisomem. Pelas outras tabuinhas só percebia os pés dos transeuntes. Iam e vinham, ocupados. Todos os dias acontecem desgraças. Estava doente, ia piorar, e isto me alegrava. Deitar-me, dormir, o pensamento embaralhar-se longe daquelas porcarias. Senti uma sede horrível. Os beiços secos, queimados, rachavam-se. Evidentemente a sede tinha horas, mas só então me apareceu clara a necessidade de beber água. Quis ver-me ao espelho. Tive preguiça, fiquei pregado à janela, olhando as pernas dos transeuntes. Esfreguei a cara com a mão estragada. Os pelos duros feriram-me a palma em carne viva.

— Todos os dias nasce gente, morre gente. Isso não tem importância.

Repetia frases assim e soprava a palma ferida, mas não prestava atenção ao que dizia, pensava em coisas diferentes, em muitas coisas que se misturavam. Ia haver uma escuridão, uma desordem. Parecia-me que os acontecimentos subiam e desciam numa panela, fervendo.

— Em segurança.

Com os cotovelos presos à janela, olhava a rua e tremia. Morto de sede, não me aventurava a tirar-me dali. As pernas fraquejavam, bambas. As que andavam na rua atravessavam o minguado espaço que a minha vista alcançava, eram bem-vestidas, rotas, nuas - e isto me bastava para adivinhar as caras. Iam lentas ou apressadas, ignoravam a existência de outras que giravam, encostando as pontas dos pés no chão coberto de folhas secas. Duas pernas pararam no meio da rua, voltaram as biqueiras dos sapatos para o meu lado. Olhos atentos, sob a mão em pala na testa, deviam estar observando o número da casa. Isso durou um minuto. As biqueiras avançaram em direção a mim. Descobriram-se os joelhos das calças ordinárias e surradas. Provavelmente era um investigador, um desses homens que frequentam os cafés, escutam conversas e fogem como sombras, olhando por baixo da aba do chapéu embicado. Ia aproximar-se macio, bater palmas discretamente para não atrair a atenção dos vizinhos:

— Ó de casa!

Eu me afastaria da janela, arrastando as pernas que pesavam arrobas, iria abrir a porta. Perguntas sem pé nem cabeça, uma busca na casa; a roupa machucada e rasgada atrás da mala, as minhas mãos feridas, as unhas roxas, provocando suspeitas que se acumulavam e viravam certeza. Eu me atrapalharia logo e diria o que o sujeito quisesse. Não seria preciso me darem água de bacalhau. A garganta ardia-me, passei a língua seca nos beiços gretados. Água de bacalhau, dias de fome, noites em claro, um tipo martelando horas a fio:

— É bom o senhor contar. Para que esconder? Tudo se descobre. Confesse.

