Marina e d. Albertina
Marina parou diante de uma casinha baixa, hesitou, bateu à porta. Toda a minha atenção se concentrou num olho, porque na esquina em que me achava apenas apresentava à rua uma banda da cara. Quando ela entrou, desentoquei-me, aproximei-me da casinha e vi uma placa azul com letras brancas: "Albertina de tal, parteira diplomada". Fui até o fim da rua. Aparentemente observava os letreiros das bodegas e as legendas revolucionárias. As bodegas tinham nomes difíceis. Julguei que os vagabundos me achavam diferente dos habitantes do bairro. E isto me fez apressar o passo e virar o rosto. Desejei retirar-me dali, ingressar de novo na sociedade dos funcionários e dos literatos.
Crianças de azul e branco, naturalmente de volta da escola, tinham a pele enxofrada, o rosto magro cheio de fome. Sentia-me intruso. A minha roupa era velha, a gravata enrolada como uma corda. Com certeza os rapazes do bairro tinham melhor aparência. Em dias de descanso usavam roupa nova, lenço de seda, sapatos lustrosos. Mas havia em mim qualquer coisa que denunciava um estranho. As crianças olhavam-me como olham os homens que aparecem nas escolas pelos exames. Eu era uma das criaturas que elas estavam acostumadas a aborrecer, uma das criaturas que dizem palavras compridas em discursos. Voltei, parei novamente diante da casa de d. Albertina de tal, parteira diplomada. Atravessei a rua, entrei numa bodega.
— Faz o obséquio de me dar um pouco de aguardente?
O homem da venda trouxe a garrafa, pôs-se a despejá-la num copo sujo. Como eu não o interrompesse, derramou a bebida com sovinice.
— Quer que encha?
— Vá botando.
— An! bom. É o que se leva deste mundo, opinou entregando-me o copo cheio.
Sentei-me e comecei a beber, olhando a casa fronteira, o pensamento espalhado.
— Seu Ivo deve andar por aqui, não?
O homem não respondeu logo: franziu a testa e agitou vagamente o braço peludo. Não conhecia seu Ivo. Naturalmente. Mas senti uma espécie de decepção, as casas em redor pareceram mais fechadas, o dono da bodega mais cabeludo e mais silencioso.
— D. Albertina estará em casa?
O bodegueiro interrogou-me com a cabeça. Apontei a casa:
— D. Albertina...
— Talvez esteja - respondeu o sujeito depois de algum tempo. - Sua mulher precisa dela?
— Não. É outra coisa.
— Está bem.
Esta aprovação desgostou-me, tive o desejo de contrariá-lo, mas limitei-me a beber metade da aguardente e bater com o copo no balcão. Não havia nada que estivesse bem.
Vista dali, a placa azul de d. Albertina era ilegível. Mesmo de perto, dificilmente se decifrava. Em vários pontos, especialmente nos cantos, o esmalte desaparecia e era substituído por manchas de ferrugem. Com certeza aquele traste havia sido mudado muitas vezes, pregado e despregado, amassado, desamassado a martelo. De alto a baixo uma linha escura indicava que o tinham dobrado e novamente estendido. Ali faltavam as letras.
As rótulas verdes de d. Albertina estavam cerradas, a porta fechada. E Marina lá dentro. Lembrei-me de anúncios revistos há muitos anos: "Fulana de tal, parteira diplomada, com longa prática etc., faz voltarem as regras etc.". Trancada num quarto, deitada na cama, Marina se deixava apalpar demoradamente. A água fervia na caixinha de lata, a chama do álcool empalidecia as figuras.
— Quantos meses? - perguntava d. Albertina.
Na casa vizinha um dístico horrível tomava a parede toda. Letras grandes, letras pequenas, maiúsculas no meio das palavras. E linhas verticais, verdes, produzidas pela água da chuva, cortando a ameaça aos ricos.
— Andam muitos agitadores por aqui, não?
— An?
— Pessoas descontentes que pretendem arrasar isto, construir de novo. Que acha?
