Hiatos e Lembranças
Há nas minhas recordações estranhos hiatos. Fixaram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo. As minhas ações surgem baralhadas e esmorecidas, como se fossem de outra pessoa. Penso nelas com indiferença. Certos atos aparecem inexplicáveis. Até as feições das pessoas e os lugares por onde transitei perdem a nitidez. Tudo aquilo era uma confusão, em que avultava a ideia de reaver Marina. Mais de um mês, quase dois meses em intimidade com o outro. Procurei por todos os meios uma nova aproximação. O despeito, a raiva que senti naqueles dias compridos, uns restos de amor-próprio, tudo se sumiu. À tarde voltava a sentar-me na espreguiçadeira, abria um livro. Marina ausente. Deitava-me, fingia dormir, ficava uma hora espiando o quintal vizinho através das pestanas meio cerradas. As galinhas ciscavam, d. Adélia cantava no banheiro, a sombra da mangueira crescia, além do muro a mulher que lava garrafas trabalhava sacolejando-se num ritmo de batuque e o homem triste enchia dornas. Às vezes passos apressados revelavam-me a presença de Marina. Eu tinha vergonha de abrir os olhos, e quando me decidia a acordar, já ela estava longe. Erguia-me irritado. Perdendo ali, como um rapazinho, momentos preciosos! Esforçava-me por acreditar que os meus momentos eram preciosos.
À noite sentava-me à calçada e olhava a rua. Seu Ramalho fazia o mesmo. Palavra de cá, palavra de lá - como falávamos baixo, era necessário aproximarmos as cadeiras. Depois do namoro da filha com Julião Tavares, d. Adélia mostrava-me antipatia. A princípio era aquela subserviência, tremura, cumplicidade; mas agora nem me via: enrugava a testa e grunhia "Hum! Hum!" com um modo insuportável. Seu Ramalho, que meses atrás me olhava desconfiado, tornara-se um excelente amigo e dava-me conselhos:
— Não se case, seu Luís. Casamento é buraco. O mundo está perdido.
— Isso é por causa do cinema, seu Ramalho. O senhor nunca vai lá. É feliz. Nem calcula as sem-vergonhezas que há na tela.
Seu Ramalho baixava a cabeça, pensativo:
— Deve ser também por falta de religião.
— É. Deve ser também por isso.
Realmente a minha vizinha desconhecia as igrejas, e isto não me preocupava.
— O cinema é o diabo, seu Ramalho. O senhor não imagina. São uns beijos safados, língua com língua, nem lhe conto. Provavelmente as moças saem de lá esquentadas.
— Devem sair, concordava seu Ramalho. Por isso há tanta gente de rédea no pescoço.
— Que rédea! Hoje não há rédea. Um sujeito corre atrás de uma saia, pega a mulher, larga, pega outra, e é aquela garapa.
— Safadeza.
— É. Tudo é safadeza. Antigamente essa história de honra era coisa séria. Mulher falada não tinha valia.
— Nenhuma - exclamava seu Ramalho, cansado, tossindo. - E eram vinganças medonhas.
— Vinganças horrorosas - bradava eu excitado.
Nesse ponto da conversa contávamos sempre uma série de casos que ilustravam as nossas afirmações. Animado, o cachimbo apertado entre os dentes, seu Ramalho assobiava as mesmas anedotas, empregando o mesmo vocabulário. Às vezes eu o interrompia:
— O senhor já contou essa.
Mas seu Ramalho continuava sem se perturbar: falava para dar prazer a si mesmo, não me escutava. Talvez quisesse enganar-se e convencer-se de que seria também capaz de praticar façanhas. As palavras saíam-lhe sem variações. Era amigo da verdade e tinha imaginação fraca. As minhas narrativas não se comparavam às dele: sendo muito numerosas, eu esquecia frequentemente certas passagens, ficavam brechas, soluções de continuidade. Além disso eram transmitidas em linguagem artificial, que o vizinho achava falsa e retocava.
O conto sensacional de seu Ramalho era o seguinte. Um moleque de bagaceira tinha arrancado os tampos da filha do senhor de engenho. Sabendo a patifaria, o senhor de engenho mandara amarrar o cabra e à boca da noite começara a furá-lo devagar, com ponta de faca. De madrugada o paciente ainda bulia, mas todo picado. Aí cortaram-lhe os testículos e meteram-lhos pela garganta, a punhal. Em seguida tiraram-lhe os beiços. E afinal abriram-lhe a veia do pescoço, porque vinha amanhecendo e era impossível continuar a tortura.
— Medonho! Seu Ramalho. Que coisa extraordinária!
Pedia-lhe explicações:
— Por que foi que arrancaram os quibas antes dos beiços?
— Quem sabe?
No dia seguinte reproduziria o mesmo caso: o moleque morreria lentamente, sem beiços, a boca enchumaçada, por causa dos gritos. Eu desejava que seu Ramalho acrescentasse alguma coisa à história. Mas seu Ramalho só sabia aquilo e era incapaz de inventar. Por isso fazia pausas para recordar os fatos com segurança, batia na testa, interrogava-se a cada instante e acusava-se quando avançava uma informação inverídica:
— 1910. Minto, 1911. 1911, Manuel?
As duas datas produziam-lhe verdadeira aflição. Nunca pôde fixar-se em nenhuma. Detinha-se em cálculos, sempre se reportando a acontecimentos notáveis na sua pequena vida: o dia do casamento, a mudança para a capital, o sarampo da filha. D. Adélia, com flores de laranjeira, sem aquele corpo mole e pesado, era bem bonita; na viagem, em estrada de ferro, o trem da Great Western descarrilara; Marina ficara coberta de calombos e vergões encarnados.
Naquela noite seu Ramalho voltou a referir-se a esses três casos importantes. Nunca tinha viajado em estrada de ferro. Um descarrilamento para começar.
— Não é esquisito? Todos os dias rodam trens, que chegam no horário. Pois justamente quando eu embarco vem o desastre. Não parece que estava ali um diabo esperando por mim para botar as rodas fora dos trilhos?
E descreveu a cena. Abandonados no campo, os passageiros metiam os olhos pelas vidraças, e só enxergavam uma luzinha distante. Fazia frio. Ele tirava o paletó e enrolava a menina, que esperneava no banco do carro de segunda classe. Alguns trabalhadores, de malotes, dormiam. Uma velha gemia de quando em quando: - "Fechem essa janela". Uma rapariga cheirosa encostava-se aos homens. Ele acalentava a menina, que se arreliava no banco imundo. E olhava desconfiado a rapariga, receando que ela se aproximasse de d. Adélia. Mulher da vida, cheirosa, roçando-se nos homens, ali no carro pequeno, cheio de gente e quase sem luz. Apenas um lampião fumacento, de vidros tisnados.
D. Adélia, corada, risonha, de carnes enxutas, era um mulherão. O casamento fora quatro anos antes da viagem. Bonita de verdade. Com o véu, a grinalda de flores de laranjeira, dançara uma noite sem descansar. Olhava os moços cara a cara, e eles baixavam a cabeça.
— An! Os marmanjos desanimavam.
O sarampo de Marina tinha sido dez anos depois da viagem. Estivera, vai não vai, batendo a caçoleta.
— Antes tivesse batido, que era inocente e não dava desgosto a ninguém.
A febre durara muitos dias. Mal respirava, magrinha como um palito, e por cima dos olhos vidrados as moscas passeavam. D. Adélia, bamba, arrastava os chinelos de trança que pareciam dois sapos. Estava mole, encolhida, machucada, e habituara-se a falar cochichando e a baixar a cabeça diante de toda gente.
Seu Ramalho deu um suspiro e empurrou a história do moleque da bagaceira, o que havia arrancado os tampos da filha do patrão.
— 1 910 ou 1911?
Nunca pude saber com precisão a data da morte do moleque. Isto não tinha importância: não guardo números, e a angustiada confusão de seu Ramalho irritava-me. Enquanto ele batia na testa, avançava e recuava, eu ia pouco a pouco distinguindo uma figura nua e preta estirada nas pedras da rua. O ventre era uma pasta escura de carne retalhada; os membros, torcidos na agonia, estavam cobertos de buracos que esguichavam sangue; a boca, sem beiços, mostrava dentes acavalados e vermelhos, numa careta medonha; os olhos esbugalhados tornavam-se vermelhos. O negro arquejava. Corria sangue entre as frestas dos paralelepípedos e empoçava na sarjeta. A poça crescia, em pouco tempo transformava-se num regato espumoso e vermelho.
— Ai, ai! - suspirou seu Ramalho. - Vou chegando ao serviço.
Ergueu-se como se levantasse da cadeira um peso enorme. E, descontente, arfando, um ombro alto, outro baixo, o cachimbo entre os dentes, lá se foi para a usina elétrica. Segui-o com a vista até a esquina. Quando ele desceu da calçada, estremeci: pareceu-me que tinha sujado os sapatos no sangue.
A vitrola de d. Mercedes rodava marchas de carnaval; d. Adélia abriu os postigos: - "Hum! hum!"; a cabeça de d. Rosália tinha os cabelos vermelhos. Antônia, pintada de vermelho, as pernas abertas, passou bamboleando-se. Das saias dela desprendeu-se um cheiro forte de sangue. Provavelmente estava menstruada e não se lavava. Os arames da Nordeste balançavam como cordas. Eu receava que os transeuntes tropeçassem no moleque estendido no calçamento. Rangia os dentes e dizia baixinho:
— Que estupidez! Que estupidez!
Mas a figura continuava a escabujar no chão. Agora não era preta nem estava nua. Pouco a pouco ia embranquecendo e engordando, o sangue estancava, as feridas saravam.
Àquela hora Marina devia descansar, escanchada na rede, deitada de costas. Uma perna dava o impulso para o balanço, e os armadores rangiam: ran, ran. Provavelmente se estragava pensando num romance besta. O ar refrescava-lhe as coxas suadas. E os armadores faziam: ran, ran.
— Que estupidez! Que estupidez!
A figura deitada no calçamento estava branca e vestida de linho pardo, com manchas de suor nos sovacos. Felizmente o sangue tinha desaparecido, já não havia a umidade pegajosa na sarjeta, nos cabelos de d. Rosália, nas saias de Antônia. Em redor tudo calmo. Gente indo e vindo, crianças brincando, roncos de automóveis. O homem tinha os olhos esbugalhados e estrebuchava desesperadamente. Um pedaço de corda amarrado no pescoço entrava-lhe na carne branca, e duas mãos repuxavam as extremidades da corda, que parecia quebrada. Só havia as pontas, que as mãos seguravam: o meio tinha desaparecido, mergulhado na gordura balofa como toicinho.
A vitrola de d. Mercedes moía a paciência da gente; os armadores lá dentro rangiam; um guarda-civil afastado balançava o cassetete e olhava a rua com indiferença. Eu apertava os dedos, cravava as unhas nas palmas, tremia, retesando os músculos. O suor ensopava-me a camisa. E o homem arquejava no calçamento, os olhos abotoados, a cara roxa, os dentes à mostra, a língua fora da boca.
Quando a companhia lírica chegou, eu estava completamente arrasado. Dívidas, três meses de aluguel de casa e os bilhetes errados e grosseiros de dr. Gouveia. Aporrinhações. Por causa de uma porcaria, alguns meses de aluguel deste chiqueiro, coices. Pagar tudo, perfeitamente. Bastava reduzir um pouco as despesas e voltar ao jornal. Marina que fosse para o diabo.
Agarrava a papelada com entusiasmo de fogo de palha. Tempo perdido. Marina não ia para o diabo. E eu me metia por estas ruas, passava horas no café, lesando, bebendo. Seria fácil regularizar a minha vida, liquidar as contas, botar tudo de novo nos trilhos. Um pouco de boa vontade, método.
