A Noite em Bebedouro
A casa era em Bebedouro, pequena, isolada. Julião Tavares chegava alta noite, entrava, demorava-se duas horas. Afastava-me, para não despertar suspeitas, mas à saída andava por ali e distinguia um vulto que tinha a gola do paletó erguida e evitava os pontos iluminados. Havia raros transeuntes, e a ligação durou pouco, não chegou a dar nas vistas.
Julião Tavares seguia pela rodagem, rente aos jardins dos palacetes adormecidos. Ou acompanhava a estrada de ferro, que atravessa a rua, ganha os fundos das casas. Ali era o silêncio, uma sombra que algumas lâmpadas muito distanciadas e os becos por onde espirra um pouco de luz interrompiam. A água do mangue apresentava manchas baças entre as árvores. Aproximando-me, ouvia perfeitamente os passos do homem nas folhas secas. Por que era que aquele sem-vergonha caminhava como se estivesse em casa, pisando no chão pago?
Em toda parte era assim. Derramava-se no bonde, e se alguém lhe tocava as pernas, desenroscava-se com lentidão e lançava ao importuno um olhar duro. Eu encolhia-me, reduzia-me e, em caso de necessidade, sentava-me com uma das nádegas. As viagens se tornavam horrivelmente incômodas, mas havia-me habituado a elas, e ainda que o carro estivesse deserto, não poderia espalhar-me como Julião Tavares: receava que me viessem empurrar e tomar, sem pedir licença, algumas polegadas da tábua estreita.
Aqueles modos davam-me a impressão de que tudo em roda era dele. Os passeios públicos eram dele. Certamente ninguém me proibia andar nos jardins, sentar-me, ver as mulheres. Mas as mulheres não reparavam em mim, pessoas conhecidas olhavam-me distraidamente. Demais, enquanto me achava ali, perseguia-me a recordação da vida ordinária, e isto me estragava a hora mesquinha de folga. Os canteiros, o coreto, os globos opalinos, não me serviam para nada. Estimaria que os fios da Nordeste encrencassem e a cidade ficasse às escuras. Mover-me-ia como um cego, esqueceria as mulheres pintadas que imitam d. Mercedes, esqueceria Julião Tavares, que estava em todos os bancos. A treva apagaria aquela exposição desagradável. Mas dar-me-ia a recordação de coisas mais desagradáveis ainda.
A gravata enrolava-se como uma corda sobre a camisa rasgada e suja, das bainhas das calças e dos cotovelos puídos saíam fiapos, manchas de poeira alastravam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se enevoavam por causa da fome e descobriam entre as árvores cenas irreais.
Agora Julião Tavares marchava no escuro, depois de ter abraçado a mocinha sardenta. Ia deitar-se, arrumar talvez uns versos indecentes a respeito de segredos de alcova. Àquela hora não tinha com quem desabafar. O café estava fechado, na praça deserta as luzes cochilavam. Derramaria a vaidade no papel, imprimi-la-ia no dia seguinte, os amigos lhe dariam parabéns e ele andaria como um pavão. Julião Tavares julgava-se superior aos outros homens porque tinha deflorado várias meninas pobres. Pelos modos, imaginava-se dono delas. Contrassenso. Então Marina era dele? Tolice. Era a mesma que eu tinha conhecido um ano antes, vermelha, com os cabelos pegando fogo, entre as roseiras maltratadas. Evidentemente.
Lembrava-me de sinha Germana, de Quitéria, das negras da fazenda. Sinha Germana só tinha conhecido um homem. As pretas não se envergonhavam de conhecer muitos homens. Que diferença! Descendo de sinha Germana, que dormiu meio século numa cama dura e nunca teve desejos. Adquiro ideias novas, mas estas ideias brigam com sentimentos que não me deixam. Sinha Germana dormia no couro de boi com o velho Trajano, e se dormisse de outra forma, não dava certo. Os costumes de sinha Germana eram superiores aos de Quitéria. Por quê? Não havia por quê, e isto me enraivecia. Um sujeito capaz de escrever sobre muitos assuntos entendendo-os mal, ou sem entendê-los, aceitar as opiniões de Camilo Pereira da Silva, de padre Inácio, de d. Rosália! Essas opiniões não tinham pé nem cabeça. Marina valia o que tinha valido antes de engrossar a barriga e procurar d. Albertina. As mesmas pernas bem-feitas, os mesmos braços que mexiam as roseiras do quintal pobre, os mesmos cabelos que pareciam oxigenados, os mesmos olhos traquinas. Mas as pernas não se curvavam para mostrar as nádegas apertadas na saia estreita, os braços moviam-se vagarosamente, pesados, os cabelos amarelos caíam sobre a testa enrugada, os olhos baixavam-se, cheios de culpa, desviando-se dos outros olhos. Esta consciência de inferioridade era contagiosa. Marina tinha descido. Logo me revoltava. Absurdo.
— Como as outras, como as outras. Mais bonita que a maioria das outras.
Repetições inúteis. Não podia evitar a ideia de uma queda. De qualquer forma ela havia diminuído e habituava-se a esgueirar-se, a pedir desculpa a toda gente.
Seria para o futuro um trapo como d. Adélia:
— A senhora tem razão, d. Rosália. É isso mesmo, d. Rosália.
Os sapatos vermelhos com o verniz rachado e os saltos gastos, roupas ordinárias, as unhas estragadas, a voz esmorecendo numa cantilena de aprovação.
— Como as outras. Estúpido, absolutamente estúpido.
Furores perdidos. Marina permaneceria de vista baixa, esconder-se-ia como um rato e falaria gemendo, concordando com d. Rosália.