Eu arriaria a trouxa com facilidade. Tudo se descobre, sem dúvida. Que papéis haveria nos bolsos da roupa que estava atrás da mala? Bilhetes de dr. Gouveia, correspondência do interior, a carteira vazia, artigos manuscritos, recortes de jornais. Se algum desses papéis tivesse caído na estrada? Perdido, trinta anos de cadeia, a imundície; os trabalhos dos encarcerados: fabricação de pentes, esteiras, objetos miúdos de tartaruga. Faria um livro na prisão. Amarelo, papudo, faria um grande livro, que seria traduzido e circularia em muitos países. Escrevê-lo-ia a lápis, em papel de embrulho, nas margens de jornais velhos. O carcereiro me pediria umas explicações. Eu responderia: - "Isto é assim e assado". Teria consideração, deixar-me-iam escrever o livro. Dormiria numa rede e viveria afastado dos outros presos. A garganta doía-me, os beiços colavam-se. Precisava beber água e pensava no caldo de bacalhau. Confessaria tudo, mostraria a roupa rasgada, os bilhetes, as cartas, os artigos. Os olhos pestanejavam e choravam lágrimas quentes que eu enxugava na manga. Não podia ver bem a rua. As pernas teriam marchado para mim ou estacionariam no paralelepípedo, indecisas? Tanto tempo a ameaçar-me com as biqueiras dos sapatos cambados e as joelheiras das calças ordinárias! As biqueiras volveram à esquerda e sumiram-se. Não era gente da polícia: seria talvez um servente de casa comercial, carregado de embrulhos, distribuindo mercadorias. Provavelmente conduzia troços para d. Mercedes e estava em pé na calçada, batendo palmas. D. Mercedes vinha devagar, cheirosa, o penhoar exibindo o peito maduro. Recebia os pacotes, dava uns níqueis ao carregador, entrava, ia desatar os cordões e examinar as compras. Entre as duas tabuinhas mais afastadas da rótula vi de novo o rosto espantado da filha de Lobisomem. Por que se espantava? Não havia motivo. Tudo em ordem na rua. A barriga e as pernas de um homem passaram na calçada e pararam à porta de d. Rosália. Alguns rapazes dirigiam-se ao colégio Diocesano. Um moleque de tabuleiro deu um grito estridente que me assustou. Evidentemente... A rua sossegada, como nos outros dias. O grito do moleque continuava a furar-me os ouvidos. Evidentemente... Que é que ia dizer? O pensamento partia-se. Ia cair de cama, delirar, morrer. A carne estremecia, os pés dos cabelos doíam-me. De quando em quando levava a mão ao rosto, e o contato da palma com a barba crescida arrancava­-me palavrões obscenos grunhidos em voz baixa. Um porco, parecia um porco. Esta comparação não me entristecia. Desejava ser como os bichos e afastar-me dos outros homens. As mãos doíam-me, as pernas doíam-me, os pés dos cabelos doíam-me. Não queria imaginar o que aconteceria lá fora, o que tinha acontecido. Fatos possíveis misturavam-se a coisas absurdas. Evidentemente... Esta palavra solta, repetida, enfurecia-me. Pouco a pouco serenava. Seu Ramalho, no meio das conversas, dizia: - "Eu lhe conto". E não contava nada. D. Adélia censurava a filha com um gemido: - "Hum! hum!". Antônia dava uma risadinha ruim e piscava um olho: - "Safada moda". Agora a rua estava em silêncio. Noutra rua havia lágrimas, desespero e cabelos arrancados. Um médico vestia o avental, chegava-se ao mármore do necrotério. O homem dos caixões de defuntos preparava coroas de flores roxas, muitas coroas de flores roxas com fitas roxas. Onde andaria Vitória? Surda, a cabeça cheia de moedas e navios, arrastando-se pelas bodegas. Uma senhora gorda e mole, com os sovacos molhados, chorava noutra rua. Fui ao quarto, levantei a roupa caída atrás da mala, estendi-a em cima da cama, examinei o joelho rasgado, as bainhas puídas, a gola embranquecida. Machucada, suja de poeira, lama seca e teias de aranha. Cortá-la-ia em pedacinhos, que seriam desfiados e atirados ao monturo. Procurei uma escova e pus-me a limpar os trapos. De momento a momento suspendia o trabalho e soprava a mão ferida. Estupidez deixar aquilo no chão, entre a mala e a parede. Bem. Agora os panos estavam quase decentes. Algumas pancadas na porta gelaram-me o sangue. Caí sentado na cama. Tudo perdido. Lá estava o sujeito da polícia com o chapéu embicado. Olhei o rasgão do joelho, as mãos grossas. Difícil dobrar os dedos. E nas costas da mão direita, a mais estragada, corria um traço largo que escurecia. Ao amanhecer estava vermelho, mas agora ia ficando azulado. Enfim tudo perdido. Era sair, entregar-me, contar a história botando os pontos nos ii. Faria um livro na prisão, estudaria, arranjaria camaradagem com dois ou três presos mansos. Habituar-me-ia. A gente se habitua em toda parte. Dorme à beira das estradas, nos bancos dos jardins. Depois de meia-noite as letras miúdas dançavam na prova molhada, a saleta da revisão enchia-se de fantasmas, a gente lia cochilando, emendava cochilando. Um galego dava ordens aos berros. Nas mesinhas estreitas, forradas com papel de impressão, as vozes esmoreciam, as canetas sujas, nojentas, calavam-se. Vida porca, safada. Agora estava menos porca e mais safada. Adulações, medo de perder o emprego, de voltar às estradas, à caserna, aos bancos dos jardins, à mesa da revisão. O suor molhava-me o pescoço, a vista escurecia, a memória dava saltos, a respiração encurtava-se. Uma lembrança vaga de cavalos perseguia-me. Onde teria eu visto aqueles cavalos? Nunca fui cavaleiro, nunca montei direito. Uma queda nas pedras do Ipanema ia-me desmantelando. Era estranho que aqueles animais viessem perturbar-me. Fazia um minuto que o homem da polícia tinha batido. Sentado na cama, suando, tossindo, as mãos esfoladas, encolhia-me. Os animais aperreavam-me. A princípio não conseguira distingui-los. Era um tropel distante, rumor que se confundia com a cantiga dos sapos do açude da Penha e o zumbido das carapanãs. Agora percebia que eram cavalos correndo. Novas pancadas. Levantei-me, cheguei à porta do quarto, estirei a cabeça. Um maloqueiro, um vagabundo que pedia esmola. Enfureci-me e gritei:

— Puta que o pariu.

Estar, um homem em casa, sossegado, escovando a roupa, e de repente pancadas, amolações, peditórios.

— Isso tem cabimento? Dá o fora, vai para o diabo.

Pus o paletó no encosto de uma cadeira, dobrei a calça, ocultando a parte rasgada, e coloquei-a em cima da mala.

— Onde vamos parar com tantos mendigos? Isso tem jeito?

O quarto estava como nos outros dias. O meu desejo era deitar-me, mas fui à sala de jantar, ainda bastante zangado:

— Canalhas, preguiçosos.