— Outro conhaque.
Método, perfeitamente, tudo se arranjaria. Saía dali, ia olhar as vitrinas e os cartazes. Bacharel idiota, aperreando um bom inquilino. Porcaria.
— Quem andou por este mundo roendo chifre não se engancha em bobagens. Porcaria. Tenho comido toicinho com mais cabelo.
Foi nesta disposição que li os cartazes da companhia lírica. Não dei importância a ela. Companhia vagabunda, com pessoal rouco, as cantoras canhões, provavelmente. Encolhi os ombros: não sei música e tenho péssimo ouvido. As paredes dos cafés cobriam-se de retratos de artistas. Vista no papel, havia uma soprano bem regular.
No dia da estreia notei rebuliço em casa de seu Ramalho. Pela manhã chegaram caixas e pacotes; mais tarde bateu palmas uma criatura de preto, certamente a modista; o menino da sapataria apareceu muitas vezes; depois seu Chico, o carteiro, que sabe cortar cabelos de senhoras. Marina largava os sapatos e corria pelo corredor, aos gritos com a mãe, que se mexia com dificuldade. À noite um carro buzinou à porta, e Marina saiu de casa, bem-vestida como as senhoras do Aterro quando vão às festas da Associação Comercial. Atravessou a calçada, sem se virar, e entrou na limusine, onde brilhava a camisa de Julião Tavares, sob o foco elétrico. Os pneumáticos rodaram silenciosos em direção à praça Deodoro, e na rua ficou um cheiro esquisito de gasolina, pó de arroz e perfumes.
Cinco dias seguidos a mesma cena se reproduziu: Marina atravessou a calçada com o andar seguro das senhoras do Aterro, o peitilho engomado brilhou, o ar se encheu de uma estranha mistura de gasolina e perfumes.
Não me continha: saía de casa e andava à toa por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas. O inverno tinha começado, quase sempre caía uma chuvinha renitente. Ia sentar-me num banco da praça dos Martírios, e os pingos que tombavam da folhagem das árvores molhavam-me a cabeça descoberta e escaldada. A sentinela cochilava no portão do palácio. Ao pé do morro, pedaços da igreja fechada apareciam entre os ramos. Um barulho horrível de motores e rodas. Automóveis a roncar. Todos queimavam gasolina misturada com perfume. Depois um rádio começava a trovejar óperas. O cheiro e o som tornavam-se insuportáveis. Esforçava-me por esquecer o nariz e o ouvido, abria os olhos. A sentinela cochilava encostada ao fuzil. Serviço pau. Um pobre homem dormindo em pé. Acordava, escancarava a boca, via com tédio as grades do jardim, o hall deserto, a escada ao fundo, vermelha. O tapete vermelho da escada me dava impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Por que não aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela.
Levantava-me, subia a ladeira Santa Cruz, percorria ruas cheias de lama, entrava numa bodega, tentava conversas com os vagabundos, bebia aguardente. Os vagabundos não tinham confiança em mim. Sentavam-se, como eu, em caixões de querosene, encostavam-se ao balcão úmido e sujo, bebiam cachaça. Mas estavam longe. As minhas palavras não tinham para eles significação. Eu queria dizer qualquer coisa, dar a entender que também era vagabundo, que tinha andado sem descanso, dormido nos bancos dos passeios, curtido fome. Não me tomariam a sério. Viam um sujeito de modos corretos, pálido, tossindo por causa da chuva que lhe havia molhado a roupa. A luz do candeeiro de petróleo oscilava no balcão gorduroso. Homens de camisa de meia exibiam músculos enormes, que me envergonhavam.
Encolhia-me timidamente. Não simpatizavam comigo. Eu estava ali como um repórter, colhendo impressões. Nenhuma simpatia.
A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros. Comovo-me lendo os sofrimentos alheios, penso nas minhas misérias passadas, nas viagens pelas fazendas, no sono curto à beira das estradas ou nos bancos dos jardins. Mas a fome desapareceu, os tormentos são apenas recordações. Onde andariam os outros vagabundos daquele tempo? Naturalmente a fome antiga me enfraqueceu a memória. Lembro-me de vultos bisonhos que se arrastavam como bichos, remoendo pragas. Que fim teriam levado? Mortos nos hospitais, nas cadeias, debaixo dos bondes, nos rolos sangrentos das favelas. Alguns, raros, teriam conseguido, como eu, um emprego público, seriam parafusos insignificantes na máquina do Estado e estariam visitando outras favelas, desajeitados, ignorando tudo, olhando com assombro as pessoas e as coisas. Teriam as suas pequeninas almas de parafusos fazendo voltas num lugar só.
Ia sentar-me no canto mais escuro, longe do candeeiro de petróleo, longe dos homens de camisas sem mangas e das mulheres que arrastavam tamancos. Vagabundos? Nada. Estavam ali indivíduos de várias profissões. O moleque tisnado era engraxate. A mulher de chinelos, que trazia uma garrafa de querosene pendurada no dedo por um cordel, tinha modos de pessoa séria, casada ou amigada. A rapariga pintada de branco e vermelho, com marcas de feridas nos braços, devia ser uma ratuína como Antônia. O homem gordo era pedreiro, via-se pelas manchas de cal na roupa. Pedreiro com aquele corpo, que perigo! Um cochilo no andaime, pisada em falso na ponta da tábua, e no dia seguinte a família estaria de luto. O rapaz de cabelos compridos que tocava violão provavelmente não se ocupava. No carnaval devia ser uma das figuras mais importantes do cordão, e pela festa de Natal, na barca de terra e varas que ali estava armada em frente à bodega, seria um bicho na chegança, contramestre pelo menos, talvez almirante. Os meninos que brincavam na rua quando estiava, às carreiras e aos gritos, horas depois estariam no grupo escolar, os cotovelos na carteira, escutando, ou não escutando, a voz da professora. Vinte anos depois seriam balizas no clube carnavalesco, contramestres de chegança, donas de casas sossegadas que levariam, pendurada no fura-bolo, uma garrafa de querosene amarrada pelo gargalo, mendigos como aquele que ali estava com a perna estirada coberta de trapos. Felizmente as moscas dormiam, e o homem dos trapos não precisava mandar as almas caridosas para o reino do céu em voz alta, para a casa do diabo em voz baixa. Agora não havia esmolas, e o homem da perna entrapada conversava com os outros quase naturalmente. O dono da bodega era triste. Certamente pensava no aluguel, na figura odiosa de um dr. Gouveia, no imposto e nas faturas dos gêneros. Talvez dentro de seis meses a bodega estivesse fechada, e ele, com os cacarecos, a mulher, de garrafa pendurada no dedo, e os filhos, que agora dançavam na rua molhada, tivesse descido o morro pela banda do norte e vivesse à beira do Reginaldo, onde há febres, inundações e lixo. As crianças dançavam e cantavam na rua molhada. Dentro de vinte anos as que gostassem de torcer-se no mesmo canto seriam parafusos. Ignorariam o que existisse longe delas, mas conheceriam perfeitamente as coisas por onde passassem as suas roscas. Haveria, dentro de vinte anos criaturas assim encaracoladas que, tendo corrido mundo, se resignam a viver num fundo de quintal, olhando canteiros murchos, respirando podridões, desejando um pedaço de carne viciada? Tudo ali era tão simples! Os bordões do violão gemiam, as gargalhadas sonoras da mulher pintada enchiam a praça. A história que o homem acaboclado, de peito cabeludo e cicatrizes no rosto, contava ao engraxate devia ser interessante. Gestos expressivos, provavelmente façanhas de capoeiras. Eu não compreendia a linguagem do narrador, as particularidades que provocavam admiração perdiam-se. As gargalhadas da mulher transformavam-se naquela viagem curta aos meus ouvidos, chegavam-me frias, geladas. E a marcha do carnaval entristecia nos bordões do pinho. Todas aquelas pessoas entendiam-se perfeitamente. Diferiam muito umas das outras, mas havia qualquer coisa que as aproximava, com certeza os remendos, a roupa suja, a imprevidência, a alegria, qualquer coisa. Eu é que não podia entendê-las. - "Sim senhor. Não senhor." Entre elas não havia esse senhor que nos separava. Eu era um sujeito de fala arrevesada e modos de parafuso. Aquele tipo acaboclado, que dizia histórias de capoeira e se balançava num pé só, tinha bíceps enormes, provavelmente estrangularia um homem sem grande esforço. A rapariga pintada cheirava a pó de arroz. A pó de arroz e a gasolina. O rapaz de cabelos compridos largava os sambas carnavalescos e punha-se a arrancar do pinho coisas absurdas que pareciam trechos de óperas. Insuportável. Afinal que estava eu fazendo ali, sentado num caixão, diante de um copo vazio? Procurava fixar a atenção nas crianças que dançavam e corriam, como dançavam e corriam, na areia do Cavalo-Morto, os meus companheiros, alunos de mestre Antônio Justino. Lá estava novamente entrando no passado, torcendo-me como parafuso. - "Rei meu senhor mandou dizer que fossem ao cemitério e trouxessem um osso de defunto." Quem tinha coragem? Os mais atrevidos chegavam até o muro de seu Honório, no fim da rua. Adiante o lugar era mal-assombrado e ninguém se aventurava por lá. Eu queria gritar e espojar-me na areia como os outros. Mas meu pai estava na esquina, conversando com Teotoninho Sabiá, e não consentia que me aproximasse das crianças, certamente receando que me corrompesse. Sempre brinquei só. Por isso cresci assim besta e mofino.
Lembrava-me da minha chegada à vila. As ruas me causavam grande espanto: nunca havia imaginado que as ruas fossem tão compridas e tão largas. Saí de casa e comecei a passear na calçada, olhando a janela de um sobradinho onde se debruçava um homem fardado. Quis recolher-me e entrei pela primeira porta que encontrei. Na sala de jantar descobri uma mulher amamentando o filho, sentada numa esteira, com um gato de banda. Fiquei encabulado e perguntei: - "De quem é esse gato?". A mulher respondeu: - "É meu". Saí e continuei a passear na calçada, mas sem prestar atenção ao homem de farda que se debruçava à janela do sobradinho. Arrisquei-me a entrar por outra porta. Na sala de jantar a mulher amamentava o filho. E o gato de banda. Tornei a perguntar: - "De quem é esse gato?". A mulher respondeu: - "É meu". Mais tarde cabo José da Luz me encontrou perdido e levou-me para casa. Um menino grande e besta, muito diferente dos que brincavam junto à barca de terra e varas. Na escola de mestre Antônio Justino sentava-me afastado dos outros, naturalmente para não me corromper.
E ali estava encostado ao balcão, sem perceber o que diziam, meio bêbedo, suscetível e vaidoso, desconfiado como um bicho. Tudo aquilo me envergonhava: as conversas simples, a alegria, especialmente os músculos do homem que falava ao engraxate. Músculos e mãos enormes, que esganariam facilmente um inimigo. Levantava-me.
— Insuportável.
A mulher cheirava a gasolina. O violão tocava óperas.
— Insuportável.
Os bíceps e as mãos do homem acaboclado eram realmente enormes.
O último dia foi medonho. Quando a limusine rolou no paralelepípedo e o peitilho de Julião Tavares se sumiu, não me afastei da janela. Fiquei mastigando o cigarro e respirando aquela mistura desagradável que enchia a rua. Nenhum desejo de ir aos Martírios, subir o morro do Farol e escutar os tipos que se encostavam ao balcão sujo e gorduroso da bodega. Apalpei a carteira vazia, meti os dedos nos bolsos miúdos, vazios. Sentia-me incompleto e sem ânimo de me aventurar sozinho por aquelas ruas esquisitas. Sentia-me fraco e desarmado.