Apontei a inscrição violenta. O sujeito cabeludo espiou-me com o rabo do olho e amoitou-se:
— Aquela sempre esteve ali.
— Sempre?
Meninos abandonados batiam nas portas, pediam esmolas.
— Sempre? Como é lá isso?
— É um modo de dizer - respondeu o tipo. - Aí uns três anos. Quando abri o estabelecimento, ela já estava acolá, assim mesmo, com uns pedaços verdes. A gente se acostuma.
— Acha? - perguntei enjoado. - Ora essa! Qual é a sua opinião?
Bebi um gole de aguardente, acendi um cigarro, pus-me a bater com os dedos na tábua preta e gordurosa.
— Essa d. Albertina faz negócio? Qual é a sua opinião?
— Sobre quê?
Abarquei com um gesto as garrafas das prateleiras, as casas arruinadas, a rua coberta de capim e as crianças que pediam esmolas:
— Tudo. Quando a encrenca vier, o senhor perde pouco.
— Sei lá! Não leio, não vou aos meetings. Só cuido da minha vida.
Puxei a cadeira, afastei-me daquele homem indiferente. Estupidez. Imaginar que as letras sempre tinham estado na parede. Inútil conversar com ele. Tenho lido muitos livros em línguas estrangeiras. Habituei-me a entender algumas. Nunca me serviram para falar, mas sei o que há nos livros. Certas personagens de romances familiarizaram-se comigo. Apesar de serem de outras raças, viverem noutros continentes, estão perto de mim, mais perto que aquele homem da minha raça, talvez meu parente, inquilino de um dr. Gouveia, policiado pelos mesmos indivíduos que me policiam. Bebi o resto da aguardente, pensando em coisas sagradas, Deus, pátria, família, coisas distantes. Por cima da armação da bodega havia a litografia de uma santinha bonita. Lembrei-me do Deus antigo que incendiava cidades:
— A humanidade está ficando pulha.
— Hum?
— É cá uma história. Faz o favor de trazer mais aguardente?
O homem cabeludo trouxe a garrafa:
— É o que se aproveita neste mundo.
— Mais ou menos.
Uma pátria dominada por dr. Gouveia, Julião Tavares, o diretor da minha repartição, o amante de d. Mercedes, outros desta marca, era chinfrim. Tudo odioso e estúpido, mais odioso e estúpido que o sujeito cabeludo que despejava aguardente no copo sujo.
Que demora de Marina! D. Adélia chegava à janela. Seu Ramalho, cansado, um ombro alto e outro baixo, entrava sucumbido, assobiando por causa da asma, ia sentar-se à mesa de toalha rasgada, onde a comida esfriava. D. Adélia inventava desculpas: Marina tinha ido ali, tinha ido acolá, não tardava. Seu Ramalho fungava, enjoado: tudo mentira. Alguns dias depois Marina apareceria com vestidos caros, peles caras que não seriam compradas por ele. Abandonava o prato, detestava a mulher, detestava a filha, descia ao quintal, passeava entre os montes de lixo. Que família! Que miséria! D. Rosália largava os meninos a Antônia, deixava a panela esturrar, ia para a janela ganhar calos nos cotovelos, espionar os vizinhos. D. Mercedes mandava dinheiro ao marido e tinha filha no colégio.