Derreei-me na cadeira, um peso enorme nos braços:

— Safados.

Não me referia apenas aos maloqueiros. De quando em quando passava a manga do pijama nos olhos molhados. E soprava a palma ferida, mas o ar saía quente e a dor não diminuía. Esse movimento de soprar a mão quase encostando-a à boca fez-me pensar nos gatos. Ia adormecer, perder a consciência. As coisas afastavam-se ou aproximavam-se de maneira absurda, as paredes moviam-se. Não ter consciência. Soprava a mão. Ser como um gato que lambe os pés.

Que direito tinha aquele bandido de me vir incomodar quando eu estava ocupado, escovando a roupa? Então não pode um homem pôr em ordem os seus troços sem ser perturbado?

— Isto é casa de puta para qualquer um bater e entrar?

Por que era que o vagabundo me havia enganado fazendo-se passar por gente da polícia? Dentro em pouco outras pancadas me esfriariam o sangue, num segundo rolariam multidões de pavores. Tudo se repetiria - as mesmas caras, as mesmas perguntas, as mesmas ameaças, o julgamento, discursos, a escuridão entre quatro paredes, portas de ferro, fechaduras enormes, ferrolhos enormes. Levantar-me-ia, atravessaria o corredor como se me arrastassem. Outro vagabundo, um vendedor ambulante, qualquer pessoa levada por endereço errado:

— Não é aqui não. Desculpe.

Voltaria para junto da mesa, aguardaria novas pancadas, novas torturas. Por que não se acabava logo aquilo? Bati com a mão na mesa e isto me arrancou um grito que abafei e se transformou em praga imunda. Por que não me vinham buscar os miseráveis da polícia? Por que faziam comigo aquela brincadeira de gato com rato? Eu os acompanharia, mostraria a roupa rasgada, os fios da gravata no monturo, falaria no cigarro oferecido pelo vagabundo. Por que não vinham logo? Muitos anos nas redes sujas, nas esteiras de pipiri. Escreveria um livro. A ideia do livro aparecia com regularidade. Tentei afastá­-la, porque realmente era absurdo escrever um livro numa rede, numa esteira, nas pedras cobertas de lama, pus, escarro e sangue. Olhava as telhas, movediças, a garrafa de aguardente, movediça. O livro só poderia ser escrito na prisão, em cima das pedras, na esteira, na rede, sob as cortinas de pucumã. Um livro escrito a lápis, nas margens de jornais velhos. Os objetos deformavam-se. A janela e a porta do quintal, a porta da cozinha e a do corredor estavam cheias de gente. Estirei o pescoço, observei o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas. Retraí-me. Em vez de se entregarem ao trabalho, eles me espionavam. O movimento de estirar o pescoço para vê-los era horrível. O que mais me doía eram os braços, principalmente as mãos. Encolhi o pescoço, tentei metê-lo no corpo. Um, dois, um, dois. Eram as pancadas do pêndulo. Não prestava atenção a elas durante o dia. À noite percebiam-se bem, mas de dia, com o barulho que vinha de fora, não havia relógio. Como Vitória se demorava! O galope dos cavalos não me saía dos ouvidos, crescia, como se avançasse no paralelepípedo. Donde vinham aqueles cavalos? A cabeça tombou num cochilo. Aprumei-me, bocejei, estirei os braços doloridos. Recostei-me na cadeira e cerrei os olhos. Passei a língua seca como língua de papagaio pelos beiços gretados e cobertos de películas. Arrastei-me até a moringa, bebi alguns copos de água. Tantas horas com a garganta pegando fogo, suportando aquilo inutilmente. Com certeza a febre ia crescer. O corpo morrinhento pedia cama. O rumor das carapanãs misturava-se ao tropel dos cavalos. Achei-me sentado, murmurando palavras desconexas. O suor corria entre os pelos da barba. Passei o lenço na cara e no pescoço, mas retirei logo a mão.

— Sou uma pessoa muito hábil.

Os cavalos tinham agora um trote macio que não se distinguia da música das carapanãs. Aborrecia-me saber que os cavalos não existiam, as carapanãs não existiam, os indivíduos que atravancavam as portas não existiam.

— Uma pessoa muito hábil.

A roupa molhada colava-se ao corpo. A sede voltou, bebi outro copo de água. Pensei em fumar e isto me produziu um estremecimento. Mas então? Um sujeito hábil, sem dúvida. Tudo muito direito. Na casa de d. Rosália as crianças gritavam e Antônia lavava a louça. Na casa de seu Ramalho d. Adélia varria a sala de jantar. Ouvia-se o chiar da vassoura. Pancadas de pratos, gritos de crianças, risos, pragas.

— Um sujeito hábil.