Por que seria que o peitilho de Julião Tavares brilhava tanto e não se amarrotava? Julião Tavares ficava duro como um osso fraturado envolvido em gesso, tinha o espinhaço aprumado em demasia, olhava em frente, com segurança, a vinte passos. O peitilho da camisa absolutamente chato.
A minha camisa entufa no peito, é um desastre. Quando caminho, a cabeça baixa, como a procurar dinheiro perdido no chão, há sempre muito pano subindo-me na barriga, machucando-se, e é necessário puxá-lo, ajeitá-lo, sujeitá-lo com o cinto, que se afrouxa. Esses movimentos contínuos dão-me a aparência de um boneco desengonçado, uma criatura mordida pelas pulgas. A camisa sobe constantemente, não há meio de conservá-la estirada. Também não é possível manter a espinha direita. O diabo tomba para a frente, e lá vou marchando como se fosse encostar as mãos no chão. Levanto-me. Sou um bípede, é preciso ter a dignidade dos bípedes. Um cachorro como Julião Tavares andar empertigado, e eu curvar-me para a terra, como um bicho! Desentorto o espinhaço. Que é que me pode acontecer? Se dr. Gouveia passar por mim, finjo não vê-lo. É impossível pagar o aluguel da casa. Não pago. Hei de furtar? Dr. Gouveia que se lixe. Se o governador e o secretário me encontrarem, é como se não encontrassem. Não os enxergo, na rua sou um homem. Pensam que vou encolher-me, sorrir, o chapéu na mão, os ombros derreados? Pensam? Estão enganados. Sou um bípede. É isto, um bípede. Mas não é necessário que dr. Gouveia, o governador e o secretário apareçam na rua. Aliás é bom que eu não veja essas criaturas exigentes. Se elas desejarem qualquer coisa de mim, falarão de longe: escreverão um bilhete ou darão uma ordem para o jornal, ao Pimentel, pelo telefone. Mandarei um mês do aluguel da casa, se puder, ou escreverei mais uma coluna que já escrevi centenas de vezes e reproduzo sempre, substituindo palavras. Esses homens dominam-me sem mostrar o focinho: manifestam-se pelo arame, num pedaço de papel.
Pensam que vou ficar assim curvado, nesta posição que adquiri na carteira suja de mestre Antônio Justino, no banco do jardim, no tamborete da revisão, na mesa da redação? Pensam? Procuro ajeitar as vértebras, mas as vértebras parecem soltas, presas apenas por um fio, como as que Dagoberto vinha jogar em cima da minha cama. Resvalam pouco a pouco, e ao cabo de vinte minutos de exercício penoso o meu corpo toma a configuração de um arco. A cabeça pende, como se procurasse dinheiro na calçada, e a camisa faz pafos no peito. Inútil tentar abaixá-la e prendê-la na cintura. Sobe sempre e me arrelia. Enquanto me aperreio com ela, não vejo as pessoas. Que será de mim para o futuro? Está claro que não inspiro confiança aos trabalhadores. Na sessão mais agitada seu Ramalho gemerá, cansado e asmático, um ombro alto, outro baixo: - "Camarada Luís da Silva, você escreveu um artigo defendendo o imperialismo". - "Não escrevi não. Sou lá homem para defender o imperialismo?" - "Está aqui o original, é a sua letra", dirá o rapaz de cabelos compridos, que toca violão. Moisés não terá coragem de interceder por mim. Pimentel estará fuzilado. Lobisomem tomará uma nota lenta nos papéis. Fico pensando em coisas assim, cabisbaixo, a testa enrugada. Se dr. Gouveia, o governador, o secretário, passarem por mim, não os verei: seguirei o meu caminho com dignidade curva, o espírito distante. Os conhecidos que me virem pensarão: - "Luís da Silva é um sujeito que não tem subserviência nenhuma". E os que me cumprimentarem e não obtiverem resposta dirão: - "Luís da Silva é uma besta, um imbecil, um cretino". É bom não levantar a espinha. Se a levantasse, teria de baixá-la de novo a cada passo, aflito e apressado, o chapéu na mão. Assim, não vejo ninguém, caminho batendo nos transeuntes, enrolando palavras de desculpa, entrando no futuro como um parafuso. - "Camarada Luís da Silva, antes da revolução você elogiava os políticos safados do interior, os prefeitos ladrões. Onde está o dinheiro que essa gente lhe deu?" Sabia lá!
Agora não tinha dinheiro. De quando em quando metia a mão no bolso. Desarmado e só, inteiramente só, encostado à janela, ouvindo o barulho dos automóveis. Nenhum desejo de fugir das pessoas que iam ao teatro. Sentia era vontade de ir também, sentar-me numa cadeira junto do palco, bater palmas, olhar os camarotes. Faltavam-me cinco ou seis dias para receber o ordenado. Agora não havia dinheiro, só restavam níqueis. Um empréstimo, sem dúvida, um empréstimo. Mas quem me iria emprestar vinte mil-réis àquela hora?
D. Mercedes entrou no carro. A personagem oficial não a acompanhava. Tipo de responsabilidades, pai de família, ia ao teatro em companhia da mulher e das filhas. D. Mercedes sentava-se num camarote fronteiro, não bem fronteiro, um pouco de esguelha, e não se exibia demais.
Se Pimentel aparecesse, talvez me arranjasse o ingresso do jornal. Ou um empréstimo. Dentro de cinco dias, seis quando muito, o tesouro pingaria o ordenado da gente.
— Daqui a dez anos terei esse ordenado?
E Julião Tavares? Julião Tavares estaria expatriado, fuzilado ou enforcado. Enforcado, Julião Tavares enforcado. Marina deixaria de pintar as unhas e iria trabalhar no asilo das órfãs.
Vinte mil-réis, vinte mil-réis. Lembrava-me dos leilões em que se cavava dinheiro para um santo, diante da igreja da vila. - "Vinte mil-réis me dão por esta prenda..." O olho de vidro de padre Inácio, imóvel na órbita escura, tinha uma dureza sinistra.
Vinte mil-réis, vinte, mil-réis. Não haveria leilões, não haveria santos, Marina trabalhando no asilo das órfãs, Julião Tavares enforcado, padre Inácio morto muitos anos antes.
Àquela hora a plateia começava a encher-se, um garoto dizia pilhérias, as cantoras pintadas e empacaviradas em mantos compridos entravam pela portinhola da caixa. Mantos pretos. Pareceu-me que os mantos deveriam ser pretos, mas não pude saber por que me vinha esta ideia.
Vinte mil-réis, vinte mil-réis. Padre Inácio cravava nos ofertantes o olho duro e imóvel, andava em torno da mesa com as mãos atrás das costas, todo preto.
Um empréstimo, era o que me valia. Pensei nas minhas entrevistas com Marina, alta noite, no quintal. Certamente ela havia esquecido aquilo, mas eu me lembrava de tudo muito bem. As formigas rendilhavam as folhas. Um grilo saltava no canteiro. A iluminação da cidade chegava ali muito reduzida. Quase não tínhamos necessidade de roupa. - "Vamos entrar, meu coração." As luzes se tinham apagado e eu conseguira que Marina se despisse. Beijara-a da cabeça aos pés, sentira nos beiços os carocinhos que se formavam na pele macia. Ela curvava-se e cobria os peitos com as mãos. Olhava-a e apenas distinguia uma sombra que se torcia junto ao tronco da mangueira. Parecia-me que Marina estava vestida de preto.
Ali, perto da raiz, ao pé da cerca, no canteiro das alfaces, escondia-se a fortuna de Vitória. Aqueles pontos me eram familiares, seria capaz de encontrá-los com os olhos fechados.
Tempo sem fim à janela, olhando os automóveis que passavam para o teatro. Ainda passavam alguns. Bem. A representação ainda não tinha começado.
Vinte mil-réis. Cinco ou seis dias depois pagaria, com juro de cento por cento. Daria cento por cento ao velho Abraão. Uma semana de prazo. Pimentel não aparecia, Moisés não aparecia.
Com certeza a plateia estava quase cheia, seria difícil encontrar cadeiras perto da orquestra. - "Letra D, letra F." - "Acabaram-se. Só há de S para trás." Marina passeava o lorgnon pelos camarotes, indiferente, e os rapazes abotoavam para ela os olhos gulosos. D. Mercedes mordia os beiços com despeito. Julião Tavares, apertado no smoking, parecia menos gordo. Dentro de alguns anos estaria enforcado, mas agora estava bem vivo. E na camisa branca, sem uma dobra, as pedras dos botões faiscavam, a gola do smoking faiscava.
Entrei desanimado, fui debruçar-me à janela da sala de jantar. Vitória pôs a xícara, o açucareiro e a garrafa térmica sobre a mesa, foi deitar-se. Ouvi o rumor da chave na fechadura, depois o resmungar de orações e o chocalhar das contas do rosário. Em seguida houve silêncio. Os olhos de um gato passaram por cima do muro de d. Rosália. Currupaco mexeu-se na gaiola e bateu as asas.
Uma ação indigna. Perfeitamente, ação indigna, mas não ousei confessar a mim mesmo qual era a ação, qual era a indignidade. Horrível fixar aquilo no pensamento. Não queria pensar.
A casa devia estar cheia, o homem da bilheteria cochilava. Um olho, no palco, observava a plateia por um buraco do pano de boca. Marina bocejava por detrás do leque, Julião Tavares amolava-se.
Afinal Vitória encontrava sempre moedas minhas no chão quando varria a casa. Depois elas apareciam em cima da mesa de jantar, nas cadeiras, debaixo dos travesseiros, mas antes tinham estado ocultas naqueles lugares que eu conhecia bem. Muito provável que a velha se enganasse nas contas e deixasse algumas lá enterradas. Natural estarem ali vinte mil-réis meus. Indignei-me com a pobre e entrei a descompô-la mentalmente:
— Ladra! Estar um homem em dificuldade por causa de vinte mil-réis, uma porcaria, e saber que essa miserável esconde as economias dele, economias suadas, em buracos no chão.
Decidi-me a ir pisar mais uma vez a terra que Marina havia pisado, encostar-me ao tronco da mangueira, onde ela estivera nua, enrolada na escuridão, torcendo-se e mordendo os braços para não gritar por causa dos beijos que eu lhe dava na barriga e nas coxas. Desci os degraus. Na porta do banheiro meti o pé numa poça.
Julião Tavares seria enforcado. Marina trabalharia no asilo das órfãs.
Perfeitamente, era ali que ela havia tirado a camisa uma noite. Agora estava embrulhada em roupa comprida, o lorgnon insultando as mulheres dos outros camarotes. O pano já se tinha levantado, Fígaro e Almaviva se escondiam perto da janela de Rosina, o dr. Bartolo fechava a porta. Marina olhava a cena com fastio.
Meses atrás estava ali no escuro, nua, o corpo todo coberto de carocinhos miúdos como pontas de alfinetes. Inteiriçava-me, rangia os dentes, pisava com raiva o chão que escondia o tesouro de Vitória. Debaixo das solas dos meus sapatos, a alguns centímetros de profundidade, estavam as moedas que eu precisava. Raspar um pouco a terra, mergulhar a mão, agarrar um punhado delas.
Os olhos do gato brilharam outra vez em cima do muro de d. Rosália e ficaram parados, redondos e fosforescentes. Pensei na datilógrafa que tinha desaparecido. Talvez estivesse doente. Ou morta. Franzina, com aquele peitinho estreito, batendo na máquina.