Que demora! D. Albertina não acabaria aquela operação para restabelecer as regras? D. Albertina era terrivelmente criminosa. Rumor de tambores, longe, toques de corneta. O filho de Julião Tavares era necessário ao patriotismo. A água fervendo na caixinha de lata, um frasco cheio de líquido vermelho, a chama do álcool tremendo, Marina com o rosto escondido entre as mãos, deixando-se apalpar pelos dedos hábeis de d. Albertina. Se não fosse isso, dentro de vinte anos a criatura mofina estaria volvendo à direita, volvendo à esquerda, decorando os nomes das peças de um fuzil e passagens gloriosas do Paraguai. Filho de casal direito, com pai rico, faria discursos no Instituto e declamaria versos; mas assim, coitado, nasceria às escondidas e não passaria daquilo - direita, esquerda, ordinário. D. Albertina era criminosa, mas não senti ódio a ela. Sinha Terta não faria semelhante coisa. Sinha Terta não tinha diploma, nem placa, nem anúncio nas folhas, acreditava em pecado e vivia num tempo em que os filhos traziam vantagens aos pais. As mulheres pariam na esteira, e quando surgia dificuldade, sinha Terta empurrava a reza: - "Minha santa Margarida, não estou prenha nem parida....". Os filhos de Quitéria e os das outras negras da fazenda pertenciam à família do velho Trajano. Onde andaria essa família? Morta, espalhada, esfarelada.
Os toques de corneta e os rufos de tambor cresciam. A minha pátria era a vila perdida no alto da serra, onde a chuva caía numa neblina que escondia tudo. Se eu tivesse ficado ali, ignoraria o resto do mundo. Seu Evaristo, que se enforcou, mestre Antônio Justino, padre Inácio, cabo José da Luz, seriam pessoas notáveis. Tão longe! Pensei no jornal francês lido na véspera e aqui chegado vinte e quatro horas depois de publicado. As notícias dos municípios sertanejos do meu Estado chegam mais atrasadas que um número de jornal europeu.
Como seria a cara de d. Albertina? Imaginei-a magra, pálida, séria, correta. Não havia motivo para Marina esconder os olhos.
— Faça o favor de descobrir o rosto. Não se acanhe. Tão natural!
Depois voltariam as regras.
— Dois meses? Perfeitamente. Agora a senhora toma precauções, usa isto, usa aquilo.
Exatamente como se Marina estivesse no consultório de um médico, sarjando um tumor. Nenhum sinal de crime ou de ação proibida. A seringa na água que borbulhava, um frasco sobre a mesa da cabeceira, quadros de anatomia nas paredes, a chama do álcool tremendo, a voz calma de d. Albertina a prescrever medidas de segurança. Uma senhora pálida e franzina, de rosto sereno e boas intenções.
— Não se acanhe. Fique à vontade.
Nenhuma alusão a qualquer espécie de falta. Direita, fria, falando baixinho, empregando termos escolhidos.
Mas por que era que d. Albertina, parteira diplomada, com longa prática, deveria ser assim e não de outra forma? Talvez fosse diferente. Os anúncios não valem nada, papel aguenta tudo, como dizem os matutos. D. Albertina era uma velha gorda e mole, sem diploma nem prática, de óculos ordinários e hálito desagradável, mal-educada, resmungona. Marina estava deitada numa cama nojenta; nas paredes nojentas não havia gravuras de anatomia: havia quadros de santos, retratos coloridos, páginas de revistas. Sem lavar as mãos duras, de unhas compridas e negras, d. Albertina examinava brutalmente o corpo de Marina, arranhando-a, machucando-a, rosnando:
— Era melhor deixar-se de vergonhas e descobrir a cara. Quando andam na pândega, não têm esses luxos. E depois parem bem na bananeira. Feias coisas.
Mostrava os dentes amarelos de selvagem. Seria assim d. Albertina? A cliente mordia as cobertas sujas, continha a respiração, fechava os olhos, apertava as coxas e engolia o choro.
— Abra as pernas, criatura. Donde vêm esses dengues? Assim ninguém pode trabalhar.
O dinheiro do trabalho fora recebido adiantadamente. Marina dera nome falso e endereço errado, temendo a exploração de d. Albertina.
— Não vale a pena a senhora se incomodar. Eu apareço, compreende? Se houver necessidade, eu apareço.
— Quanto devo?