Que burrice repetir isso! Estirei a cabeça cautelosamente. A mulher magra e o homem triste dedicavam-se às suas ocupações e não me viam. Uma criatura ordinária, um funcionário que faltava à repartição. Vitória voltou, mas isto não teve importância. As carapanãs e os cavalos preocupavam-me demais para prestar atenção a Vitória. Um funcionário. Pus-me a rir como um idiota. Continuaria a escrever informações, a bater no teclado da máquina, a redigir artigos bestas. - "Perfeitamente." O sorriso sem-vergonha concordando com tudo. - "Perfeitamente." Não tinha praticado nenhuma façanha, não tinha conversado com o vagabundo, na véspera. Eu? No quarto pequeno junto à escada, o cheiro do gás era insuportável. Andavam percevejos no papel da parede, manchado e descolado. Aborrecia-me o estudo cacete de Dagoberto. Mas quando ele empurrava a porta, jogava na cama a cesta e o compêndio, acovardava-me, sorria, abria o livro ou pegava o osso e começava a amolação. - "Perfeitamente, Dagoberto." Para que diabo me servia conhecer as vértebras e o frontal? Não ia ser médico. Mas lia, para não desgostar o rapaz. Olhei a garrafa de aguardente, vazia, pensei em seu Ivo, em seu Evaristo e em Cirilo de Engrácia. Com os braços esmorecidos sobre a mesa, via as paredes afastarem-se, as telhas subirem e descerem. Ia dormir, descansar, tresvariar. Levantei-me de chofre. Um rebuliço na casa de seu Ramalho. Fui encostar-me à parede. Gritos, o cabo da vassoura batendo no chão, risos nervosos e a fala morna de d. Adélia:

— Quem faz neste mundo paga é aqui mesmo. Quando Deus tarda, vem em caminho.

Olhei os quatro cantos. Não tinha nada com aquilo. Ia trancar-me, enrolar-me nos lençóis, tremer, ranger os dentes como um caititu. Não tinha nada com aquilo. A garrafa de aguardente estava vazia. As carapanãs zumbiam. O vagabundo me dera um cigarro. A mulher tinha dito: - "Deixa de luxo, minha filha. Será o que Deus quiser". Eu ficava afastado de tudo. Afastei-me da parede e arregalei os olhos para a mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas. Não tinha nada com aquilo. - "Um artigo, seu Luís." Seu Luís escrevia. - "Perfeitamente, Dagoberto." Eu? As telhas dançavam, era extraordinário que se pudessem equilibrar, não viessem espatifar-se no chão, bater-me na cabeça.

— Não fui eu - gritei recuando e tropeçando na cadeira.

Os cabelos arrepiavam-se, um frio agudo entrou-me na carne, os dentes tocaram castanholas. Nada havia acontecido comigo. Senti-me vítima de uma grande injustiça e tive desejo de chorar. Vieram-me lágrimas, que esmaguei. Eu estava de parte, ouvindo o zum-zum das carapanãs.

— Não fui eu. Escrevo, invento mentiras sem dificuldade. Mas as minhas mãos são fracas, e nunca realizo o que imagino.

Olhei as mãos. Pareceram mais curtas e mais largas que as mãos ordinárias que escreviam artigos elogiando o governo. Os dedos inchados eram mais curtos e mais grossos. Necessário fechar as portas. Outro vagabundo viria bater e confundir-se com o homem da polícia. Os braços doíam-me, as mãos penduradas doíam-me. Cruzei os braços, fui à cozinha. Vitória cortava carne em cima da mesa preta.

— Vitória, estou sem fome, ouviu?

A mesa preta do necrotério. O médico, de avental. Nu­ma rua afastada, uma mulher chorando. As minhas mãos em carne viva.

— Estou muito doente, Vitória. Não quero almoçar. Dê a boia a algum maloqueiro que aparecer por aí. E feche as portas depois. Vou deitar-me, não me aguento nas pernas.