Fui até o fim da linha de bonde e parei, como se me tivesse faltado a corda de repente. Aquelas duas extremidades de trilhos roubaram-me os movimentos e deram-me impressão desagradável. Esfreguei os olhos, senti-me cansado. Até ali não havia experimentado nenhum cansaço. Teria andado léguas se os trilhos avançassem para o interior, mover-me-ia regularmente, como um bonde. Apenas não me deteria diante dos postes cintados de branco. Nessas marchas compridas a que me habituei - um, dois, um, dois - a fadiga adormece e quase não penso. Exatamente como se uma vontade estranha me dirigisse, um sargento invisível que se descuidasse do exercício e fosse pelo campo, embrutecido pela cadência - um, dois, um, dois - esquecido da voz do comando, pensando nos versos de um Julião Tavares ou nos bilhetes de outra Marina. Ando meio adormecido. Se alguém me gritasse: - "À direita, à esquerda", volveria à direita, volveria à esquerda, sem procurar saber donde partia a ordem. Por que à direita? Por que à esquerda? Poderia ser meia-volta. Mas ninguém fala, e vou para a frente, sem perceber que posso voltar, libertar-me da autoridade de um sargento invisível e caminhar naturalmente, parando, observando as casas e as pessoas. De repente os trilhos desaparecem e relaxa-se a corda do boneco. Está bem. Em que ia pensando?
A verdade é que estava com as pernas bambas. Caminhada tão extensa! Mais de uma hora. O mesmo tempo para voltar - um, dois, um, dois - exatamente o mesmo número de minutos gastos na vinda.
— Está bem.
Deviam ser duas horas da madrugada.
— Sem dúvida.
Julião Tavares não tardaria em deixar a casinha que se trepa no morro, junto a uma barreira vermelha.
Seguiria pela rodagem? pela estrada de ferro? Só vendo. Esta necessidade de ver encolerizou-me:
— Besta! Farejando imundícies como um cachorro.
Procurei um cigarro para acalmar-me. Não encontrei cigarros. O que achei foi a corda que seu Ivo me havia oferecido. Desleixado. Conservar no bolso aquele traste e esquecer os cigarros! Olhei os quatro cantos. Nenhuma bodega. Esperei a passagem de alguém que me desse um cigarro. Ninguém. Idiota! Que estava fazendo ali, pisando a ponta do trilho? Farejando imundícies como um cachorro, como um urubu. Que horas seriam? Duas, aproximadamente. Aguardei as pancadas de um relógio. Com certeza Julião Tavares tinha deixado a cama da mocinha sardenta e recolhia-se, leve como um balão, saciado, fumando, a brasa do cigarro esmorecendo e avivando-se. O certo era que eu não podia ficar ali subordinado a um relógio duvidoso ou a um transeunte que talvez não tivesse cigarros. Julião Tavares deixara a mocinha sardenta. Seria a mocinha sardenta a amante dele? Na casa havia outras mulheres. Por que imaginei que havia de ser a mocinha sardenta? Uma garoa que se adensava ia toldando as luzes capiongas. Um, dois - impossível contar os postes de iluminação, que a neblina ocultava. Senti frio. Enquanto marchava, não tinha frio, nem cansaço, nem desejo de fumar. Agora a falta de cigarros me afligia. Levantei a gola, apertou-me a necessidade urgente de voltar. Tinha certeza de que na volta me apareceriam cigarros. Virei-me, pus-me a caminhar desordenadamente. De quando em quando parava, as pernas bambas. Não haveria uma bodega, um transeunte? A marcha regular era impossível. Estava irritado como um bicho e levava a mão ao bolso, num gesto maquinal. Encontrava os anéis da corda. Provavelmente Julião Tavares ia de volta, fumando. Que me importava Julião Tavares? A figura de Cirilo de Engrácia passou-me diante dos olhos, mas desapareceu logo. Por que me achava àquela hora da noite em Bebedouro, andando à toa como uma barata, parando, correndo? Soprava, enxugava o rosto com a manga. Cansado.
Quando me aproximava da casinha encostada ao monte, um vulto pulou na estrada a alguns passos de mim e ganhou os trilhos da Great Western. Adiantei-me para não perdê-lo de vista. A escuridão esbranquiçada feita pela neblina aumentava, escuridão pegajosa em que os postes espaçados abriam clareiras de luz escassa. Passei o lenço no rosto molhado. Um suor frio, as orelhas frias e insensíveis. Nem sabia se aquilo era suor ou orvalho caído dos ramos das árvores.
Uma hora antes caminhava com animação, movia-me executando ordens, tinha os membros amarrados a cordões. Agora podia desviar-me para um lado e para outro, avançar, recuar. Alargaria os passos, encontraria Julião Tavares, passaria por ele, o chapéu embicado. Não me reconheceria na poeira de água. Um sujeito que vinha de uma aventura noturna e tinha pressa de recolher-se. A mocinha ficara num fundo de quintal, em camisa, ao pé do morro. Julião Tavares estremeceria. Um concorrente. Não presumiria que o concorrente era um inimigo aperreado e cheio de veneno. A necessidade de fumar atrapalhava-me os movimentos. Julião Tavares flutuava para a cidade, no ar denso e leitoso. Estaria longe ou perto? Aparecia vagamente nos pontos iluminados, em seguida o nevoeiro engolia-o, e eu tinha a impressão de que ele ia voar, sumir-se. Um balão colorido em noite de São João, boiando no céu escuro.
As meninas de Teotoninho Sabiá cantavam, à porta da nossa casa estalava uma grande fogueira que meu pai alimentava com tábuas de caixões e aduelas, Rosenda fazia adivinhações consultando uma bacia de água, na sala de seu Batista as moças brincavam de sortes, busca-pés estouravam na rua da Cruz e no Cavalo-Morto. Debaixo de um mamoeiro de folhas torradas, Carcará assava milho verde na fogueira e largava risadas enormes. Meu pai dizia: - "Hi! parece um papa-lagartas". Eu não sabia que espécie de bicho era o papa-lagartas nem por que meu pai se lembrava dele ouvindo as gargalhadas de Carcará. Tudo tão simples! As moças desdobrando os papelinhos das sortes, Rosenda estudando a bacia de água, Teresa e d. Maria cantando para o balão cair. Apenas o estouro dos busca-pés e as risadas de Carcará me incomodavam. Teresa era boa, chupava o dedo mindinho e chorava quando chegavam as redes e os homens amarrados de cordas.
Julião Tavares ia afastar-se, dissipar-se, virar neblina. Apressei-me, pus-me quase a correr. Bem. Continuava invisível, mas as pisadas ouviam-se distintamente.