O homem cabeludo deu a conta. Joguei uns níqueis no balcão, disse frases sem sentido, olhando a legenda medonha no muro cortado de listras verdes. Que vida teria d. Albertina? D. Albertina sabia umas coisas, como eu, e como eu usava linguagem diferente da linguagem das outras pessoas. Ordinariamente não é preciso que me digam: - "Faça isto. Escreva assim". Basta que me mostrem ser conveniente fazer isto e escrever assim. Depois os amigos me felicitam, juram que um artigo que ninguém leu foi muito apreciado. Marina provavelmente não dissera o que desejava: falara por meias-palavras, aludira a dificuldades de ordem econômica, desavenças de família etc. D. Albertina riscara um fósforo para desinfetar a seringa na caixinha de lata. A segunda d. Albertina, desleixada, suja, de unhas compridas e pretas que arranhavam o corpo das clientes, sumiu-se. Voltou a outra, delicada e limpa:
— Como não? Perfeitamente. Pode confiar. Sem dúvida.
As mãos finas de unhas polidas, a voz baixa e grave:
— Perfeitamente.
O filho de Julião Tavares rebentaria como um tumor. D. Albertina lavaria as mãos, sorrindo:
— A senhora tem uns lindos cabelos.
E ajeitaria os cabelos desconcertados de Marina. Receberia o envelope indiferente, como se aquilo não tivesse importância:
— Ora essa!
A mulher suja e balofa desaparecera, o quarto sujo desaparecera. Uma senhora decente, parteira diplomada, com longa prática, as mãos brancas e macias, linguagem correta, sorrisos:
— Quando quiser. Perfeitamente.
O filho de Julião Tavares não viria ao mundo penar, cantar na escola o hino do Ipiranga, mover-se no exercício militar, curtir fome nos bancos dos jardins, amolar-se nas repartições, adular nos jornais o governo. E a família de seu Ramalho nada sofreria.
Pensando bem, d. Albertina atentara apenas contra Deus e contra a pátria. Se aquilo fosse julgado pelo júri, o promotor gritaria um discurso patético, e os jurados se arrepiariam com indignação. Se o cura da sé ouvisse um pecado tão grande no confessionário, daria às duas mulheres penitência dura. Mas não haveria discurso, não haveria penitência, que elas não se julgavam culpadas e despediam-se de coração leve, Marina ainda confusa, d. Albertina fingindo acreditar que ela era casada:
— Para que ter filhos, minha senhora? A gente sofre, mas se eles vivessem, podia ser pior, não é verdade? Criar infelizes... Uma responsabilidade, minha senhora, responsabilidade enorme.
A justiça e a religião não tomariam conhecimento do caso. E a família de seu Ramalho continuaria, como estava, sem um escândalo para alimentar d. Rosália, sem peso novo no orçamento, uma criatura que seria necessário vestir, calçar, nutrir e mandar à escola. D. Adélia censuraria aquele passo arriscado e teria um suspiro de alívio:
— Que loucura! Pisou na beira da cova.
Seu Ramalho, hostil e distante, perceberia vagamente que a maluca estava criando juízo. Tudo certo. Marina de cabeça erguida, criticando a vida suspeita de Lobisomem; d. Rosália e d. Mercedes falando com ela naturalmente; Julião Tavares, no café, exigindo um governo forte; d. Adélia apertando as mãos, gemendo conselhos:
— Tenha cuidado, minha filha. Não se exponha, não sacrifique a sua vida por causa desses safados. Conserve-se, pode ser que arranje casamento.
Levantei-me:
— Adeus.
Mas não saí: fiquei junto ao balcão, atrapalhado, olhando, à porta da casa fronteira, o rosto de Marina. Por detrás dela os cabelos brancos de d. Albertina agitavam-se. Só se percebiam os cabelos. Vistas de longe, as duas figuras confundiam-se, e tive a impressão de que Marina envelhecera e se purificará depois do trabalho da outra. Inutilizara nas entranhas uma coisa ruim que se atormentaria se vivesse, aguentaria coices por onde andasse: em casa, no quarto de pensão, na rua, no jornal, no quartel, na repartição. Tudo continuaria como anteriormente.