A réstia descia a parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo - e era por aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas. O relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vinham de fora as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante o dia. E o dia estava dividido em quatro partes desiguais: uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolo, outra parede. Depois a escuridão cheia de pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios, boiava nesses silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava à superfície, tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, dos braços da treva que me queriam agarrar. O som de uma vitrola coava-se nos meus ouvidos, acariciava-me, e eu diminuía, embalado nos lençóis, que se transformavam numa rede. Minha mãe me embalava cantando aquela cantiga sem palavras. A cantiga morria e se avivava. Uma criancinha dormindo um sono curto, cheio de estremecimentos. Em alguns minutos a criança crescia, ganhava cabelos brancos e rugas. Não era minha mãe a cantar: era uma vitrola distante, tão distante que eu tinha a ilusão de que sobre o disco passeavam pernas de aranha. Um disco a rodar sem interrupção a noite inteira. Não. Estávamos na segunda parede, e eu subia a parede, acompanhava a réstia como uma lagartixa. Marasmo de muitas horas, solução de continuidade que se ia repetir. Cairia da parede, como uma lagartixa desprecatada, ficaria no chão, moído da queda. Quem teria entrado no quarto durante a inconsciência prolongada? Moisés e Pimentel teriam vindo? Seu Ivo teria vindo? Lembrava-me de figuras curvadas sobre a cama. Não eram os meus amigos. Eram tipos de caras esquisitas, todos iguais, de bocas negras, línguas enormes, grossas e escuras. Quantos dias ali no colchão áspero, como um defunto? Um homem sem rosto, sentado na cadeira onde tinha ficado o paletó, falava muito. Que dizia ele? Esforçava-me por entendê-lo, mas tinha a impressão que o visitante usava língua estrangeira. Era como se me achasse num cinema. Apenas compreendia de longe em longe algumas palavras. Cansava-me e desejava que o homem se fosse embora. Não percebia que me importunava, que me obrigava a esforços enormes para entender uma língua estranha? O desconhecido continuava a falar. Eu subia a parede novamente e corria atrás da réstia. Cairia no tijolo outra vez, achatar-me-ia ouvindo o monólogo incompreensível. Receava que o homem sem rosto me julgasse estúpido. Queria dormir, arregalava os olhos e abria os ouvidos. Certamente dizia coisas sem nexo, e o desconhecido me chamava imbecil, com palavras inglesas. Um buraco ao pé de uma cerca. Eu tombava no buraco, ia descendo lentamente. E, enquanto descia, encontrava no caminho muitas flores que desciam também, sem peso, como flocos de algodão. Subia, era como se o meu corpo se transformasse em nevoeiro. Tornava a descer, tornava a subir, as flores caíam sempre numa chuva silenciosa. As flores não me davam nenhum prazer. Desejava livrar-me delas, interromper aquelas viagens para cima e para baixo, andar na terra. Escancarava os olhos. O homem sem rosto havia desaparecido, e eu tinha agora um livro aberto sobre o colchão. Não sabia quem me trouxera o livro, se ele surgira antes ou depois da visita. As letras saíam dos lugares, deixavam espaços em branco, espalhavam-se numa chuva silenciosa. Apertando as pálpebras, esfregando-as, aproximando e afastando o papel, conseguia conter a dispersão. Impossível adivinhar o sentido de uma palavra. Língua estrangeira, tão estrangeira como o solilóquio monótono. Sem memória, um idiota. Chorava, batia com a cabeça no ferro da cama, puxava os cabelos. Olhava as mãos. As unhas crescidas e sujas, a escoriação da palma secando e cicatrizando, os dedos compridos, escuros, com uns nós muito grossos. Sem memória. Que teria acontecido antes? A confusão se dissipava, a réstia avançava no tijolo, trepava na cadeira onde o homem se tinha sentado, ganhava o paletó estendido no encosto. O paletó me espiava com um olho amarelo que mudava de lugar. A calça continuava dobrada sobre a mala coberta de poeira. A sentinela cochilava no portão do palácio, encostada ao fuzil; André Laerte andava como um gato; Amaro vaqueiro, aboiando, laçava a novilha careta; cabo José da Luz caminhava para a cadeia pública, todo pachola; Dagoberto punha na minha cama a cesta de ossos e o compêndio de anatomia. Eu pegava o livro que estava aberto em cima do colchão. Tinham deixado ali aquele volume inútil. Lia-o pensando em ossos. Provavelmente fora Moisés que o trouxera para me distrair. As palavras iam-se tornando claras, mas não se reuniam. Bom camarada, Moisés. Dera-me um livro para me distrair. A réstia descia a cadeira, atravessava os tijolos e ganhava a parede. O cego dos bilhetes de loteria apregoava o número, batendo com o cajado no chão do café; a mulher da rua da Lama cruzava os dedos magros nos joelhos; Lobisomem parecia um velho