— Bem.
Dizia isto, e sentia que tudo ia mal, aporrinhava-me por estar perdendo tempo a acompanhar Julião Tavares. Afligia-me pensar que dentro em pouco ele entraria na cidade e dormiria tranquilo. Cirilo de Engrácia, morto, em pé, amarrado a uma árvore, coberto de cartucheiras e punhais, tinha os cabelos compridos e era medonho. Eu não poderia dormir. O caminho encurtava-se. Mas então? Para que seguir o homem odioso que tinha tudo, mulheres, cigarros? Agora estávamos perto um do outro, mas a cidade se aproximava, e em breve estaríamos afastados, ele chupando um cigarro, eu aguentando os roncos do marido de d. Rosália, que tinha chegado na véspera. Pelo resto da noite ouviria os gemidos e os roncos dos vizinhos. O cansaço desaparecera. Desejaria caminhar léguas, até fatigar-me novamente e adormecer. Quantos metros faltariam para desembocarmos na Levada? Quantas horas faltariam para se abrirem os cafés e as bodegas? A ideia de que nos íamos separar me desesperava. Ali era como se ele dependesse de mim. Distinguiam-se perfeitamente os passos; nas luzes que espirravam das travessas a figura surgia, escura e bojuda, com o chapéu desabado e a gola do paletó erguida. De repente senti uma piedade inexplicável, e qualquer coisa me esfriou mais as mãos. Julião Tavares era fraco e andava desprevenido, como uma criança, naquele ermo, sob ramos de árvores dos quintais mudos. Uma hora, meia hora depois, passaria pelo guarda adormecido junto a um poste, seria forte, mas ali, debaixo das árvores, era um ser mesquinho e abandonado. Contraí as mãos frias e molhadas de suor, meti-as nos bolsos para aquecê-las. Para aquecê-las ou levado pelo hábito. A aspereza da corda aumentou-me a frieza das mãos e fez-me parar na estrada, mas a necessidade de fumar deu-me raiva e atirou-me para a frente. Entrei a caminhar depressa, receando que Julião Tavares escapasse. Novamente os passos leves no chão coberto de folhas secas. Distinguia-se agora muito bem a sombra escura na garoa peganhenta. A garoa me entrava no bolso e gelava os dedos, que esfregavam a corda. Por que andava com segurança o homem gordo? Olhos atentos procuravam enxergá-lo, dedos crispados moviam-se em direção a ele. - "Matos têm olhos, paredes têm ouvidos", dizia Quitéria sentada na prensa do quintal. Pareceu-me que as árvores em redor estavam vivas e espiavam Julião Tavares, que os galhos iam enlaçar-lhe o pescoço. E ele andava sossegado como se ali houvesse guardas-civis.
Muitos anos antes os cabras de Cabo Preto haviam-se escondido na capoeira para não assustar sinha Germana. Sinha Germana passara escanchada na sela de campo, e os cabras se amoitavam por detrás dos mandacarus e dos alastrados que vestiam mal a campina. Os cangaceiros eram amigos de Trajano, sinha Germana esquipava no caminho iluminado pelo sol cru. Nenhum ódio. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tinha umas reses que definhavam e entendia-se perfeitamente com os emissários de Cabo Preto.
O desejo de fumar levava-me ao desespero. O acesso de piedade sumiu-se, o ódio voltou. Se me achasse diante de Julião Tavares, à luz do dia, talvez o ódio não fosse tão grande. Sentir-me-ia miúdo e perturbado, os músculos se relaxariam, a coluna vertebral se inclinaria para a frente, ocupar-me-ia em meter nas calças a camisa entufada na barriga. Afastar-me-ia precipitadamente, como um bicho inferior. Agora tudo mudava. Julião Tavares era uma sombra, sem olhos, sem boca, sem roupa, sombra que se dissipava na poeira de água. A minha raiva crescia, raiva de cangaceiro emboscado. Por que esta comparação? Será que os cangaceiros experimentam a cólera que eu experimentava?
José Baía vinha contar-me histórias no copiar, cantava mostrando os dentes tortos muito brancos. Era bom e ria sempre. Dava-me explicações a respeito de visagens, mencionava as orações mais fortes. Não me ensinou as orações, para não quebrar a virtude delas, mas ofereceu-me conselhos, que esqueci. Tão bom José Baía! O clavinote dele tinha vários riscos na coronha. Ninguém falava alto a José Baía, ninguém lhe mostrava cara feia. E ele ria, exibindo os dentes acavalados, e quando avistava o vigário ou outro hóspede importante, a aba do chapéu de couro varria o pátio da fazenda. Não me seria possível imaginar José Baía atacado de uma crise de ódio como a que me fazia pregar as unhas nas palmas. Provavelmente ele ficava sossegado na capoeira, tirando um trago do cigarro de palha, que apagava logo com saliva e guardava atrás da orelha, para a fumaça não denunciar a emboscada. O ouvido atento a qualquer rumor que viesse do caminho estreito, o joelho no chão, em cima do chapéu de couro, o olho na mira, a arma escorada a uma forquilha, com certeza não pensava, não sentia. Estava ali forçado pela necessidade. No dia seguinte faria com a faca de ponta novo risco na coronha do clavinote e contaria no alpendre histórias de onças.
— Que fim levou, José Baía?
— Por aí, caminhando.
Nenhum remorso. Fora a necessidade. Nenhum pensamento. O patrão, que dera a ordem, devia ter lá as suas razões. As histórias do alpendre eram simples: as onças que armavam ciladas aos bodes não tinham ferocidade. José Baía, bom tipo. Quando passasse pela cruzinha de pau que ia apodrecer numa volta do caminho, rezaria um padre-nosso e uma ave-maria pelo defunto. A fraqueza estirou-me os dedos e retardou-me a caminhada. Tive saudade de José Baía e das conversas infantis do copiar.