A neta de d. Aurora iria ao cinema com os hóspedes que a convidassem. D. Aurora balançaria os caracóis e as banhas excessivas. Dagoberto se agarraria ao compêndio e ao esqueleto.
Impacientei-me e falei ao bodegueiro, tentando explicar-lhe as letras pretas manchadas de verde. A neta de d. Aurora não era Marina e devia estar madura, talvez senhora honesta, dona de pensão, casada, gorda. E Dagoberto já não era estudante: era médico no Pará ou no Amazonas, um destes lugares. Àquela hora estaria examinando a Marina de uma ruela do Pará:
— Qual foi a parteira que lhe fez isso? Onde andava a senhora com a cabeça?
Gritos, indignação. E a Marina do Pará, compreendendo que havia feito doidice, temeria as doenças de nomes complicados. Mas não denunciaria nenhuma d. Albertina. Dagoberto que lhe desse um remédio, se quisesse. Como estaria Dagoberto, depois de dez anos de separação? Devia estar gordo, encanecido, rico, cheio de filhos, com óculos.
Marina ia sair. Viu que se abria uma janela na vizinhança e retraiu-se. Os cabelos brancos continuavam a agitar-se. Não pude saber a qual dos dois tipos imaginados d. Albertina se assemelhava. Seria talvez uma d. Albertina diferente das minhas.
Fazia minutos que me havia despedido do bodegueiro, mas prosseguia na conversa, decifrando a legenda revolucionária.
Subitamente os cabelos brancos desapareceram e Marina saiu. Findei a exposição capenga:
— Até logo.
Atravessei a rua e cheguei-me a Marina, que se afastava com dificuldade, mergulhando na areia os sapatos vermelhos. Sentia-me perturbado e intimamente armava diálogos que ela não entenderia. Os sapatos velhos, rachados e cambados. A roupa desfiando-se nas costuras. Tão miúda, tão reles! Estava quase a pisar-lhe os calcanhares. Tossi:
— Faz favor?
Continuou a marcha penosa, mais lenta e mais cansada depois que dobrou uma esquina. O suor corria-lhe pela nuca, entre os cabelinhos arrepiados. De quando em quando a mão que enxugava a cara surgia por cima de um ombro e esfregava com o lenço a penugem amarela.
— Faz favor?
Aí ela parou. Em seguida apressou o passo, meteu com vontade os pés na areia frouxa, e a penugem amarela empastou-se, grudou-se à pele e escureceu.
— Deixa disso. Não há motivo para esse orgulho todo. Baixa a pancada. Donde vem uma soberbia tão grande?
Os músculos do pescoço tremeram, os sapatos vermelhos plantaram-se na areia, mexeram-se como se quisessem arrancar-se, ficaram imóveis. Avancei dois metros, fiz meia-volta e achei-me em frente de Marina:
— Boa tarde. Como vai a saúde? Há que tempo!
Vista de costas, o que nela avultava era a nuca molhada. Agora percebia-se a testa, molhada também e coberta de rugas. Parecia que o resto do corpo se ocultava sob as pálpebras caídas e roxas. O peito cavava-se, a barriga sumia-se. Examinei-lhe brutalmente a barriga, barriga comum, nem grande nem pequena. Uma pessoa modesta andando na rua, encolhendo-se para não dar nas vistas.
— Sim senhora, muito digna. Levanta a cabeça.
Marina estremeceu e olhou de esguelha para os lados, como se procurasse auxílio.
— Levanta a cabeça. Deixa de inocência.
Aqueles modos pudicos, aqueles movimentos quase imperceptíveis das pálpebras roxas que velavam olhos inúteis, irritaram-me. Lembrei-me dos armadores que rangiam, das cantigas, dos banhos ruidosos. E atirei-lhe à cara, com raiva:
— Puta!
Marina ouviu isto sem se revoltar. Apenas ficou mais branca, estirou o beiço quase chorando.
— Me largue, balbuciou.
— Está bem. Ninguém tem nada com isso, não é? Vamos andando. Puta!