Mexia-me, e não podia desviar os olhos das duas tochas que me espiavam por cima do muro. Sentia os torrões se esfarelarem sob as solas dos sapatos, quase que ouvia o tilintar das moedas. Soaram pisadas perto. Encolhi-me e acocorei-me, receando que alguém trepasse o muro e viesse reforçar a espionagem do gato. Estava cheio de atrapalhação e vergonha. Uma ação indigna. Procurava afastar esta ideia pensando em Marina, imaginando-a vestida de preto. Um manto impalpável que eu atravessava com as mãos e com os beiços.
D. Basílio comparava a calúnia a um incêndio. Que fazia Marina, chateada, bocejando por detrás do leque? Só para se mostrar, só para mostrar a roupa e o lorgnon. Amolada, sonolenta. Julião Tavares também estava amolado e sonolento. D. Basílio descrevia o incêndio, acompanhando com as mãos o movimento das labaredas. A princípio eram chamas fracas, e d. Basílio, para segui-las, baixava-se, estava quase encostando as mãos no soalho.
As minhas mãos encontraram-se esgaravatando a raiz da mangueira.
— Que miséria! Que miséria!
Repetia as palavras como um idiota, olhando as duas brasas imóveis em cima do muro. Mas os dedos continuavam a remexer os torrões. Cavando a terra com as unhas, como um gato!
— Que miséria! Que miséria!
Umidade pegajosa corria-me pelos braços, molhava a camisa. Cinco dias, seis dias depois, receberia o dinheiro no tesouro. Receberia o dinheiro, trocaria uma cédula por pratas e deitaria ali as moedas, com acréscimo de cento por cento. Se Moisés tivesse aparecido... Moisés e Pimentel só apareciam quando não eram necessários. Restituiria as moedas com aumento. Considerei que Vitória não se assemelhava ao tio de Moisés. Vitória não tinha a paixão do lucro: apenas guardava enterrado o dinheiro ganho. E queria que, muito ou pouco, ele estivesse ali em segurança. A ideia de que ela ia surgir, resmungando, arrastando os pés reumáticos, paralisou-me os dedos. Surpreendi-me a dizer e a repetir em voz baixa:
— O dinheiro foi feito para circular.
Com certeza Vitória estava dormindo, sonhando com os navios e com o Currupaco. Os olhos do gato cresciam, cresciam extraordinariamente, iluminavam o quintal todo.
— Sim ou não. Sim ou não. É estúpido, absolutamente estúpido. Afinal o dinheiro foi feito para circular.
Lembrei-me do jogo das crianças. Cara ou cunho? Se desse cara, sim; se desse cunho, não. Mergulharia a mão na terra úmida, tiraria uma moeda, acenderia um fósforo. Se saísse cunho, iria deitar-me, não tornaria a ver Marina. Tantos tormentos por causa de uma fêmea! Dormir, dormir. Senti as pálpebras pesadas; julgo que, fascinado pelos olhos do gato, deixei a cabeça inclinar-se num cochilo. Se saísse cara, acabaria depressa com aquilo e iria ao teatro. Tinha quase a certeza de que, indo ao teatro, tudo se arranjaria: Marina voltaria para mim, Julião Tavares se achataria, se desagregaria, como um pouco de azeite em água corrente. Meter a mão na terra, agarrar um dobrão do império, riscar um fósforo. Afastei a ideia. Que lembrança! Bastavam as luzes medonhas dos olhos do gato. Acabar depressa, acabar depressa. Não era nenhum selvagem para adotar recursos infantis. Sim ou não. Um homem livre. Perfeitamente, um homem livre de superstições. Comecei a cavar a terra com desespero, ralando os dedos. Estava decidido. Pronto! Seis dias depois colocaria no buraco o duplo da quantia retirada.
— Nenhuma ação indigna. Nenhuma ação indigna.
Continuei a aprofundar a cova com as unhas, como um gato. Restituiria o dinheiro com acréscimo de cento por cento. Um roubo. Roubaria de mim mesmo para aumentar o tesouro da ladra. Sobressaltei-me. Se as moedas não estivessem ali? Se a velha as tivesse transportado para outro lugar? Revolvi apressado a terra mole. Chegaria a tempo de alcançar o segundo ato? Agora não sentia vergonha: indignava-me por causa da hesitação que tinha consumido uma eternidade. Um homem livre, sem dúvida. O que me incomodava era o gato. Se não fosse o receio de fazer barulho, atiraria um punhado de torrões no animal. As tochas desapareceriam, eu me tranquilizaria.
Até que enfim! Lá estavam elas debaixo dos dedos: dobrões enormes da colônia, peças menores e mais fornidas, da monarquia, rodelas atuais, de dez tostões e de dois mil-réis. Apanhei vinte destas últimas. Vinte mil-réis, ou mais, que Vitória não ia enterrar níqueis. Fechei a cova, fui ao banheiro lavar as mãos e as moedas. Esfreguei-as, enxuguei-as com o lenço. E fugi, atravessei a casa, abri a porta da rua. Alcançaria o fim do segundo ato ou o princípio do terceiro. Lembrei-me de contar o dinheiro. Desdobrei o lenço, examinei as moedas ainda úmidas. Vinte e seis mil-réis em prata e duas libras esterlinas. Tomei o chapéu, desci a calçada. Como diabo teria Vitória conseguido agadanhar aquele ouro?
Pus-me a andar lentamente, a pressa havia desaparecido. Atônito, o lenço com as pratas na mão esquerda, as duas libras na direita, avizinhei-me da praça. Tinha repugnância de meter as moedas no bolso. Olhei os dedos com atenção, cheirei-os. Fedor de azinhavre, terra nas unhas. Porcaria. Esfreguei as mãos no lenço molhado.
Era necessário livrar-me do dinheiro. Pensei em voltar, afrontar de novo os olhos do gato. Um engraxate ambulante olhou-me os pés e bateu na caixa. Onde guardaria aquilo? Já perto do teatro parei, meio aliviado. Baixei-me e escondi num sapato as duas libras esterlinas. As pratas ficaram envolvidas no lenço.
Introduzi perturbações muito sérias numa vida. Quando recebi o ordenado, obtive no café cinquenta e dois mil-réis em prata. Vitória fazia inconscientemente ótimo negócio. Juro de cento por cento. À noite juntei a isso as duas libras esterlinas e, tarde, quando houve silêncio, pus tudo sob a raiz da mangueira. Infelizmente coloquei as moedas empilhadas, como num cartucho, posição diferente da que tinham as que lá estavam. Suponho que isso provocou a desconfiança de Vitória.
No dia seguinte paguei o salário dela. E vi-a, como todos os meses, andar numa agitação, trocando as cédulas, sumindo-se à noite em viagens ao quintal. Mas a confusão, que ordinariamente dura três, quatro dias, desapareceu logo e foi substituída por um abatimento que me causou grande mal-estar. Ouvi-a uma noite inteirinha contar dinheiro. Como já disse, ela pensa em voz alta. O metal tilintava em cima da cama da velha, e os números se acumulavam numa soma infindável, sempre emendada. Às vezes a chave rangia na fechadura, a porta abria-se, tornava a fechar-se, abria-se a da sala de jantar, os passos pesados desciam os degraus. Meia hora depois a mulher voltava, as moedas tiniam novamente em cima da cama. Outro sumiço. Eu adormecia, mas o ferrolho da sala de jantar e a fechadura do quarto próximo acordavam-me. O solilóquio e os tinidos tiravam-me o sono.
Levantei-me cedo e encontrei Vitória muito velha e muito bamba. Deixava-se cair a um canto da cozinha, e era difícil arrancar-se dali. Interrompeu as idas ao quintal e abandonou as lições ao Currupaco. Notei que as covas estavam revolvidas e mal cobertas.
— Vitória!
Tinha vergonha de chamá-la, temia que ela me pregasse os olhos brancos e cansados, cheios de aflição.
— Vitória!
Estava sentada, encolhida, movendo em silêncio os beiços moles. E quando levantava a cabeça, mostrava no rosto uma suspeita agoniada. Se ela andava com as suas contas em ordem, certamente se espantava de haver achado em um dos buracos vinte e seis mil-réis a mais; se as contas não estavam em regra, talvez se julgasse roubada. E Vitória engolia em seco, olhava o Currupaco ansiosa, numa interrogação desalentada que fazia pena.
— Vá descansar, Vitória. Você está doente.
Não podia descansar, e a minha piedade era inútil.
Levei o desespero a uma alma que vivia sossegada. Toda a segurança daquela vida perdeu-se. A linha traçada do quarto à raiz da mangueira, uma linha curta que os passos trôpegos e vagarosos percorriam na escuridão, fora de repente cortada.
— Vá descansar, Vitória.
Conselho inútil. O céu de Vitória, miudinho, onde grilos e formigas moravam, tinha sido violado.
As visitas de Julião Tavares foram escasseando e a alegria ruidosa de Marina pouco a pouco desapareceu. Havia grande silêncio na casa vizinha. Seu Ramalho estava contente.
— Parece que a tonta criou juízo.
— Acha? - perguntei incrédulo.
— É cá uma ideia. Essa gente moça desembesta e faz tolice. É o sangue. Mas um dia acerta a pisada.
D. Adélia andava com a cara comprida e o nariz vermelho, assoando-se e soltando longos suspiros. Uma tarde encontrei Marina engulhando junto ao mamoeiro. Eram arrancos que a sacudiam toda, a faziam torcer-se agarrada ao tronco, o rosto contraído, muito descorado. Não me viu e entrou em casa cuspindo.
— Que terá ela? - disse comigo sem atinar com o motivo dos engulhos, da palidez e das cusparadas.
An! Estava feia. Bem. Estava feia demais, amarela, torcendo-se, enxugando na manga a cara molhada de suor, tentando vomitar, cuspindo à toa na roupa.
— Ótimo!
Onde andavam os vestidos caros, as tintas, os tremeliques e os modos insolentes que escandalizavam d. Rosália? Estava ali com os músculos da cara repuxados, fechando os olhos, agitando a cabeça como uma lagartixa.
— Que diabo tem ela?
Desgovernada, cuspindo-se.
— Ótimo! Está muito bem assim. Que se lixe.
Uma criatura dissipou as fumaças mesquinhas de vingança, uma figura que apareceu numa esquina e logo se sumiu, mas que me ficou profundamente gravada na cabeça.
Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. Não sei se com os outros se dá o mesmo. Comigo é assim. Caminho como um cego, não poderia dizer por que me desvio para aqui e para ali. Frequentemente não me desvio - e são choques que me deixam atordoado: o pau do andaime derruba-me o chapéu, faz-me um calombo na testa; a calçada foge-me dos pés como se se tivesse encolhido de chofre; o automóvel para bruscamente a alguns centímetros de mim, com um barulho de ferragem, um raspar violento de borracha na pedra e um berro do chofer. Entro na realidade cheio de vergonha, prometo corrigir-me. - "Perdão! Perdão!" digo às pessoas que me abalroam porque não me afastei do caminho. As pessoas vão para os seus negócios, nem se voltam, e eu me considero um sujeito mal-educado. Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível. Raramente percebo qualquer coisa que se relacione comigo: um rosto bilioso e faminto de trabalhador sem emprego, um cochicho de gente nova que deseja ir para a cama, um choro de criança perdida. Às vezes isso me perturba, tira-me o sono. Se o marido de d. Rosália está presente, é o que já se sabe; se não está, penso nos namorados que se atracam junto a uma vitrina, em posição incômoda, no operário que tem fome e ameaça o patrão, na criança que chora perdida, chamando a mamãezinha. Tudo foi visto ou ouvido de relance, talvez não tenha sido visto nem ouvido bem, mas avulta quando estou só - e distingo perfeitamente a criança, o operário faminto, os namorados que desejam deitar-se. Eles me invadiram por assim dizer violentamente. Não fiz nenhum esforço para observar o que se passava na multidão, ia de cabeça baixa, dando encontrões a torto e a direito nos transeuntes. De repente um grito, uma palavra amarga, um suspiro - e algumas figuras se criaram, foram bulir comigo na cama.