decrépito. Essas figuras vinham sem nitidez, confundiam-se. Antônia arrastava os chinelos, mostrava as pernas cobertas de marcas de feridas e cantava uma cantiga vagabunda. Mas a cantiga se transformava: "Assentei praça. Na polícia eu vivo...". E Antônia era o cabo José da Luz. Em pé, defronte da prensa de farinha, oferecia-me uma xícara de café. Antônia, cabo José da Luz, Rosenda - uma pessoa só. Às vezes apareciam três corpos juntos com rostos iguais, outras vezes era um corpo com três cabeças. Afinal surgia um vivente que tinha três nomes. Agarrava-me ao livro, compreendia vagamente o que estava escrito, mas ficava-me a certeza de que havia ali vários trabalhos, feitos por muitos indivíduos. Chineses. Uns chineses brigões, revoltados. Lembrava­-me dos chineses que lavam roupa, fabricam ventarolas, vendem bagatelas, juntam-se às caboclas. Muitos livros arrumados, formando um livro incompreensível. Fernando Inguitai andava pela rua do Comércio, o braço carregado de voltas de contas, o cigarro babado no beiço que se arregaçava, descobrindo os dentes enormes num sorriso parado. O som da vitrola ia quase desaparecendo, a lagartixa subia a parede. Amaro vaqueiro, agitando o laço, mastigava o cigarro de palha e mostrava os dentes pretos num sorriso parado. A cadeira suja de poeira, a mala suja de poeira. A roupa havia desaparecido. Seria bom levantar-me, procurar qualquer coisa para me vestir. Pouco tempo antes a roupa estava ali, no encosto da cadeira e em cima da mala. De repente um sumiço. Quem me tinha dito aquele nome estranho? Fernando Inguitai, a lagartixa, a réstia, Amaro vaqueiro. A vitrola cantava baixinho: - "Fernando Inguitai". Tentava sentar-me. Se isto me fosse possível, procuraria a roupa. Virava-me com dificuldade. Por que não entrava logo a pessoa que estava na sala? - "Obrigado, Vitória. Não quero comer. Traga um copo de água." Vitória afastava-se arrastando os pés, levando a bandeja com a comida que me dava engulhos. Minutos depois, lá vinha, chape, chape, resmungando, a cara fechada, e entregava-me o copo. Eu bebia, molhando as cobertas. - "Obrigado, Rosenda." Ficava suando e arquejando, a vista escurecia, estirava-me na prensa de farinha, junto ao muro. O barulho do descaroçador de algodão não me deixava dormir, os passos de Vitória morriam no corredor. Meu pai estava deitado, muito comprido, envolto num pano que se dobrava entre as pernas e tinha no lugar da cara uma nódoa vermelha cheia de moscas. As moscas não se mexiam, mas faziam um zumbido horrível de carapanãs. O olho de vidro de padre Inácio estava parado, suspenso no ar, fora do corpo. A batina de padre Inácio, o capote do velho Acrísio, a farda de cabo José da Luz e o vestido vermelho de Rosenda estavam parados, suspensos no ar, sem corpos. As carapanãs zumbiam. Os pés de Camilo Pereira da Silva, escuros, ossudos, saíam por uma das pontas do marquesão, medonhos. Eu atravessava o corredor, ia à sala, voltava a deitar-me na prensa, abria o livro que tinha chineses revoltados. Mas as pálpebras cerravam-se, as carapanãs e o descaroçador enchiam-me a cabeça. Que motivo tinha Fernando Inguitai para rir-se? Empurrava os travesseiros e tentava abrir os olhos. Se pudesse levantar-me, tudo aquilo desapareceria. Iria conversar com o homem que me esperava na sala. - "Não há chinês chamado Fernando." Onde tinha ouvido aquele nome de Inguitai? Se Vitória me trouxesse um copo de água... Ali com sede, morrendo, sem um diabo que me desse uma xícara de café, um copo de água! Embalava-me com isto: - "Sozinho, sozinho, morrendo à míngua, com sede". Era bom que todos estivessem longe. O contínuo da repartição, tão magro, tão velho, tão triste, movia-se trôpego. D. Adélia dançara como carrapeta, e agora era aquilo que se via, mole, acabada, uma lástima. Albertina de tal, parteira diplomada. Quando eu entrava na repartição, apressado e fora da hora, o contínuo velho tinha um sorriso doce e alguma informação útil. Os meus olhos abriam-se, fechavam-se, tornavam a abrir-se. Os caibros engrossavam, torciam-se, alvacentos e repugnantes como cobras descascadas. "Greve no caso de reação." Alguns letreiros estavam raspados, outros desapareciam sob as manchas que as águas da chuva tinham produzido. Mas havia letreiros novos. As crianças das escolas olhavam para eles. O homem cabeludo que vendia aguardente só cuidava da sua vida. Albertina de tal, parteira diplomada. Onde estava a minha roupa? Queria vestir-me, sair pela rua, ler os jornais. Que diziam os jornais? Subir o morro do Farol, entrar nas bodegas, beber cachaça. Seu Ivo me visitara, acocorara-se junto à parede. - "Leve a roupa, seu Ivo." Seu Ivo tinha vestido a calça rasgada e o paletó sujo. Talvez não tivesse vestido aquela imundície, talvez fosse tudo um sonho. Um homem na sala esperava com paciência que me restabelecesse. Sair, entrar no café, viajar nos bondes. Onde estava a minha roupa? A cadeira perto da cama, o livro fechado sobre a