Dizia-lhe o insulto, mas estava cheio de piedade. Não sentia cólera, o que sentia era desgosto.
Marina estava como uma defunta em pé. Pensei em Cirilo de Engrácia, visto dias antes em fotografia - um cangaceiro morto, amarrado a uma árvore. Parecia vivo e era medonho. O que tinha de morto eram os pés, suspensos, com os dedos quase tocando o chão. Os pés de Camilo Pereira da Silva, ossudos, magros, eram assim desgovernados. Os de Marina estavam metidos na areia. E Marina parecia morta.
— Puta!
Teria dito e repetido outra palavra que insistisse em vir-me à boca, dessas coisas que a gente diz à toa e conserva porque vieram espontaneamente e são insubstituíveis e absurdas. Quanto mais olhava Marina menos me inclinava a admitir que ela fosse uma puta. As pálpebras roxas ocultando olhos aguados, o beiço trêmulo, a barriga encolhida, a cara mal pintada, a testa amarela coberta de rugas.
— Vamos caminhando.
Marina pôs-se a andar como um mamulengo.
O homem cabeludo só cuidava da sua vida; a datilógrafa dos olhos de gato copiava um boletim na máquina estragada; d. Albertina guardava os cem mil-réis na gaveta; as crianças que voltavam do grupo escolar soletravam as legendas estiradas nas paredes. O filho de Marina morria, talvez já tivesse morrido. Pensei nos ratos, em d. Mercedes, no quintal cheio de lixo, na mulher que lava garrafas e no homem que enche dornas. Estas lembranças me produziram um aperto no coração. Quase todas me pareceram regulares, mas a ideia dos ratos era extravagante, e isto me enfureceu. Que vinham fazer os ratos ali, àquela hora?
— Puta! - exclamei metendo com raiva os pés na areia.
Talvez não me referisse a Marina: referia-me aos ratos, a coisas vagas. A palavra infamante tinha extensão enorme. Nada se fixava no meu espírito. Aberrações, monstruosidades, os uivos compridos de d. Rosália, a respiração ofegante do marido de d. Rosália, Antônia, Berta, a mulher da rua da Lama, a neta de d. Aurora, a banca da redação, o cinema, o teatro. E aparecia-me na rua uma criatura pálida, silenciosa. Mais forte que aquelas ideias indecisas e misturadas, a lembrança dos ratos continuava a atormentar-me.
— Puta!
Os beiços de Marina estavam como os de uma defunta, os olhos procuravam socorro, e eu cravava as unhas nas palmas das mãos, mordia a língua por haver deixado escapar mais uma vez a injúria que nada significava. Deu-me uma tontura, cambaleei. Meses antes Marina ficara nua, a carne arrepiada se cobrira de carocinhos. Quando o marido voltava do interior, d. Rosália soltava uns gritos que não me deixavam dormir. A mulher da rua da Lama ia para o hospital, vinha do hospital, continuava o trabalho enfadonho no quarto sujo, nua e triste. Os dedos cruzavam-se nos joelhos agudos como dedos mortos. - "A água lava tudo, as feridas cicatrizam." Repeti mentalmente esta frase, mas não pude saber de quem era ela.
— Enfim tudo se acabou, não é? - perguntei. - O filho morreu, boa solução.
Marina estremeceu violentamente e parou, olhando-me pela primeira vez. O rosto contraído esmoreceu num desmaio, o corpo diminuiu. Pareceu-me que ia enterrar-se todo na areia. A voz morria-lhe na garganta, sons roucos e incompreensíveis, mas os olhos apavorados negavam, a cabeça agitava-se desordenadamente, negando.
— Merecia estar na cadeia - resmunguei sentindo uma necessidade urgente de justiça.
Palavras antigas, esquecidas, voltavam-me. - "Os que têm fome de justiça", cantavam os alunos de mestre Antônio Justino. Sede ou fome de justiça? Não me lembrava. Também já não sabia as vantagens que o catecismo reserva aos que têm fome ou sede de justiça.