A pessoa a que me referi surgiu de supetão entre a rua Primeiro de Março e a rua do Comércio. Eu ia dobrar a esquina, ela vinha em sentido contrário - e foi uma colisão feia. A aba do meu chapéu de palha bateu-lhe na testa, provavelmente feriu-a.
— Perdão! Perdão!
Dei um passo para trás e distingui uma criatura enorme que também havia recuado com o choque e estava diante de mim, a mão cobrindo um dos olhos, onde tinha batido a aba do chapéu. O olho descoberto, os beiços contraídos, as rugas da cara, exprimiam espanto, raiva e dor. Encostei-me à parede, deixei-a passar. Foi um tempo insignificante, mas deu para vê-la da cabeça aos pés. Um minuto depois tinha desaparecido, a banda do rosto crispada, o olho disponível voltado para mim com um brilho de ódio. O espaço que ocupara na calçada era atravessado por outros corpos que iam e vinham, sem me despertar interesse. Mas a imagem do primeiro corpo vivia em mim. Era uma mulher gorda, amarela, malvestida, com uma barriga monstruosa. Não sei como podia andar na rua conduzindo aquela gravidez que estava por dias. A saia, esticada na frente, levantava-se exibindo pernas sujas e inchadas. Os pés, sujos e inchados, cresciam demais nos sapatos cheios de buracos. Com uma das mãos segurava o braço de uma criança magra e pálida, com a outra escondia o olho e um pedaço da cara. Eu encostava-me à parede, resmungando atrapalhado:
— Perdão! Perdão!
Findo o primeiro momento, aquela figura me provocara cócegas na garganta e um desejo idiota de rir. A barriga disforme resistia ao pano desbotado que tentava contê-la e empinava-se, tinha uma forma agressiva. Estava ali um cidadão que, antes de nascer, ameaçava a gente. A mãe, que só tinha uma banda de rosto, torcia-se por causa da pancada recebida e cravava-me um olhar duro, a metade de um olhar irritado e cheio de sofrimento.
— Perdão! Perdão!
Subitamente as cócegas desapareceram, a vontade de rir morreu, e atentei vexado naquela barriga enorme que me provocava. A roupa esgarçava-se, desbotada, fuxicada e remendada; os pés, metidos à força nos sapatos furados, pareciam bolos. Dera, recuando, um puxão na criança que se pusera a chorar. Nenhuma palavra, apenas uma interjeição de dor e raiva, grito rouco, perfeitamente selvagem. Com certeza já vinha recebendo encontrões, e aquele, demasiado rude, lhe esgotara a paciência. Andar no meio da multidão, aos emboléus, com semelhante barriga! Só muita necessidade.
Era o tipo da mulher de subúrbio mesquinho, que varre a casa, lava as panelas e prega os botões com as dores do parto, pare sozinha e se levanta três dias depois, vai tratar da vida. Vida infeliz, vida porca. O homem para um lado, ela para outro, arrastando a filha pequena, a barriga deformada, estazando-se, aguentando pancadas nos olhos. Talvez estivesse na véspera de ter menino, talvez estivesse no dia, talvez já sentisse as entranhas se contraírem. Rebolar-se-ia dentro de algumas horas na cama dura, a carne cansada se rasgaria, os dentes morderiam as cobertas remendadas. E o macho ausente, ninguém para ir chamar a parteira dos pobres. Uma vizinha tomaria conta da casa, faria o fogo, prepararia tisanas, aos repelões, rosnando:
— Porcaria. Que gente!
Depois ofereceria consolações:
— Tenha paciência. Isso vai logo. Faça força.
A mulher tinha desaparecido, a banda do rosto passara cravando-me o olho carregado de ódio. Eu não sentia desejo de rir. Na calçada um ventre extraordinário ia inchando, ventre que tomava proporções fantásticas. Os transeuntes atravessavam aquela barriga transparente, às vezes paravam dentro dela, e isto era absurdo, dava-me a ideia de gestações extravagantes.
Agora havia duas imagens distintas: uma barriga que se alargava pela cidade e a mulher que mostrava apenas um pedaço de cara. Nessa parte visível, endurecida pelo sofrimento, pouco a pouco se esboçavam as feições de Marina. Os cabelos, que a mulher tinha grisalhos, tornavam-se louros. A bochecha era pintada, a metade da boca excessivamente vermelha, o olho único muito azul.
Eu fervia de raiva. Se tivesse encontrado Julião Tavares naquele dia, um de nós teria ficado estirado na rua.
Alguns dias depois achava-me no banheiro, nu, fumando, fantasiando maluqueiras, o que sempre me acontece. Fico assim duas horas, sentado no cimento. Tomo uma xícara de café às seis horas e entro no banheiro. Saio às oito, depois das oito. Visto-me à pressa e corro para a repartição. Enquanto estou fumando, nu, as pernas estiradas, dão-se grandes revoluções na minha vida. Faço um livro, livro notável, um romance. Os jornais gritam, uns me atacam, outros me defendem. O diretor olha-me com raiva, mas sei perfeitamente que aquilo é ciúme e não me incomodo. Vou crescer muito. Quando o homem me repreender por causa da informação errada, compreenderei que se zanga porque o meu livro é comentado nas cidades grandes. E ouvirei as censuras resignado. Um sujeito me dirá:
— Meus parabéns, seu Silva. O senhor escreveu uma obra excelente. Está aqui a opinião dos críticos.
— Muito obrigado, doutor.
Abro a torneira, molho os pés. Às vezes passo uma semana compondo esse livro que vai ter grande êxito e acaba traduzido em línguas distantes. Mas isto me enerva. Ando no mundo da lua. Quando saio de casa, não vejo os conhecidos. Chego atrasado à repartição. Escrevo omitindo palavras, e se alguém me fala, acontece-me responder verdadeiros contrassensos. Para limitar-me às práticas ordinárias, necessito esforço enorme, e isto é doloroso. Não consigo voltar a ser o Luís da Silva de todos os dias. Olham-me surpreendidos: naturalmente digo tolices, sinto que tenho um ar apalermado. Tento reprimir essas crises de megalomania, luto desesperadamente para afastá-las. Não me dão prazer: excitam-me e abatem-me. Felizmente passam-se meses sem que isto me apareça.
De ordinário fico no banheiro, sentado, sem pensar, ou pensando em muitas coisas diversas umas das outras, com os pés na água, fumando, perfeitamente Luís da Silva. Uma formiga que surge traz-me quantidade enorme de recordações, tudo quanto li em almanaques sobre os insetos. Agora não há nenhum livro traduzido, nenhuma vaidade. Olho a formiga. Quando ela vai entrar no formigueiro, trago-a para perto de mim, faço no chão um círculo com o dedo molhado, deixo-a numa ilha, sem poder escapulir-se. Observo-a e penso nos costumes dela, que vi nos almanaques.
O banheiro da casa de seu Ramalho é junto, separado do meu por uma parede estreita. Sentado no cimento, brincando com a formiga ou pensando no livro, distingo as pessoas que se banham lá. Seu Ramalho chega tossindo, escarra e bate a porta com força. Molha-se com três baldes de água e nunca se esfrega. Bate a porta de novo, pronto. Aquilo dura um minuto. D. Adélia vem docemente, lava-se docemente e canta baixinho: - "Bendito, louvado seja...". Marina entra com um estouvamento ruidoso. Entrava. Agora está reservada e silenciosa, mas o ano passado surgia como um pé de vento e despia-se às arrancadas, falando alto. Se os botões não saíam logo das casas, dava um repelão na roupa e largava uma praga: - "Com os diabos!". Lá se iam os botões, lá se rasgava o pano. Notavam-se todas as minudências do banho comprido. Gastava dez minutos escovando os dentes. Pancadas de água no cimento e o chiar da escova, interrompido por palavras soltas, que não tinham sentido. Em seguida mijava. Eu continha a respiração e aguçava o ouvido para aquela mijada longa que me tornava Marina preciosa. Mesmo depois que ela brigou comigo, nunca deixei de esperar aquele momento e dedicar a ele uma atenção concentrada. Quando Marina se desnudou junto de mim, não experimentei prazer muito grande. Aquilo veio de supetão, atordoou-me. E a minha amiga opôs uma resistência desarrazoada: cerrava as coxas, curvava-se, cobria os peitos com as mãos, e não havia meio de estar quieta. Agora arrancava os botões, praguejava, escovava os dentes, mijava. Abria-se a torneira: rumor de água, uns gritinhos, resfolegar de animal novo. A torneira se fechava - e era uma esfregação interminável.
— Para casa, Marina - bradava d. Adélia. - Acabe com isso. Você gasta o sabão todo.
Marina dava um muxoxo, e o movimento das mãos friccionando a pele macia continuava.
— Baixe o fogo, Marina! Venha para casa.
A espuma entrando nos sovacos e nas virilhas fazia um gluglu que me excitava extraordinariamente. Parecia que Marina queria esfolar-se. Imaginava-a em carne viva, toda vermelha. Imaginava-a branquinha, coberta de uma pasta de sabão que se rachava, os cabelos alvos, como uma velha. Essas duas imagens me davam muito prazer. Queria que aparecesse a Julião Tavares assim encarnada e pingando sangue, ou encarquilhada e decrépita, os pelos do ventre como um capulho de algodão. A torneira se abria. Lá estava Marina outra vez nova e fresca, enchendo a boca e atirando bochechos nas paredes, resfolegando, sapecando frases desconexas.
Nunca tive o desejo de vê-la nesse estado. No alto da parede há um tijolo deslocado que se pode retirar facilmente. Pondo um caixão na beira do tanque, ser-me-ia possível afastar o tijolo e distinguir o corpo de Marina. A experiência não me tentou. O esforço necessário para manter-me em equilíbrio reduzir-me-ia a atenção. E eu não queria vê-la despida sem o consentimento dela. Contentava-me com aqueles rumores, e percebia-a como se a visse. Poderia daqui palestrar com ela no tempo em que éramos amigos. Teríamos a impressão de que nos banhávamos juntos. Mas a minha amiga ficaria limitada pelas conveniências, armando frases, procurando ser amável. O que me encantava eram aqueles modos de garota estabanada, as palavras soltas à toa, pedaços de cantigas, o gluglu da espuma e a mijada sonora.
Pois tudo isso desapareceu. Fazia algum tempo que os rumores familiares se vinham atenuando, mas naquele dia tudo se tornou claro, a suspeita que tive na rua se confirmou. Marina entrou no banheiro e esteve uns minutos em silêncio, despindo-se com lentidão. Os movimentos dela eram tão vagarosos que eu os percebia a custo. Era preciso adivinhá-los. Assoou-se e lavou as mãos na torneira.
— Virgem Nossa Senhora!
E punha-se a cuspir. Aquela queixa mostrava um desengano enorme. Pareceu-me que o mundo se tinha despovoado e Marina estava completamente só. Senti o desejo de bater na parede e chamá-la:
— Marina, que foi que aconteceu?
Queria que ela me iludisse, jurasse que não havia acontecido nada. Mordi as mãos para não gritar.
Afastei-me, como um bêbedo. Mas o ventre disforme continuava a perseguir-me. Era-me necessário falar, ir ao café, libertar-me da obsessão, do ódio que me enchia.