— José Baía, meu irmão, onde estarás a esta hora? Terás morrido em tocaia ou mofarás numa cadeia nojenta de grades pretas e gordurosas? Entraste um dia na vila, amarrado de cordas, negro de suor e poeira, cercado por uma tropa de cachimbos. Os teus olhos claros se arregalavam num espanto verdadeiro. Envelheceste e és outro, uma inutilidade feita pela justiça. Os teus ouvidos e a tua vista se estragaram, as tuas mãos tremem, estás sério e esqueceste a criança a quem dizias as virtudes da oração da cabra preta.
Quanto tempo duraram as recordações e o enfraquecimento? Um minuto, ou menos. Novamente as mãos se contraíram e as pernas se estiraram no caminho extenso. Desejei que Julião Tavares fugisse e me livrasse daquele tormento. Se ele corresse pela estrada deserta, estaria tudo acabado. Eu tentaria alcançá-lo. Inutilmente. Pensei em gritar, avisá-lo de que havia perigo, mas o grito morreu-me na garganta. Não grito: habituei-me a falar baixinho na presença dos chefes. Era preciso que alguma coisa prevenisse Julião Tavares e o afastasse dali. Ao mesmo tempo encolerizei-me por ele estar pejando o caminho, a desafiar-me. Então eu não era nada? Não bastavam as humilhações recebidas em público? No relógio oficial, nas ruas, nos cafés, virava-me as costas. Eu era um cachorro, um ninguém. - "É conveniente escrever um artigo, seu Luís." Eu escrevia. E pronto, nem muito obrigado. Um Julião Tavares me voltava as costas e me ignorava. Nas redações, na repartição, no bonde, eu era um trouxa, um infeliz, amarrado. Mas ali, na estrada deserta, voltar-me as costas como a um cachorro sem dentes! Não. Donde vinha aquela grandeza? Por que aquela segurança? Eu era um homem. Ali era um homem.
— Um homem, percebe? Um homem.
Julião Tavares não ouviu e continuou a andar tranquilamente.
— Corre, peste.
Por que era que o miserável não corria, não se livrava dos meus instintos ruins? Estaria recordando as carícias da mocinha sardenta?
— Isso não vale nada, Julião Tavares. Marina, a mocinha sardenta, a datilógrafa dos olhos de gato, não valem nada. O que vale é a tua vida. Foge.
Julião Tavares parou e acendeu um cigarro. Por que parou naquele momento? Eu queria que ele se afastasse de mim. Pelo menos que seguisse o seu caminho sem ofender-me. Mas assim... Faltavam-me os cigarros, e aquela parada repentina, a luz do fósforo, a brasa esmorecendo e avivando-se na escuridão, endoideciam-me. Fiz um esforço desesperado para readquirir sentimentos humanos:
— José Baia, meu irmão...
José Baía não era meu irmão: era um estranho de cabelos brancos que apodrecia numa cadeia imunda, cumprindo sentença por homicídio. - "Recebeu cópia do libelo?" José Baía não soubera responder. Tinha recebido e não tinha. Que resposta devia dar àquela pergunta incompreensível? O presidente se contentaria se ele dissesse que sim? Ou seria melhor dizer que não? E José Baía balançava a cabeça, indeciso: tinha recebido e não tinha. Afinal que me importava José Baía, estirado numa esteira por detrás das grades negras e pegajosas? Que me importavam as grades negras e pegajosas?
Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silenciosos como os das onças de José Baía, estava ao pé de Julião Tavares. Tudo isto é absurdo, é incrível, mas realizou-se naturalmente. A corda enlaçou o pescoço do homem, e as minhas mãos apertadas afastaram-se. Houve uma luta rápida, um gorgolejo, braços a debater-se. Exatamente o que eu havia imaginado. O corpo de Julião Tavares ora tombava para a frente e ameaçava arrastar-me, ora se inclinava para trás e queria cair em cima de mim. A obsessão ia desaparecer. Tive um deslumbramento. O homenzinho da repartição e do jornal não era eu. Esta convicção afastou qualquer receio de perigo. Uma alegria enorme encheu-me. Pessoas que aparecessem ali seriam figurinhas insignificantes, todos os moradores da cidade eram figurinhas insignificantes. Tinham-me enganado. Em trinta e cinco anos haviam-me convencido de que só me podia mexer pela vontade dos outros. Os mergulhos que meu pai me dava no poço da Pedra, a palmatória de mestre Antônio Justino, os berros do sargento, a grosseria do chefe da revisão, a impertinência macia do diretor, tudo virou fumaça. Julião Tavares estrebuchava. Tanta empáfia, tanta lorota, tanto adjetivo besta em discurso - e estava ali, amunhecando, vencido pelo próprio peso, esmorecendo, escorregando para o chão coberto de folhas secas, amortalhado na neblina. Ao ser alcançado pela corda, tivera um arranco de bicho brabo. Aquietava-se, inclinava-se para a frente, os joelhos dobravam-se, o corpo amolecia. Eu tinha os braços doídos e as mãos cortadas. Enquanto Julião Tavares estivesse com a cabeça erguida, a minha responsabilidade não seria tão grande como depois da queda. Quando bebia demais, seu Ivo tinha aquele jeito de arriar, não havia conversa que o levantasse. A lembrança de seu Ivo enfureceu-me.
— Com os diabos!
E larguei o corpo, que foi bater numa cerca, por baixo de uns galhos de árvore que aumentavam a escuridão.
— Com os diabos!
Sentei-me ao pé da cerca, enxuguei o suor que me corria pela testa. Cansado. A mão direita doía-me horrivelmente, mas continuei a apertar com ela a corda que a circulava. A mão esquerda estava livre. Levei-a ao bolso à procura de cigarros, mas retirei-a logo. A figura de seu Ivo, bêbedo, encostado à parede, voltou. Que horas seriam? As estacas da cerca magoavam-me as costas. Pareceu-me inconveniente permanecer ali, mas não me veio a ideia de que houvesse perigo. Necessário continuar a marcha. Continuar a marcha, evidentemente. Fiquei sentado e mudei de posição, porque as estacas da cerca me feriam os ombros. Como conduzir Julião Tavares, tão pesado? Não compreendi que devia deixá-lo apodrecendo nas folhas, debaixo da árvore. Precisava transportá-lo, isto não me saía da cabeça. Transportá-lo sem dúvida. Apesar de não sentir medo, percebia que era urgente retirar-me. Agucei o ouvido. Apenas o zum-zum dos mosquitos. A lagoa próxima fervilhava de carapanãs. Como estaria Julião Tavares? Procurei distingui-lo, avancei a cabeça para o lugar onde supunha ter ele ficado. Um vulto quase imperceptível na escuridão leitosa. O rosto encostado à terra, naturalmente. Como estariam os olhos dele? Os de seu Evaristo, que vi de longe, esbugalhavam-se. E a boca se escancarava, mostrando a língua escura e grossa. Provavelmente Julião Tavares tinha também os olhos muito abertos e o queixo desgovernado.