palha. - "Leve isso daí, seu Ivo. A calça está rasgada. Cosa o rasgão com uma corda." Albertina de tal, parteira diplomada. Escuridão. Um estremecimento, uma queda. Ia cair da cama, o chão se abriria, eu rolaria pelos séculos dos séculos fora disto. O espírito de Deus boiava sobre as águas. Livrava-me do susto, pouco a pouco ia resvalando no entorpecimento. Os caibros faziam voltas, as telhas se equilibravam por milagre. Algumas dobras daquelas coisas brancas e moles desciam, aproximavam-se da minha boca, davam-me náuseas. A vitrola dizia: - "Fernando Inguitai". Os reisados cantavam defronte da casa de seu Batista. Os mateus gritavam: - "Abra a porta, ioiô". E as figuras todas: - "Aqui estou na vossa porta como um feixinho de lenha". Seu Batista não abria: esperava a cantiga que fazia as janelas se escancararem. E as figuras, o embaixador, o rei, a burrinha, os mateus, ficavam na calçada como um feixinho de lenha, fedendo a suor, gemendo os versos, até que seu Batista, importante, abria a sala, surgia vistoso, baixinho, vestido em robe de chambre. O feixinho de lenha entrava e cantava, seu Batista recolhia os capacetes dos mateus, a coroa do rei, a espada do embaixador, os lenços das figuras, punha uns níqueis em tudo isso. O zumbido das carapanãs era insuportável. - "Um copo de água, Vitória." Vitória não ouvia, e a leseira recomeçava. Não havia escuridão, a réstia subia a parede. - "Leve a roupa, seu Ivo." Seu Ivo se acocorara a um canto, silencioso, babando-se. Pimentel não aparecia. Devia ter aparecido, mas não me lembrava dele. Com certeza viera num momento em que a febre era muito forte. Que doidices teria eu dito na presença de Pimentel? Um, dois, um, dois. Marchava - e não podia levantar-me da cama. Quatro paredes. As quatro paredes da repartição esmagavam-me. Algumas horas depois da função, o feixinho de lenha, composto de mateus, figuras, burrinha, rei, embaixador, suaria arrastando a enxada no eito. - "Parem essa vitrola." Fernando Inguitai, o braço carregado de voltas de contas, andava pela rua do Comércio, fumando, sorrindo. Haveria alguém neste mundo que se chamasse Inguitai? As cascavéis e as jararacas tomavam banho com a gente no poço da Pedra. Uma delas se enroscara no pescoço de meu avô. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva sapateava no chão de terra batida, uma alpercata saltava-lhe do pé. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Ria-me como um idiota. Provavelmente havia institutos históricos e geográficos por esses lugares. Certas pessoas empurravam outras nas escadas e diziam: - "Desculpe". O cego dos bilhetes de loteria cantava o número, batendo com o cajado no cimento do café. Virava-me para o espelho. Por detrás das letras brancas, rostos medonhos arreganhavam os dentes e piscavam os olhos. As letras torciam-se, os caibros torciam-se, baixavam, brancos, moles, como cobras descascadas. 384. O cajado batendo no cimento, avançando para mim, ameaçando-me com uma tira de papel, que engrossava e queria morder-me. Moisés aproximava-se, comprava a tira de papel, que se enrolava nos dedos dele, e lia em voz alta uma infinidade de vezes: - " 384 ". Eu ia fugir, mas Fernando Inguitai estava na calçada, esperando-me para vender uma volta de contas. - "Vai-te embora, Moisés." Não queria voltas de contas nem queria ouvir a leitura daquele número. Não era número: eram palavras incompreensíveis, histórias da China. Moisés virava a página, que ficava mexendo-se. A cadeira mexia-se. Afastava-me, com medo da cadeira. No dia seguinte, quando viesse varrer o quarto, Vitória a poria no lugar de costume, junto à mala, mas durante uma noite inteira o móvel caprichoso não me deixaria descansar. Eu tremia e receava que Moisés se fosse embora. Voltaria o silêncio, a cadeira se chegaria mais à cama. - "Continue, Moisés. É isso mesmo." Não o entendia, mas aprovava-o com a cabeça e com palavras assim. A voz rolava, lenta e monótona, o dedo comprido virava a página e gesticulava diante da minha cara. Passavam chineses armados. E o dedo enrolava-se, dava um nó. A leitura era um zumbido, um enxame de carapanãs lia o livro difícil. Estava a balançar-se numa rede, ia acima e vinha abaixo. E quando subia, abria os olhos, via o dedo perto das minhas ventas; quando descia, ouvia o arranhar da vitrola. Os ratos do armário dos livros roíam o disco da vitrola, e a vitrola dizia baixinho: - "Fernando Inguitai". A réstia sumia-se. Moisés levantava-se, puxava a correntinha da lâmpada, tornava a sentar-se. - "Obrigado, Moisés." Ali perdendo tempo, lendo para me distrair. Excelente camarada. - "É preciso que dr. Gouveia mande limpar estas paredes." Caía em mim, arrependia-me de ter falado. Certamente as paredes necessitavam limpeza, zangar-me-ia se alguém me dissesse que não, mas a necessidade exigia explicação, e não me poderia fazer compreender. Ao mesmo tempo temia que o judeu mangasse de mim por eu haver interrompido a leitura com uma frase