— Na cadeia, percebe? Comendo bacalhau e dormindo na esteira. Sem-vergonha.
A frase antiga me perseguia, mas, por mais que tentasse reconstruí-la, não havia meio de tê-la completa. - "Bem-aventurados os que têm sede de justiça..." E o resto? Que aconteceria a esses bem-aventurados? O esforço para recordar-me exasperava-me. Insultava Marina. Puta. A justiça havia de agarrá-la, jogá-la para lá das grades pretas que a gente não pode tocar. Vinham-me tiradas incoerentes, que embranqueciam e enegreciam Marina.
— Fez muito bem. Prejuízo pequeno, insignificância. É o que lhe digo. Sem falar nas responsabilidades, nas encrencas.
E logo:
— D. Albertina guarda segredo? Se não guardar, a reputação de Marina dá em ossos de minhoca.
— D. Albertina? - perguntou Marina, pálida como flor de algodão.
— Sim, d. Albertina, minha sem-vergonha. Vamos para diante. Marcha!
Continuamos a caminhada, segurei o braço mole de Marina.
— Eu vi a placa na porta. Estava defronte, conversando com o homem da venda.
— Me deixe, pelo amor de Deus - gritou Marina desesperada. - Não lhe fiz mal, vou quieta pelo meu caminho. Me deixe. Que é que você quer comigo?
Olhou os quatro cantos. Um soldado de polícia e um soldado do exército passaram, os quepes de banda.
— Atraca-te com um deles. Tu só dás para isso.
Atirei-lhe assim o pior ultraje. Como os pequenos militares são desprezados, julguei demolir Marina apontando-lhe os dois rapazes. Bem-aventurados os que têm sede de justiça. Esta coisa, repetida, dava-me fúrias de cachorro doido. Para que agarrar-me a sombras? Um juiz de direito bocejando, fatigado; o promotor declamando a acusação e afastando-se dos autos, que não tinha lido; o advogado, que poderia ser Julião Tavares, soluçando a defesa e apelando para os sentimentos religiosos dos jurados; oito sujeitos cochilando, chateados e comprometidos a absolver ou condenar a ré. Marina escondia a cara e inspirava compaixão. Todos os jurados tinham as feições de dr. Gouveia. Sacudi os ombros:
— Ande. Que diabo tem você nas pernas que não caminha?
A marcha na areia solta era penosa em extremo.
— Vá-se embora. Me largue, pelo amor de Deus - arquejou Marina. - Não lhe fiz mal. Por que não me deixa em paz?
Em paz. Grunhi de novo o desaforo imundo. Em paz. Nenhum caso importante. Não haveria juiz amolado tocando o tímpano, nem advogado pernóstico, nem promotor botando sabedoria em cima de dr. Gouveia multiplicado nas cadeiras. Marina dormiria tranquila, os armadores guardariam silêncio.
— Sem dúvida. Os tempos estão duros. Em frente, ordinário, marche! Tudo isto é uma peste.
Entramos na cidade e separamo-nos. Mas logo me veio a ideia de que ela se ia juntar com o amante.
Descobri por acaso que Julião Tavares tinha feito nova conquista. Foram duas ou três palavras soltas na rua que me deram a revelação. Pensei numa das filhas de Lobisomem e na datilógrafa dos olhos verdes.
Tudo isto é infantil, mas a verdade é que durante dias me atormentou a ideia de que Julião Tavares havia seduzido a menina dos olhos verdes. Para que lado morava ela? Nunca havia percebido a voz dessa criatura, não conhecia nenhum dos seus gostos, mas tinha certezas esquisitas e andava como um parente cheio de ciúmes ou como um cachorro que perdeu o faro, e não sossega.
Por que se tinha escondido a datilógrafa dos olhos verdes? Fugiria da polícia? Ou estaria de cama com a hemorragia produzida pela intervenção de uma d. Albertina? Agora Julião Tavares tomava um caminho, depois tomava outro - e eu imaginava que ela residia em Bebedouro, na Levada, em Jaraguá, no Farol, enfim admitia que nos quatro pontos cardeais existiam datilógrafas doentes. Todas elas estavam grávidas e procuravam os serviços de d. Albertina.