— Mas que diabo estou fazendo aqui?
Necessitava levantar-me, afastar-me depressa, entrar em casa, dormir. Àquela hora o marido de d. Rosália resfolegava, arranhava com a barba o couro amarelo de d. Rosália. O marido de d. Rosália resfolegava como um bicho. E Julião Tavares parado. Minutos antes andava na maciota, o cigarro aceso, o pensamento na cama da mocinha sardenta. Agora ali junto da cerca, estirado. Inconveniente ficar ao lado dele. Inconveniente. As carapanãs zumbiam, voavam perto da minha cara, picavam-me as orelhas e as mãos escalavradas. Inconveniente.
Matos têm olhos, paredes têm ouvidos.
Quitéria, Rosenda e a prensa velha vieram-me à memória. Olhei os arredores, tentei varar a escuridão. Tudo invisível. A lagoa, povoada de carapanãs, invisível. Uma grande fraqueza abateu-me, suor abundante ensopou-me a camisa. Passei a mão na cara molhada, senti na pele a dureza da corda. Se viesse alguém?
— Recebeu cópia do libelo?
Os amigos de Julião Tavares iriam julgar-me. Pimentel e Moisés não eram jurados. Que diriam os jornais? De seu Evaristo não tinham dito nada, dos homens que apareciam mortos nos caminhos não diziam nada. Mas agora falariam muito. Quem foi? Por que foi? Pimentel escreveria artigos horríveis. Pus-me a discutir com Pimentel, gesticulei, uma das mãos bateu no corpo de Julião Tavares. Encolhi-me, o suor aumentou na friagem da noite.
José Baía, velho e manso, dormia na esteira de pipiri, por baixo das cortinas de pucumã. Seu Evaristo balançava, pendurado num galho de carrapateira. Seu Evaristo era tão magro, tão cheio de fome, que um galho de carrapateira podia sustentá-lo. Cirilo de Engrácia, morto, em pé, amarrado a uma árvore, parecia vivo. Os cabelos compridos, caídos para a frente, escureciam-lhe o rosto feroz. Só os pés estavam bem mortos, suspensos, os dedos para baixo. O frio aumentava, comecei a bater os queixos como um caititu. Se alguém surgisse na estrada, eu não teria coragem de fugir. Haveria pessoas ali perto? Julguei perceber um ruído esquisito, mas provavelmente era apenas o eco das pancadas dos meus dentes, que não descansavam. Tive a impressão de que os meus dentes estavam longe, fazendo um barulho que se misturava ao zumbido irritante das carapanãs. Apertei os queixos, mas as castanholas permaneceram, e veio-me a certeza de que me havia tornado velho e impotente.
— Inútil, tudo inútil.
Mordi a manga do paletó. Os dentes continuavam a entrechocar-se, mas produziam um som abafado. Mastiguei o pano, desejei recolher-me. Beberia um copo de cachaça, os dentes se calariam. Os relógios da vizinhança não me deixariam dormir. Certamente Julião Tavares devia ficar ali deitado. Pensei em ocultá-lo, enterrá-lo debaixo de uma camada de folhas. A ideia absurda de levá-lo comigo para a cidade tinha desaparecido. Bem. Pus-me a afastar as folhas e a cavar a terra com as unhas. A tentativa de fazer com os dedos uma cova para enterrar um homem era tão disparatada que me levantei, receoso de tornar-me idiota. Como estaria a cara de Julião Tavares? Afigura que me veio ao espírito foi a de Cirilo de Engrácia, terrível, amarrado a um tronco, os cabelos compridos ensombrando o rosto, os pés suspensos, mortos. Pensei também em seu Evaristo, curvado sob a carrapateira, como se preparasse um salto. Recuei precipitadamente e bati com os ombros na cerca. Julião Tavares podia ficar assim, pendurado a um galho, como um suicida. Acreditariam que ele fosse um suicida? Acreditariam. Não acreditariam. Os jornais fariam escândalo, publicariam o retrato da mocinha sardenta. Um rapaz desvairado, perfeitamente, rapaz desvairado. Desembaracei a mão direita e numa das extremidades da corda fiz um laço. Vinha-me afinal uma resolução. Entrei a mexer-me, com medo de perdê-la. Se os pensamentos se sumissem? Se voltasse aquele marasmo?
— Tudo inútil.
Os dentes já não batiam. Curvei-me, procurando a cabeça de Julião Tavares. Encontrei o chapéu caído, um braço, que soltei arrepiado porque nunca havia tocado em cadáveres. A ideia de que Julião Tavares era um cadáver estarreceu-me. Não tinha pensado nisto. Horrível o corpo imóvel, esfriando. Lá estava a cabeça ainda morna. Enjoado, cuspindo muitas vezes, ergui-a, passei o laço no pescoço. Prendi nos dentes a outra ponta da corda, subi a cerca, trepei-me num galho da árvore. E comecei o trabalho de guindar o morto. A mão direita puxava a corda, que se movia lenta por cima do ramo; do outro lado a mão esquerda aguentava o peso do corpo. Moço desvairado. Duas tarjas grossas, uma no princípio, outra no fim da página. Qualidades, Julião Tavares tinha muitas qualidades. A literatura dele reproduzida nas folhas, em tipo graúdo. Comentários. Por que foi? Como foi? Enterro complicado, automóveis, todos os automóveis da praça, bondes especiais. O discurso no cemitério, discurso empolado. E o túmulo com uma coluna partida. Muitos túmulos com colunas partidas. Colunas de mármore, colunas de cimento. Moço desvairado. Todos os mortos importantes eram colunas partidas. Julião Tavares era uma coluna de mármore partida. O capitel no chão, esverdinhando-se.