Com certeza não precisava de mim. Precisava de Julião Tavares, que tinha levado sumiço. As cusparadas sucediam-se. Marina assoava-se e lavava os dedos. Os soluços subiam e desciam. Aquele muco que a água levava, as lágrimas, a saliva abundante, aquela miséria, aquele abandono, tudo me atraía.
— Valha-me Nossa Senhora.
Isto me cortava o coração e aumentava o meu ódio a Julião Tavares. Vi-o claramente como o vi na tarde em que o surpreendi à minha janela, derretendo-se para Marina. Atrapalhado, procurara tapear-me com adulações. Eu resmungava pragas obscenas e andava de uma parede a outra, sentia desejo imenso de fugir, pensava na fazenda, em Camilo Pereira da Silva, em Amaro vaqueiro e nas cobras, especialmente numa que se enrolara no pescoço do velho Trajano.
— Que vai ser de mim, santo Deus?
O escorrego de Marina era evidente. Lembrei-me do meu despeito, de palavras duras jogadas a d. Adélia meses antes: - "A senhora pensa que ela endireita? Perca as esperanças. Aquela dá com os burros na água". Estava agora ali, enojada, cuspindo, apalpando a barriga e os peitos intumescidos. E o pranto subia e descia, era às vezes um lamento de criança fatigada, outras vezes os soluços rebentavam, numa rajada de gritos histéricos e bestiais. Olharia realmente a barriga e os peitos que se avolumavam? Impossível imaginar qualquer coisa sobre os movimentos dela. Gemidos e choro. Nenhum outro som. Desespero estúpido, revolta de bicho logrado. Nem palavras soltas, nem cantigas, nem passos no cimento molhado, nem água correndo da torneira. Dias antes esses rumores combinados me davam uma imagem quase perfeita de Marina. Sabia quando ela se baixava, quando se levantava, quando enxugava os cabelos, quando acariciava com espuma o umbigo, os bicos dos peitos, as virilhas. Gritinhos, respiração diferente da respiração ordinária.
Agora estava provavelmente imóvel. Esses gestos não lhe dariam nenhum prazer. As cantigas truncadas não lhe dariam nenhum prazer. Talvez nem olhasse a barriga e os peitos, que doíam e se deformavam. Todo o corpo era um instrumento de desgosto. O pé da barriga endurecido, uma coisa apertando-lhe a cabeça como esses aparelhos de suplício que usam no sertão, feitos de pau e corda. Os pauzinhos torciam-se, a corda penetrava na carne, os ossos estalavam, os miolos queimavam. Eu sentia raiva, aborrecimento, piedade e nojo. E cuspia, como Marina. Aquela imobilidade e aquele choro me afligiam. Por que não se molhava, não passava uma hora debaixo da torneira, esfregando-se, ensaboando-se? Fungava; provavelmente as lágrimas se misturavam com restos de pó de arroz e poeira; o suor lustrava-lhe a pele e produzia coceiras nos sovacos; a moleza do sono amorrinhava-lhe o corpo. Estava suja e feia, precisando banho.
Houve umas pancadas na porta, o choro desapareceu. O meu banheiro tornou-se vazio. Agucei o ouvido, arregacei as narinas: apenas o cheiro desagradável da água que escapava da sarjeta e se estagnava numa poça, a parolagem do Currupaco, que arengava com outros Currupacos invisíveis. Novas pancadas na porta e a voz de d. Adélia:
— Marina!
Marina abriu a torneira e entrou a lavar-se, cantando uma cantiga rouca, estrangulada, medonha. Mas as pancadas e a voz cresciam.
— Marina, abra a porta. Abra a porta, minha filha.
Uma súplica zangada e arquejante que exigia grande esforço. Marina devia estar quase limpa. O suor, o catarro, a poeira, as lágrimas e as tintas rolavam no enxurro, e Marina era outra, vermelha, o espinhaço levantado, como um ano antes, quando havia surgido entre os canteiros, empinando-se, os cabelos pegando fogo. As visões do sono tinham-se dissipado.
— Marina!
Marina continuava a cantar, a gritar, em grande espalhafato. Para que serviam as queixas e as exprobrações de d. Adélia? A água corria e se desperdiçava, abafando a voz aguda e trêmula. E Marina enxugava-se cantando com raiva.
— Abra, meu coração.
O ferrolho correu, a porta se abriu de chofre e tornou a fechar-se. Estavam as duas cara a cara, num silêncio de atrapalhação. Sentei-me à beira do tanque, olhei o tijolo deslocado.
— Que latomia é essa? - perguntou d. Adélia com autoridade mole. - Creio em Deus Padre. Parece que morreu gente.
Provavelmente d. Adélia conhecia mais ou menos o que tinha sucedido. Mas queria acreditar que não houvera infelicidade sem remédio, ou então, caso isto não fosse possível, botar os quartos de banda, lamentar-se e atirar a responsabilidade para o destino.
— Estou desconhecendo você. Que foi que houve?
Aí o pranto de Marina rebentou novamente, enrolado com palavras ásperas que não entendi. D. Adélia baixou a pancada:
— Que horror, filha da minha alma! Santo Deus! Valha-me Nossa Senhora do Amparo.
— Que Deus, que Nossa Senhora, que nada! - gritou Marina reduzindo a cacos as lamúrias e a religião da mãe. - De quem é a culpa? A senhora não sabia? Para que fingir que não sabia? A senhora sabia.
Calaram-se, fungando.
— Criar uma filha tantos anos - gemeu d. Adélia -, passar a vida sonhando com a felicidade dela, e de repente uma desgraça desta!
— Pois sim - disse Marina com um risinho. - Bonita criação. Está vendo?
Tinha-se acalmado um pouco e podia falar, já não estava sozinha no mundo, urrando lamentações. Arremetia contra a mãe, arfando, grunhindo, como um bicho mal domesticado que quer morder:
— Coitadinha! Não via, não sabia. Tão inocente! Agora já sabe. Pois é. Escangalhada, com um filho na barriga. Não faça essa carinha de santa não. É o que lhe digo. Estou mentindo? Arrombada, com um moleque no bucho. Não quer ouvir não? Tape os ouvidos.
— Cale a boca, Marina - gaguejou d. Adélia tremendo. - Me respeite, Marina.
Esta ordem bamba pareceu-me ridícula e despropositada, mas produziu um efeito que me espantou: Marina deitou água na fervura. Virei d. Adélia por todos os lados e não achei que ela fosse digna de respeito. Nem de respeito nem de ódio. Lembrei-me das referências do marido: - "Com as flores de laranjeira na cabeça, dançava como carrapeta, olhava os homens sem baixar as pestanas. An! E eles se atrapalhavam". Agora, aquela moleza, aquela confusão angustiada, o desejo de minguar, achatar-se, a pisada macia do chinelo de corda, os modos lentos e sutis de quem pega nas coisas às escondidas e tem medo de quebrá-las, de levar carão. Nada disso podia inspirar respeito. Toda ela era uma desgraça arrastada e oblíqua, destinada a suportar grosserias e repelões. Quando o homem da casa vinha receber o aluguel atrasado, gritava: - "Boto-lhe os troços na rua". Seu Ramalho brigava por causa das cuecas sem botões. Coitada! Ela era uma só para tanto trabalho! D. Rosália escarnecia dela: - "A senhora não se aperta. Tem quem lhe dê tudo". D. Adélia torcia as mãos, engolia em seco. Julião Tavares dirigia-lhe graçolas pesadas, aquele cachorro. D. Adélia baixava a cabeça. Apenas um grunhido de reprovação, quase imperceptível: - "Hum! hum!".
— Me respeite, Marina.
Aquela ordem gaguejada nem era ordem: era um pedido assustado em voz de choro. Marina calou-se e entrou a soluçar. Tive o desejo de gritar através da parede estreita:
— A senhora não tem culpa de viver nesse estado, d. Adélia. A senhora não nasceu assim. Era corada, risonha, dançava como carrapeta, olhava os homens cara a cara, e os homens se desaprumavam. Seu marido impava de orgulho e fazia: - "An!". Depois transformaram a senhora nisso, d. Adélia. Um trapo, uma velha sem-vergonha. Qualquer caixeiro de bodega chega-lhe à porta e berra para dentro: - "Mande pagar a conta, madama. O patrão está às cascas". E a senhora sofre com isso, porque tem uns restos de dignidade e quer que a respeitem. Nunca se acaba a dignidade da gente, d. Adélia. A gente é molambo sujo de pus e rola nos monturos com outras porcarias, mas recorda-se do tempo em que estava na peça, antes de servir. D. Adélia se lembra das flores de laranjeira que lhe enfeitavam a cabeça bonita. Tantas esperanças! Hoje é essa miséria que se vê. Fizeram da senhora uma bola de bilhar, uma coisa que vai para onde a empurram. Entretanto a senhora dançava como carrapeta, e seu Ramalho estava contente.
Marina continuava a chorar. D. Adélia queixava-se baixinho. Eu tinha vontade de chorar também, condoía-me da sorte das duas mulheres e da minha própria sorte.
É estranho que elas não houvessem aludido uma única vez a Julião Tavares. Nenhuma referência àquele patife. Era o que me espantava quando saí do banheiro, já muito tarde. Nesse dia faltei ao ponto.
Marina acabara numa resignação estúpida, entregara-se a Deus: d. Adélia não responsabilizara ninguém. Julião Tavares era como viga que tomba do andaime e racha a cabeça do transeunte. Ou um castigo, um decreto da Providência, qualquer coisa deste gênero. Ninguém falava nele. Tinha aparecido cheio de lambanças, usando falsidade em tudo. Entrara-me em casa sem ser chamado e deixara-se ficar, interrompendo o meu trabalho, afugentando os amigos. Aproveitando a minha ausência, seduzira Marina. E azulara. Mostrava-se raramente, em visitas rápidas, com certeza receando que a moça cometesse um desatino e lhe atrapalhasse a vida.
Não haveria desatino: as duas mulheres eram fatalistas e queixavam-se da sorte. Malucas. Revoltava-me o recurso infantil de se xingarem, arrancarem os cabelos. Era evidente que Julião Tavares devia morrer. Não procurei investigar as razões desta necessidade. Ela se impunha, entrava-me na cabeça como um prego. Um prego me atravessava os miolos. É estúpido, mas eu tinha realmente a impressão de que um objeto agudo me penetrava a cabeça. Dor terrível, uma ideia que inutilizava as outras ideias. Julião Tavares devia morrer.
D. Adélia estava justificada: - "A senhora não nasceu assim. Era forte e bonita. Passou de carrapeta a bola de bilhar. A senhora é um pedaço de pano sujo". Marina tinha sido julgada e absolvida. Provavelmente me deixei influenciar por leituras românticas. Esqueci que ela um ano antes invejava as meias de seda e os vestidos de d. Mercedes. Agora tinha tudo: meias, vestidos, um filho no bucho, um filho que sairia gordo, bochechudo e safado, como o pai, como o avô, o Tavares dos Tavares & Cia., uns ratos.
Marina era instrumento e merecia compaixão. D. Adélia era instrumento e merecia compaixão. Julião Tavares era também instrumento, mas não senti pena dele. Senti foi o ódio que sempre me inspirou, agora aumentado.
Necessário que ele morresse. Julião Tavares cortado em pedaços, como o moleque da história que seu Ramalho contava. Logo me aborrecia da tortura comprida. Nojo, medo, horror ao sangue. Julião Tavares morreria violentamente e sem derramar sangue. Em sonhos ou acordado, vi-o roxo, os olhos esbugalhados, a língua fora da boca. Pensei muitas vezes nos bíceps do homem acaboclado que ensinava capoeira ao rapaz, no alto do Farol. Por uma aberração, imaginava que aqueles músculos eram meus.