besta. Íamos discutir. Receava encolerizar-me e ser grosseiro com um visitante. Se ele concordasse comigo, seria por eu estar doente. Não me conformava com isto. Preciso da condescendência dos outros? Sou alguma criança? Por que tinha ele suspendido a leitura e esbugalhava para mim aqueles olhos de mal-assombrado? Seria melhor destampar logo e declarar francamente que as paredes não necessitavam limpeza. De qualquer modo seria fácil um rompimento entre nós. Cada qual para o seu lado, cada qual com as suas ideias. Moisés levantava-se, despedia-se. Eu escondia as mãos nas cobertas, enrolava o pano debaixo do queixo e tremia, pedia-lhe com os olhos que não me deixasse só entre aquelas paredes horríveis. Agora Moisés me havia abandonado, e eu batia os dentes como um caititu. As paredes cobriam-se de letreiros incendiários, de lágrimas pretas de piche. As letras moviam-se, deixavam espaços que eram preenchidos. Estava ali um tipógrafo emendando composição. E o piche corria, derramava-se no tijolo. Ameaças de greves, pedaços da Internacional. Um, dois... Impossível contar as legendas subversivas. Havia umas enormes, que iam de um ao outro lado do quarto; umas pequeninas, que se torciam como cobras, arregalavam os olhinhos de cobras, mostravam a língua e chocalhavam a cauda. As letras tinham cara de gente e arregaçavam os beiços com ferocidade. A mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas agitavam-se na parede como borboletas espetadas e formavam letreiros com outras pessoas que lavavam garrafas, enchiam dornas e faziam coisas diferentes. A datilógrafa dos olhos agateados tossia, as filhas de Lobisomem encolhiam-se por detrás das outras letras, Antônia arrastava as pernas grossas cobertas de marcas de feridas, a mulher da rua da Lama cruzava as mãos sobre o joelho magro e curvava-se para esconder as pelancas da barriga escura. Um choro longo subia e descia: - "Que será de mim? Valha-me Nossa Senhora". Um moleque morria devagar, mutilado, porque havia arrancado os tampos da filha do patrão. Fazia um gorgolejo medonho e vertia piche das chagas. 384. O cego dos bilhetes batia com o cajado na parede. - "Afastem esta cadeira." Seu Ivo estava de cócoras, misturado às outras letras. A calça rasgada e o paletó sujo eram cor de piche. Cirilo de Engrácia, carregado de cartucheiras e punhais, encostava-se a uma árvore, amarrado, os cabelos cobrindo o rosto, os pés com os dedos para baixo. A sentinela cochilava no portão do palácio. Um ventre enorme crescia na parede, uma criatura malvestida passava arrastando a filha pequena, um brilho de ódio no olho único. Sinha Terta gemia: - "Minha santa Margarida...". O dono da bodega, triste, fincava os cotovelos no balcão engordurado. As crianças faziam voltas em redor da barca de terra e varas. A rapariga pintada de vermelho espalhava um cheiro esquisito. O engraxate escutava histórias de capoeiras. O homem acaboclado cruzava os braços, mostrando bíceps enormes. O mendigo estirava a perna entrapada e ensanguentada. As moscas dormiam, e o mendigo, com a muleta esquecida, bebia cachaça e ria. Passos na calçada. Quem ia entrar? Quem tinha negócio comigo àquela hora? Necessário Vitória fechar as portas e despedir o hóspede incômodo que não se arredava da sala. Mas Vitória contava moedas, na parede, resmungava a entrada e a saída dos navios. A placa azul de d. Albertina escondia-se a um canto, suja de piche. Todo aquele pessoal entendia-se perfeitamente. O homem cabeludo que só cuidava da sua vida, a mulher que trazia uma garrafa pendurada ao dedo por um cordão, Rosenda, cabo José da Luz, Amaro vaqueiro, as figuras do reisado, um vagabundo que dormia nos bancos dos jardins, outro vagabundo que dormia debaixo das árvores, tudo estava na parede, fazendo um zumbido de carapanãs, um burburinho que ia crescendo e se transformava em grande clamor. José Baía acenava-me de longe, sorrindo, mostrando as gengivas banguelas e agitando os cabelos brancos. - "José Baía, meu irmão, estás também aí?" José Baía, trôpego, rompia a marcha. Um, dois, um, dois... A multidão que fervilhava na parede acompanhava José Baía e vinha deitar-se na minha cama. Quitéria, sinha Terta, o cego dos bilhetes, o contínuo da repartição, os cangaceiros e os vagabundos, vinham deitar-se na minha cama. Cirilo de Engrácia, esticado, amarrado, marchando nas pontas dos pés mortos que não tocavam o chão, vinha deitar-se na minha cama. Fernando Inguitai, com o braço carregado de voltas de contas, vinha deitar-se na minha cama. As riscas de piche cruzavam-se, formavam grades. - "José Baía, meu irmão, há que tempo!" As crianças corriam em torno da barca. - "José Baía, meu irmão, estamos tão velhos!" Acomodavam-se todos. 384. Um colchão de paina. Milhares de figurinhas insignificantes. Eu era uma figurinha insignificante e mexia-me com cuidado para não molestar as outras. 384. Íamos descansar. Um colchão de paina.

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