O bodegueiro cabeludo, com os cotovelos pregados no balcão, não via nada, só cuidava da sua vida. E Julião Tavares farejava as datilógrafas como um bode.
Por que andava com tanta pressa quando deixava o café? Entrava num bonde, espalhava-se no banco, feliz, o olho aceso, o charuto aceso. Ia encolher-me num dos últimos lugares, firmava as mãos no encosto do banco fronteiro, apoiava o queixo nas mãos e observava as costas de Julião Tavares. O cachaço gordo e mole como toicinho balançava com o movimento do carro. A mão curta de unhas cor-de-rosa fazia acenos para baixo. Transeuntes sorriam ao dono da mão curta de unhas brunidas. Eu notava com raiva aqueles sorrisos. Por que tanta subserviência nas caras abertas? Julião Tavares, patriota e orador, não prestava para nada. Nenhum favor esperavam dele. Mas sorriam por hábito. Eu também havia sorrido, amolado. Os cabelos de Julião Tavares começavam a escassear no alto da cabeça. Parecia que ele ia adquirindo uma espécie de tonsura. Falava alto, atirava cumprimentos aos conhecidos e era amável em excesso, mas a amabilidade traduzia-se em palavras vãs. O que me aborrecia era saber que essas palavras eram aceitas: tinham tido significação antigamente e continuavam a circular. Eu engulhava, metia a mão no bolso e apertava a corda.
Que fim teria levado seu Ivo? À toa, procurando nas fazendas e nas povoações muitas vezes percorridas alguma coisa ignorada. Bêbedo sempre, cochilando, babando, seu Ivo não encontra sossego. Uns foram para o Amazonas e acabaram-se no beribéri; outros andam pelo Sul, em concorrência com o estrangeiro. Seu Ivo, incapaz de fixar-se, índio e cigano, corre fazendas e povoações, pedindo, furtando. Não sabe tomar os objetos que necessita: pede, furta, é um indivíduo inferior. Por isso digo a Vitória quando ele me entra em casa:
— Vitória, preste atenção a seu Ivo. Cuidado para que ele não me abafe um livro.
Inútil. O livro é abafado e oferecido adiante, como a corda que ele me deu.
Apalpava a corda. Mexia-me lentamente, pensava nos cabras que meu avô livrava peitando os jurados ou ameaçando a cadeia da vila. Apareciam no pátio, desarmados, varrendo o chão com chapéus de couro; mas quando tinham empreitada, dormiam na pontaria, passavam semanas por detrás de um pau, o clavinote escorado numa forquilha, algumas rapaduras e farinha de mandioca no bisaco.
Pouco a pouco tudo se transformava, a catinga da minha terra rodava aos solavancos nos trilhos da Nordeste. Escondia-me entre aquela vegetação de passageiros, sobre o encosto do banco apoiava-se um rifle imaginário dirigido às costas de Julião Tavares. Tudo nele me aparecia aumentado e deformado. Lembrava-me das conversas que me estragavam as noites, de palavras ouvidas através da parede da sala de jantar, de frases truncadas percebidas no café. O homem saltava, eu ia saltar um poste adiante e continuava a espreita. Notava as casas onde ele entrava, as caras das pessoas a que se dirigia.
Como consequência da investigação, descobri afinal a nova amante de Julião Tavares. Era uma criaturinha sardenta e engraçada que trabalhava numa loja de miudezas. Dentro de alguns meses estaria de barriga, visitando clandestinamente d. Albertina. Venderia as joias baratas, furtaria dinheiro na caixa para d. Albertina. Ou então haveria um espalhafato. Julião Tavares daria à mocinha sardenta quinhentos mil-réis para ela calar-se e passaria uns tempos aborrecido, ouvindo os sermões de Tavares pai.