O corpo subia. No princípio o esforço não era grande demais. A cada movimento passavam no galho algumas polegadas da corda. Mas quando a massa obesa se elevou, as dificuldades foram enormes para correrem uns centímetros.
— Mais um pouco, mais um pouco.
Estas palavras não me deixavam. O corpo devia estar todo erguido, e os meus ossos estalavam. O galho curvava-se. Ia quebrar-se, atirar-nos ao chão. Tudo perdido. A polícia, a cadeia. Denunciar-me-ia no primeiro interrogatório. Segurei-me à corda, com o intuito de amarrá-la. Desceria. Livre do meu peso, o galho se elevaria, os pés de Julião Tavares ficariam suspensos como os de Cirilo de Engrácia.
— Bem.
Apareceram vozes na estrada. Vozes? Ou seria que eu estava tresvariando? Alucinação. Não queria acreditar que pessoas normais se avizinhassem de mim sossegadamente. Agarrava-me com desespero à corda.
— Trinta anos de prisão, trinta anos de prisão.
As grades que a gente não pode tocar, tão nojentas são elas, as esteiras, as cortinas de pucumã, os muros grossos, fome, sede, caldo de bacalhau, e nesta miséria José Baía fabricando piteiras, pentes de tartaruga, objetos miúdos de casca de coco.
— Vão-se embora. Vão-se embora. Não venham, que se desgraçam. Um homem perdido não respeita nada.
O homem perdido ofegava apavorado. As vozes cada vez mais distintas, grossas, finas. Machos e fêmeas. Certamente iam para a farra. Mentira, tudo mentira. Eu não tinha trinta e cinco anos: tinha dez e estudava a lição difícil na sala de nossa casa na vila. A sala enchia-se de rumores estranhos que vinham de fora e saíam das paredes. Provavelmente eram os sapos do açude da Penha. Não eram sapos: eram homens e mulheres que se aproximavam. As palavras tornaram-se claras. Alguém dizia:
— Deixa de luxo, minha filha. Será o que Deus quiser.
Não me lembro de outra frase. Risos, falas truncadas. O grupo foi-se chegando, passou por baixo da árvore. Uma pessoa bateu em Julião Tavares e resmungou: - "Desculpe". A corda resvalou, recuou uns dez centímetros, com certeza Julião Tavares curvou-se um pouco na escuridão. Eu repetia baixinho:
— Será o que Deus quiser.
Os meus dedos se imobilizavam, feridos, a corda molhada de suor ameaçava correr sobre o galho, emborcar no chão úmido o corpo de Julião Tavares. Não o poderia levantar outra vez, a polícia encontrá-lo-ia deitado nas folhas e iria farejar-me.
— Trinta anos de prisão. Trinta anos de prisão.
O riso de uma das mulheres que tinham passado sob a árvore estalou a alguns metros de distância. Estaria mangando de mim? mangando dos esforços que eu fazia para recuperar os dez centímetros de corda? Senti que ia fraquejar, que a corda continuaria a escorregar na madeira. Julião Tavares, inclinado para a frente, balançava. Seu Ivo andava assim, zambeta, balançando, os olhos vidrados, sem ver ninguém. Outras gargalhadas, longe. Seria a mulher que tinha rido? Ou viriam outras pessoas falar debaixo da árvore, bater no ombro de Julião Tavares, pedir-lhe desculpa? Não havia perigo, não havia perigo, entrei a repetir baixinho que não havia perigo. Estava em segurança, escondido na folhagem, enrolado no nevoeiro. Podiam passar, parar, tocar em Julião Tavares, que se afastaria duro como uma marionete pesada demais.
— Não há perigo, nenhum perigo.
Não havia outra coisa. E pareceu-me falta de senso comum alguém rir naquele lugar amaldiçoado. Por que amaldiçoado? Tanta importância! Eu e Julião Tavares éramos umas excrescências miseráveis. As risadas zombeteiras extinguiam-se, distantes.
— Luís da Silva, Julião Tavares, isso não vale nada. Sujeitos úteis morrem de morte violenta ou acabam-se nas prisões. Não faz mal que vocês desapareçam. Propriamente, vocês nunca viveram.
Ia adormecer entre as folhas, com os braços estirados, afastando-me da árvore para fazer contrapeso ao corpo de Julião Tavares. Apoiava-me à curva da perna direita, presa ao galho. De quando em quando soltava a corda e ia pegá-la mais abaixo. A mão esquerda aguentava o peso, os dedos estavam a ponto de quebrar-se. Julião Tavares teria subido, ou a corda mergulhara no pescoço balofo? Qualquer movimento à toa me faria perder o equilíbrio. Abria os olhos desmedidamente, mas tinha medo de virar a cabeça para ver o corpo que se alongava e emagrecia.
— Sobe, Julião Tavares. Para que serve essa resistência atrasada?
Uma lentidão de lesma. Subitamente notei que o corpo subia e balançava. Passei rápido a corda pelo galho. Outra volta, outras voltas, um nó que me levou o resto da energia, e fiquei ali arquejando, desmanchando-me em suor. Desejaria achatar-me, confundir-me com as coisas moles e úmidas que os meus dedos tinham esmagado sobre a casca da árvore. Agora os dedos seguravam mal aquele suporte incômodo e oscilante. Enorme preguiça e enorme sono prendiam-me ao galho. Creio que dormi uns minutos. Seria bom cair: talvez a queda sacudisse o torpor e me restituísse a vontade necessária para entrar em casa e embriagar-me. Embriagar-me, naturalmente. Teria dormido? Meus parentes sertanejos dormiam montados, viajavam assim. Equilibrava-me não sei como. - "Currupaco, papaco. A mulher do macaco..." Vitória sonhava com as moedas escondidas em qualquer parte, depois que os canteiros tinham sido descobertos. Como me seria possível alcançar outro ramo? Passando a outro ramo, estaria em segurança. Se pudesse retirar-me dali... Tive a ideia extravagante de chegar à cidade andando sobre as árvores.