Os músculos de mestre Domingos eram do velho Trajano. Os músculos e o ventre de Quitéria também. Sinha Germana concebia e paria no couro de boi, a que o atrito e a velhice tinham levado o cabelo. Quitéria engendrava filhos no chão, debaixo das catingueiras, atrás do curral, e despejava-os na esteira da isidora, em partos difíceis. Crias de cores e idades diferentes espalhavam-se por aquela ribeira, várias de Trajano, cabras alatoados que apareciam de longe em longe e pediam a bênção do velho às escondidas. Os partos de sinha Germana perderam-se: escapou apenas Camilo Pereira da Silva, que parafusou no romance e me transmitiu esta inclinação para os impressos. Quitéria e outras semelhantes povoaram a catinga de mulatos fortes e brabos que pertenciam a Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva.
São do meu tempo os dois últimos partos de Quitéria. Sinha Terta, parteira da fazenda, batia a taramela do quarto pegado à cozinha. Trajano rondava a porta, preocupado com a cria, que não era dele. Depois da abolição, já sem forças, ainda conservava os modos de patriarca. Estava arrasado, aos sábados subia à vila, entrava na carraspana, encostava-se ao ombro de mestre Domingos, babando-se: - "Negro! Tu não respeitas teu senhor não, negro?". Não o alcancei gerando filhos nas pretas, mas alcancei os cabras que lhe pediam a bênção cochichando e vi-o nas pontas dos pés rondando o quarto de Quitéria, interessando-se pelos moleques, como se fossem dele.
Quitéria esperneava, espojava-se e soprava na esteira, as varas da isidora estalavam. Havia silêncios, rumores esquisitos, roncos, a voz de sinha Terta, que a de Quitéria acompanhava, arrastada e nasal:
Minha santa Margarida,
Não estou prenha nem parida.
Tira-me este corpo morto
Que eu tenho na barriga.
Depois uma coisa se derramava e sinha Terta dizia:
— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
Meu avô serenava.
As outras pretas da fazenda tinham deixado a cozinha depois de 88, e Trajano era senhor de uma escrava só, que se deitara com ele sob as catingueiras e não queria ser livre. Conheci Trajano decadente, excedendo-se na pinga e já sem prestígio para armar cabroeira e ameaçar a cadeia da vila. Mas os cangaceiros ainda se descobriam quando o avistavam, tipos sararás de olho vermelho, caboclos de músculos de ferro. Se o velho quisesse extinguir um proprietário vizinho, chamaria José Baía, o camarada risonho que me vinha contar histórias de onças no copiar, ajustaria a empreitada por meias-palavras, dar-lhe-ia uma cédula. E ficaria tranquilo, de alpercatas, camisa e ceroulas de algodão cru, tomando tabaco, escanchado na rede de varandas coloridas que arrastavam.
Lembrava-me disso e apalpava com desgosto os meus muques reduzidos. Que miséria! Escrevendo constantemente, o espinhaço doído, as ventas em cima do papel, lá se foram toda a força e todo o ânimo. De que me servia aquela verbiagem? - "Escreva assim, seu Luís." Seu Luís obedecia. - "Escreva assado, seu Luís." Seu Luís arrumava no papel as ideias e os interesses dos outros. Que miséria!
Pensava no homem acaboclado que encontrei no alto do Farol, membrudo como os sujeitos que, na presença de Trajano, varriam o pátio da fazenda com chapéus de couro.
As cascavéis torciam-se por ali. Uma delas enroscou-se no pescoço de Trajano, que dormia no banco do alpendre. Trajano acordou, mas não acordou inteiramente, porque estava caduco. Levantou-se, tropeçando, gritando, e sapateou desengonçado como um doente de coreia. Uma alpercata saltou-lhe do pé. E ele, arrepiado, metia os dedos entre os anéis do colar vivo:
— Tira, tira, tira.
Quem ia tirar a cascavel que chocalhava no pescoço do velho? Eu era miúdo e olhava aquilo com espanto. Parecia-me que a cobra era um enfeite, uma coisa que Trajano enrolara no pescoço para ficar diferente dos outros velhos. Quem ia tocar nela?
— Tira, tira, tira.
Quitéria puxava o rosário de contas brancas e azuis: - "Misericórdia!". Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva dançava no chão de terra batida. Afinal a cobra se soltou, Camilo Pereira da Silva matou-a com o macete de capar boi e Quitéria levou-a pendurada num pau, a cabeça encostada ao rabo, balançando como uma corda, e foi jogá-la para lá dos juazeiros.
Agora Quitéria estava morta. E os filhos dela e os das outras pretas que, depois de 88, foram viver em ranchos de palha, nas ribanceiras do Ipanema, começavam a desacatar os descendentes dos antigos senhores. Muitos andavam nos grupos de salteadores que assolam o Nordeste, queimando propriedades, violando moças brancas, enforcando os homens ricos nos ramos das árvores.
Seu Ivo apareceu aqui em casa faminto, meio nu e meio bêbedo, como sempre. Enquanto Vitória lhe preparava a comida, fez-me um presente:
— Está aqui, seu Luisinho, que eu lhe trouxe.
E pôs em cima da mesa uma peça de corda.
— Para que me serve isso, seu Ivo? Onde foi que você furtou isso?
— Não furtei não, seu Luisinho, achei na rua. Guarde para o senhor. É bonitinha.
E entregou-se ao prato que Vitória lhe ofereceu.
— Muito obrigado, seu Ivo.
Aproximei-me da mesa, desenrolei a peça de corda. Mas, com um estremecimento, larguei-a e meti as mãos nos bolsos, indignado com o caboclo:
— Retire isso daí, seu Ivo. Que diabo de lembrança idiota foi essa?
O homem espantou-se:
— Por quê? Guarde, seu Luisinho. É dada de bom coração. Serve para armar rede.
Pensei na rede onde Marina descansava à noite e que me roubava o sono, ringindo nos armadores.
— Não quero. Tire isso depressa.
Evitava dizer o nome da coisa que ali estava em cima da mesa, junto ao prato de seu Ivo. Parecia-me que, se pronunciasse o nome, uma parte das minhas preocupações se revelaria. Enquanto estivera dobrada, não tinha semelhança com o objeto que me perseguia. Era um rolo pequeno, inofensivo. Logo que se desenroscara, dera-me um choque violento, fizera-me recuar tremendo. Antes de refletir, tive a impressão de que aquilo me ia amarrar ou morder.
Lembrei-me de Chico Cobra, um curandeiro que na vila andava sempre com um cabaço cheio de jararacas. Quando Chico Cobra matou um homem na feira, entrou na mata, fez um rancho de palha e cercou-se de surucucus e outros viventes semelhantes. Todas as diligências da polícia para prendê-lo falharam. Nunca ninguém chegou ao rancho do criminoso: à distância de quinhentas braças o que se via eram barrocas com enormes rodilhas de serpentes.
Desejei insultar seu Ivo. Pareceu-me que ele tinha vindo aqui mangar de mim. Não era justo. Empurrava a porta, entrava sem vergonha, nunca lhe faltou a boia. Zombar de mim! Não me contive:
— Caboclo safado, mal-agradecido.
Seu Ivo olhou-me com assombro:
— Oh! xente!
Acanhei-me. Dizendo tolices.
— Está bem. Não discutamos.
Entrei a caminhar de uma parede a outra, mas como numa das viagens batia com a biqueira do sapato no cano de água, desisti do exercício e pus-me a andar em torno da mesa, descrevendo círculos que pouco a pouco se reduziam. Afinal ia quase tocando as cadeiras, e isto me dava a impressão de que seu Ivo e a mesa estavam sendo amarrados. Sentei-me. O horror que a corda me inspirava foi diminuindo, mas o desconchavo nos meus modos e nas minhas ideias continuou. Pareceu-me que uma das ideias estava ali em cima da mesa, simulando laçadas e espirais. Isto era tão burlesco, tão extravagante, que me veio de repente um acesso besta de hilaridade que espantou seu Ivo. O conjunto daquelas voltas emaranhadas formava um molho no centro da mesa e tinha feição vagamente arredondada. Com um pouco de esforço podia admitir-se que fosse redondo, mais ou menos redondo, comparável a uma cabeça chata feita de curvas caprichosas que se torciam como tripas. Pensei em circunvoluções cerebrais, levantei-me e fui beber um gole de aguardente. Voltei a sentar-me. Continuava a rir, mas sem vontade de rir. Seu Ivo arregalou os olhos, e isto me paralisou o riso idiota. Sentindo-me fiscalizado, reprimi aquela manifestação ruidosa. Acalmei-me, aparentemente. Nem riso nervoso nem raiva despropositada. Toda a minha atenção se concentrava no molho confuso de anéis que ali estava em cima da mesa.
— Coma descansado.
Seu Ivo comeu tudo, Vitória retirou o prato. Bebi mais um pouco de aguardente e fiquei arriado na cadeira, as mãos esquecidas na toalha coberta de manchas, olhando a corda.
Recordei-me da morte de Fabrício, amigo e compadre de meu pai. Nunca tinha visto um homem assassinado. Assoando-se e gemendo sentada na prensa de farinha que apodrecia no quintal, Quitéria falava de Fabrício como de uma criatura extraordinária, narrava façanhas maravilhosas dele. Rosenda escutava-a com interjeições, eu pensava em José Baía. Mais tarde fugi de casa e cheguei-me à cadeia pública, onde o corpo de Fabrício estava exposto, o tronco nu, os olhos vidrados. Esse cangaceiro tornou-se para mim excessivamente grande, e nenhum dos defuntos que encontrei depois, na vida e em livros, foi como ele. Comparei a Fabrício mortos ilustres, e Fabrício resistiu à comparação, porque foi o primeiro homem assassinado que vi, teve os elogios de Quitéria e era compadre de meu pai. No jornal, consertando a sintaxe na revisão ou escrevendo notas de polícia, quantos cadáveres passaram diante de mim! Nenhum deixou mossa. Fabrício estava nu da cintura para cima, cosido de facadas, era horrível. Passei várias noites sem dormir direito, acordando agoniado e aos gritos. O segundo homem assassinado que vi impressionou-me, mas não me tirou o sono. Depois me habituei.
Seu Ivo pediu uma pinga. Enchi um cálice para ele, outro para mim.
— À sua saúde, seu Luisinho.
Foi acocorar-se e cochilar encostado à parede, junto ao cano de água. Sentei-me outra vez à mesa, o braço sobre a toalha, a mão perto da corda. Estava meio entorpecido, as pálpebras pesadas. Os armadores na casa vizinha rangiam. Seu Ivo tinha dito: - "Guarde, seu Luisinho. Dá para armar rede". Avancei os dedos em direção aos anéis, mas quando ia tocá-los, um se desfez e bateu-me na mão como coisa viva.
Marina, enjoada e abatida, embalava-se para esquecer a desgraça. O barulho dos armadores lembrou-me o tempo em que ela me endoidecia com risadas e cantigas. A compaixão que eu havia sentido alguns dias antes esmoreceu. Encolerizei-me e disse-lhe mentalmente toda sorte de nomes feios. Levantei-me, bati na mesa, e as voltas da corda tremeram. Olhei com desgosto os olhos sem brilho de seu Ivo.