— Em segurança, em segurança.
Evidentemente era preciso descer, mas isto me apavorava. Lá embaixo numerosos inimigos iam perseguir-me. Necessário descer. Soltar-me-ia, tombaria como um macaco ferido. Os dedos inteiriçavam-se. Escancarei os olhos. O que vi foi o corpo de Julião Tavares deformado pela escuridão. Balancei a cabeça, encolhi-me com um arrepio, o receio de na queda tocar o corpo de Julião Tavares. Não caí. Escorreguei na madeira molhada, abracei-me a ela. Uma pancada no joelho, as pernas estrepando-se na cerca de pau a pique, um rasgão nas calças. Dei um salto para trás e caí sentado nas folhas secas. A ideia do perigo assaltou-me com tanta intensidade que me pus a soluçar. Tentei levantar-me, as pernas vergaram. Arrastei-me chorando, apalpando o chão, a procurar qualquer coisa. Procurava o chapéu, caído na luta, mas não sabia o que procurava. As carapanãs esvoaçavam-me em torno da cabeça e picavam-me a carne moída. Encontrei um chapéu, que não dava para mim, era pequeno demais. Atirei para longe, cheio de repugnância, o chapéu de Julião Tavares. Continuei a engatinhar, já agora sabendo perfeitamente que procurava o meu chapéu. Achei-o, mas ficou-me a dúvida de que fosse o mesmo experimentado minutos antes. Não se acomodava bem na minha cabeça. Rastejei ao longo da cerca. Alguns metros que me afastasse representavam uma conquista. Estava aborrecido com Moisés. Que me havia feito Moisés? Não me lembrava de nada, mas era certo que o judeu me pregara uma peça. Pareceu-me que ele rondava por ali, mangando de mim. Rastejando como as cobras! Nova tentativa e consegui levantar-me, lá fui caminhando lentamente, amparado à cerca. Faltou-me de repente o amparo, andei como uma criança que ensaia os primeiros passos. Se pudesse correr... Evidentemente o perigo crescia. Quantos metros teria percorrido? Estava certo de que homens e mulheres me acompanhavam. Tinham passado por baixo da árvore, visto o homem enforcado, iam encontrar-me e denunciar-me. A gargalhada e a frase da mulher atenazavam-me.
— Será o que Deus quiser, sem dúvida.
Um, dois, um, dois. Inútil. Não podia marchar. Um aleijado, um velho. Mais cem metros, e talvez fosse a salvação. Horrível atravessar os espaços iluminados. Se alguém desembocasse de uma travessa e me reconhecesse? Desejava olhar para trás. Impossível. Consegui reunir uns restos de força e correr. Uma carreira bamba e trôpega, a boca aberta, contrações na carne enregelada. Corria e chorava, certo de que o esforço era perdido, porque o meu chapéu tinha ficado à beira do caminho, sobre as moitas. No dia seguinte passaria de mão em mão e chegaria à minha cabeça.
— Trinta anos de cadeia.
Que utilidade tinha aquela carreira desengonçada e trêmula? Se me vissem correndo e chorando ali nos fundos dos quintais? Precisava parar, mas as pernas, levadas pelo medo, não quiseram obedecer. Insuportáveis os zumbidos e as ferroadas das carapanãs. Um chapéu muito pequeno. Dei um tropeção e estaquei. Para que lado me dirigia? Ia para a cidade ou voltava para Bebedouro? Inteiramente desorientado. Teria de passar outra vez pela árvore onde Julião Tavares se balançava? Vagar a noite inteira, como um judeu errante! Continuei a andar. Bem. Se me encaminhasse a Bebedouro, voltaria pela rodagem, entraria em casa antes de amanhecer. Apareceram luzes, as carolinas que enfeitam o canal, os eucaliptos da Levada. Avancei lentamente até o bueiro, sentei-me. Estava ali um vagabundo, que acordou com a minha chegada. Eu ia perseguido por criaturas inexistentes, mas a presença daquele vagabundo não me produziu medo.
— Boa noite.
A voz saiu-me abafada e incerta. Julião Tavares estava longe. Sacudi a cabeça para esquecê-lo e para afugentar as carapanãs. Exausto. Descansaria, entraria em casa dentro de alguns minutos, beberia aguardente, dormiria. A garrafa tinha ficado quase cheia. Embriagar-me, dormir. Tentei cruzar as mãos sobre os joelhos, mas os dedos feridos endureciam e qualquer contato era extremamente doloroso. Sem nenhum receio, dava as costas ao maloqueiro, escondia a cara instintivamente. As mãos grossas esquecidas nos joelhos pesavam em demasia. Levei-as aos bolsos, senti a ausência dos cigarros e a ausência da corda.
— Faz favor de me dar um cigarro?
O homem remexeu-se:
— Hum!
— Há muitas horas que não fumo. Para quem tem vício... Desculpe. É a peste do cigarro que me faz falta. O senhor terá um por acaso?
Olhei-o com um olho por cima do ombro, vi-o levantar a cabeça e bulir nos molambos.
— Realmente... É isso mesmo. Eu estava dormindo.
Depois de uma busca demorada, grunhiu:
— An! Tome lá.
Estirei a mão ensanguentada e recebi o cigarro de fumo picado que se desmanchava:
— Muito obrigado.
Encontrei a caixa de fósforos, comecei a fumar. A cabeça pesada parecia ter crescido. Tirei o chapéu, examinei-o. Tive um suspiro de alívio: era o meu, todo machucado e sujo de lama. Pus-me a esfregá-lo com a aba do paletó.
— Muito obrigado. Sinto muito dar-lhe incômodo.
— Hem?
Esta exclamação mostrou-me que o homem havia percebido em mim um animal diferente dele. As luzes da Nordeste cochilavam. Olhei a minha roupa. Estava imundo, com um rasgão no joelho, desarranjado. Mas usava palavras de gente bem-vestida. - "Sinto muito dar-lhe incômodo." Para que tapeação? Queria fumar. Bem. Voltariam as forças.
— Dorme aqui sempre?
O homem virou-se e enrolou-se mais nos molambos. Arrependi-me de ter feito a pergunta. Horríveis aqueles modos. Devia muito ao vagabundo. Chegaria a casa facilmente, beberia, dormiria, esqueceria Julião Tavares.
— Não tive intenção de ofendê-lo. Foi uma palavra à toa. O senhor me desculpa. Fazia horas que não fumava. Um grande favor, entende? Muito obrigado.
As minhas frases eram convencionais e não valiam o cigarro que se apagava a cada instante.
— Eu estava dormindo - respondeu o maloqueiro. - Não tem de quê. Foi incômodo não. Boa noite.
Remoeu umas coisas guturais e começou a roncar. Impossível qualquer aproximação. O isolamento em companhia de uma pessoa era mais opressivo que a solidão completa. Parecia-me que aquele homem estava morto. Esta ideia afligiu-me tanto que desejei sacudi-lo, conversar com ele, explicar-me, convencê-lo de que estava agradecido.
— Diabo! - murmurei. - Eu também fui vagabundo, dormi nos bancos dos jardins e curti fome, mas nunca fui assim grosseiro.
Esqueci o benefício recebido, e novamente me surgiu a ideia de que o homem estava morto. Levantei-me, entrei na rua do Apolo. O rasgão mostrava-me a cabeça do joelho, o colarinho tinha-se desprendido da camisa, a roupa estava preta de limo e terra, as mãos estavam pretas de limo, terra e sangue. Se alguém me visse em semelhante desordem... O cigarro de fumo picado findava, a ponta colava-se aos beiços e queimava-os. Precisava entrar em casa. Aproximava-me, e não tinha certeza disto. As distâncias desapareciam. O galho que sustentava Julião Tavares balançava por cima do bueiro, e Julião Tavares confundia-se com o homem que me havia oferecido o cigarro. Um, dois, um, dois. Agora podia marchar. Com algumas pernadas estaria em casa, mas a casa se afastava sempre. Veio-me um desânimo extraordinário. Quase a chegar, depois de esforços imensos, ia ser descoberto e agarrado. Um transeunte notaria o desarranjo da roupa, a gravata fora do lugar, o rasgão no joelho.
— Onde passou a noite de tal dia?
— Em casa, na redação.
Perceberiam logo a mentira. Em seguida viriam perguntas insignificantes em tom misterioso, e eu me cansaria inutilmente para desviar-me delas. Quando estivesse distraído, jogariam de novo a coisa perversa:
— Mas onde foi que o senhor passou a noite de tal dia?
A testemunha, que me havia encontrado com um rasgão no joelho e o colarinho desabotoado, arrumaria o seu depoimento de cabeça baixa, em poucas palavras para não cair em contradição. Quem seria o advogado? o dr. Fulano, o dr. Sicrano... Esses falavam de papo e tinham recursos para inutilizar o depoimento:
— Que horas eram quando o senhor viu o acusado?
— Três horas.
Quinze minutos depois a mesma pergunta.
— Quatro horas.
O escrivão registraria as duas respostas, a testemunha atordoada não se lembraria de dizer que era impossível saber a hora exata em que via passar uma pessoa na rua, o dr. Fulano ou o dr. Sicrano exploraria a atrapalhação do homem - e a defesa levantaria a cabeça. Apenas eu não podia contratar os serviços de um dos advogados hábeis, contentar-me-ia com um bacharel novo, gratuito e desastrado. A acusação ficaria de pé, o interrogatório rolaria uma eternidade na máquina de escrever. Coisas simples, malícia nenhuma. Quando eu menos esperasse, surgiria a intenção ruim - e daí em diante todas as perguntas seriam como cobras enrodilhadas que se preparavam para armar o bote. Um, dois, um, dois. Não apareceria aquela casa amaldiçoada? As luzes da Nordeste subiam e desciam. Olhei os quatro cantos numa ansiedade, certo de que a testemunha ia de repente dobrar a esquina e avançar na rua. Viria com passo firme, de cabeça baixa. Quando passasse por mim, levantaria os olhos - e estaria tudo perdido. Para que então aquele desespero, aquela agonia?
— Será o que Deus quiser. O que tem de ser tem muita força.
Era melhor voltar. Tive a ideia absurda de voltar, sentar-me outra vez no bueiro, conversar com o vagabundo, pedir-lhe outro cigarro. E depois seguir em frente, sempre em frente, parar debaixo da árvore que sustentava Julião Tavares. Quando a polícia chegasse, eu contaria tudo:
— Não me matem de fome nem me deem água de bacalhau. Eu me explico. Foi assim.
Ninguém teria interesse em descobrir incongruências nas minhas palavras. Voltar, esperar tranquilamente as grades úmidas e pegajosas. Embrutecer-me-ia por detrás delas, tornar-me-ia criança, ouviria as histórias ingênuas de algum José Baía, que me diria as virtudes da oração da cabra preta. Teriam encontrado Julião Tavares esticado no caminho escuro? Estariam metendo uma colher na boca de Julião Tavares? No sertão introduzem uma colher de prata na boca do homem assassinado - e o criminoso que não sabe orações fica preso: desorienta-se e acaba voltando para junto da vítima. Outros homens e outras mulheres tinham passado, por baixo do galho, cortado a corda, levado Julião Tavares para uma casa da travessa mais próxima. Estava lá o cadáver emborcado, com uma colher de prata na boca. E eu regressaria, com medo da testemunha, que ia aparecer na esquina. Tudo se sumiu de chofre. A chave rangendo na fechadura, como todos os dias, devagar para não acordar Vitória, o ferrolho corrido por dentro, passos abafados no corredor. Cheguei à sala de jantar às apalpadelas, abri o comutador e fiquei ao pé da mesa, piscando os olhos à luz. Tive um arrepio, os cabelos se levantaram, senti uma dor aguda no couro cabeludo. Tirei o chapéu e pus-me a escová-lo com a manga. Era o meu, sem dúvida. Voltei à sala e fui pendurá-lo ao cabide. Puxei a corrente da lâmpada, olhei-me ao espelho. Diferente, magro, velho, as pálpebras empapuçadas, rugas, terra seca na barba crescida.
— Peste! Andei rolando pelo chão como um porco.