Defuntos não me comovem. Na vila apareciam muitas pessoas acabadas a tiro e a faca. Habituei-me a vê-las de perto. Por fim não me produziam nenhum abalo. Quando a rede apontava na extremidade da rua, os punhos amarrados num pau que dois caboclos aguentavam nos ombros, eu saltava para a calçada, curioso de ver a cor do pano que vinha em cima. Se era branco, o cortejo passava perto de mim, entrava no beco, dobrava o Cavalo-Morto e seguia para o cemitério. Isto não me despertava interesse. As redes que transportavam indivíduos mortos em desgraça eram cobertas de vermelho e iam pelo outro lado da praça, dirigiam-se à cadeia. Escapulia-me. Nenhum constrangimento. Tornei-me insensível. Cinquenta estocadas no peito e na barriga! Muito bem.
Agora estava ali com medo de pegar numa corda.
— Você já matou gente, seu Ivo?
O caboclo abriu os olhos, espantado:
— Eu? Deus me livre. Dou pra isso não, seu Luisinho. Nunca matei um pinto.
— Mas tem tido vontade, não?
— Deixe de história, seu Luisinho. Isso é conversa?
Pus-me a rir de novo, esfregando as mãos. De repente o riso se imobilizou, e fiquei em pé diante de seu Ivo, com as mãos postas, engasgado.
Às vezes, horas depois de entrar na vila a rede coberta de vermelho, uma tropa de cachimbos invadia a praça, conduzindo o criminoso amarrado. Os cachimbos falavam alto e mostravam, cheios de suficiência, facões e lazarinas; o matador tinha os braços presos, da barriga para cima estava todo embirado de cordas. A gente se alvoroçava. Os tabuleiros de gamão ficavam abandonados nos tamboretes. Seu Acrísio, quase cego, batia com o cajado no chão e pedia explicações às paredes. O doutor juiz de direito, que mentia demais, contava casos do Amazonas. Como o Amazonas era longe e ninguém ia apurar a veracidade das narrações, o doutor juiz de direito mentia à vontade. Seu Batista saía de casa vestido em robe de chambre. André Laerte, com os bigodes tesos como um gato, andava à pressa, sem rumor, como um gato. Padre Inácio sacudia o guarda-chuva e gritava: - "Canalha! Raça de cachorro com porco!". Cabo José da Luz, banzeiro, arrastava a importância, marchava para a cadeia, bambo, os passos lerdos, o cinturão frouxo, cantando baixinho: - "Assentei praça. Na polícia eu vivo...". E o criminoso, pisando com força, atravessava o quadro, a cabeça erguida, a testa cortada de rugas, o olhar feroz, trombudo, impando de orgulho. Algumas horas depois estaria acocorado a um canto da prisão, sem vontade, como seu Ivo. Mas ali, diante dos curiosos que se empurravam, representava o papel de bicho: franzia as ventas, mordia os beiços, dava puxões na corda e grunhia. Olhavam para ele com admiração, e os cachimbos se envaideciam por havê-lo pegado vivo. Rosenda pasmava.
— Estamos costumados a amansar brabo, minha negra.
O carcereiro balançava as chaves, e o delegado dava encontrões no povo, carrancudo, quase tão importante como o preso. As três mulheres velhas que pareciam formigas chegavam à janela, em seguida escondiam-se precipitadamente. Seu Filipe Benigno alisava a barba e gastava palavras difíceis e compridas. O povaréu se apertava na calçada da cadeia. Os cachimbos iam matar o bicho no balcão de Teotoninho Sabiá. E o criminoso, entregue à polícia, furava a multidão, entrava no corpo da guarda, preto de poeira e azeitado de suor. Na escuridão do cárcere, depois que a chave tilintava na fechadura da grade, o juiz da cadeia recebia os duzentos réis do torno e desfazia os laços que deslocavam os ossos, entravam na carne do homem. Um ladrão de cavalos seria maltratado, aguentaria facão, de joelhos, nu da barriga para cima, um soldado segurando-lhe o braço direito e batendo-lhe no peito, outro segurando o braço esquerdo e batendo nas costas. Depois os presos se aproximariam, camaradas, de repente lhe afastariam as pernas. O corpo cairia na pedra negra, suja de escarros, sangue, pus e lama. O cipó de boi chiaria no ar, cortaria o lombo descoberto. Mas isto era com os ladrões, os vagabundos, os autores de delitos miúdos. Um criminoso de morte era diferente, merecia consideração. Quando ele chegava à calçada, toda gente se espremia, abrindo caminho, e os olhos se arregalavam num pasmo quase religioso, mistura de aprovação e medo. Na presença da personagem havia silêncio. Depois vinham as conversas cochichadas em que se exagerava o feito. As ações de outros criminosos empalideciam. Aquele, sim, era turuna. Contavam-se as facadas ou os tiros. Nas tarimbas sujas os soldados bocejavam, fartos de sangue. O sujeito representava o seu papel de brabo, a cara enferrujada, escuro de poeira e molhado de suor. Eu procurava descobrir nele semelhança com o meu amigo José Baía.
Vitória retirou o prato e limpou a toalha. Com uma sacudidela que deu, a corda se espalhou e ficou ocupando quase metade da mesa. Vitória foi sentar-se à porta da cozinha, desdobrou o jornal. Uma das voltas da corda parecia um desses laços que as crianças fazem com um cordão nas calçadas. A gente põe o dedo no meio e aposta, o parceiro puxa as extremidades do cordão. Quando o dedo fica preso, a gente ganha. Se eu pusesse o dedo naquele círculo que ali estava junto a uma nódoa de café, o dedo ficaria preso? Caso ficasse, que iria acontecer?
Pensei em Amaro vaqueiro e em seu Evaristo. Trepado no mourão do curral, Amaro passava uma hora aboiando.
— Vou laçar a novilha careta.
E a corda de couro girava. Na extremidade o laço ia acima e vinha abaixo. Na escola de seu Antônio Justino, decorando a geografia, eu comparava Amaro vaqueiro ao Sol. Amaro vaqueiro era uma espécie de Sol trepado num mourão. O laço que girava em redor dele era a Terra. De repente essa Terra esquisita caía sobre a novilha careta e prendia-lhe os chifres. Quando havia poucas reses, o exercício era brincadeira. Mas em tempo de pega o curral se enchia, os cornos se chocavam, e mal se distinguia a cabeça do animal visado.
O laço rodava no ar uma eternidade, descia, passava perto do alvo, tornava a subir. Amaro aboiava, e os animais agitavam-se, batendo as pontas. Sentado no último pau da porteira, eu tinha o coração aos baques e torcia desesperadamente. As minhas mãos umedeciam-se de suor. Por que era que Amaro não acabava logo aquilo? Subitamente o aboio estacava, o laço caía, o zunido da corda continuava um instante no ouvido da gente. O animal estava preso.
Seu Evaristo sofria necessidades. Tinha vivido em boas condições, fora eleitor, jurado, dera dinheiro para festas de igreja. E as pessoas que o encontravam nas ruas da vila tocavam no chapéu.
Homem de poucas palavras, trabalhador, o sujeito mais sério do mundo. Dedicava-se a vários ofícios, era agricultor, redigia procurações e petições. Beirando os setenta, começou a vender macacos. Os olhos cansaram, a memória emperrou, os braços descarnados não tiveram força para manejar a enxada, a garlopa, o martelo de ferreiro e a tesoura de cortar metais. Seu Evaristo fabricava muitas coisas, mas não se ajeitava em nenhuma profissão. E quando a velhice chegou, sentiu-se fraco, uma tremura nos dedos, que seguravam mal o cajado. Andando, formava dois arcos: um por detrás, nas pernas, outro adiante, no peito; sentado, firmava as mãos na extremidade do cacete, e sobre as mãos, duras e peludas, de veias enormes, assentava o queixo, donde pendiam pelancas escuras que balançavam como teias de pucumã. Foi baixando, baixando, e na casinha que se escondia no fim da rua da Cruz o fogo se apagou. Nos meses compridos daqueles invernos de serra seu Evaristo e a mulher tremiam e começavam a tresvariar, porque a fome era grande. À noite andavam tropeçando nos cacarecos, pois na casa não havia candeia, olhavam a rua triste sob a chuvinha impertinente que embaçava os vidros dos lampiões esmorecidos. Apertavam-se para enganar o frio, e os moleques que passavam na calçada metiam os olhos pelos buracos das janelas e gritavam:
— Velhos imorais! Abraçados, fazendo safadeza.
A caridade chegou: seu Filipe Benigno, André Laerte, o velho Acrísio, as três mulheres que pareciam formigas, fizeram uma subscrição - e seu Evaristo começou a receber dez mil-réis por semana. Passou-se o inverno. Plantou uma roça no quintal. E quando o feijão verde apareceu e o milho deu bonecas, mastigou uns agradecimentos e dispensou a caridade.
— Pobre orgulhoso - disse uma das mulheres que pareciam formigas.
Rosenda e cabo José da Luz concordaram.
A safra acabou, o velho sentiu fome, olhou os quatro cantos e não encontrou amparo. Procurou trabalho, mas tinha setenta anos, e ninguém confiava nele. Um dia, com a mão na barriga, entrou na padaria de seu José Inácio.
— Uma esmola pelo amor de Deus - cochichou.
Seu José Inácio estava aporrinhado.
— Uma esmola pelo amor de Deus - gemeu seu Evaristo quase sem voz.
— Ora...
Seu José Inácio gritou uma praga que ofendeu os ouvidos de seu Evaristo.
— Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus - rosnou o velho espantado, sem saber que aquele despropósito era com ele.
Tinha auxiliado muito mendigo, nunca fora grosseiro. Chegava num momento em que o dono da padaria estava zangado.
— Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus - repetiu baixinho.
Seu José Inácio apontou um cesto de pães dormidos e gritou brutalmente:
— Tira ali.
Mais tarde arrependeu-se, como disse a Teotoninho Sabiá, lembrou-se de que o velho nunca havia importunado ninguém. Ainda chegou à porta para chamá-lo e pedir desculpa, mas a rua estava deserta.
Nesse dia seu Evaristo entrou em casa arrastando-se como um aleijado e deu um pão seco à companheira. Ficou uns minutos vendo-a meter as gengivas na crosta dura, em seguida avizinhou-se da parede, onde havia uma corda pendurada a um torno.
— Hum! hum! - exclamou a mulher. - Pior que mastigar chifre.
— Com certeza - murmurou seu Evaristo.
A mulher comeu o pão e foi deitar-se na esteira. Viu o marido passar a mão pela parede, mas como estava com a vista curta, não percebeu o que ele fazia.
— Só vi que passava a mão pela parede - confessou no dia seguinte a André Laerte. - Virei-me na esteira e peguei no sono.
Horas depois encontraram seu Evaristo enforcado num galho de carrapateira. Fui vê-lo, mas não tive coragem de me aproximar: fiquei de longe, olhando o corpo que balançava, os pés tocando o chão, como se estivessem preparando um salto. Eu estranhava que uma pessoa pudesse aguentar-se numa coisa tão frágil como um galho de carrapateira. Rosenda me disse que no momento em que um cristão bota o laço no pescoço o diabo monta nos ombros dele. Seu Evaristo balançava. Às vezes apareciam as costas curvadas. Outras vezes surgiam a barba branca, a língua fora da boca, os olhos abotoados, a careca, e era como se ele fosse dar um salto. Esta ideia absurda de um homem saltar depois de morto bulia comigo. Aquele defunto levantado, com os pés no chão, ameaçando-me com um salto que poderia trazê-lo para junto de mim, apavorava-me. A corda que o sustinha, apenas visível de longe, fininha como aquela que ali estava em cima da mesa, torcia-se e destorcia-se. A mulher de seu Evaristo, caduca, olhava-o, sem lágrimas.
Vitória, na cozinha, lia o jornal. Os armadores se tinham calado. Seu Ivo dormia encostado à parede, com a boca aberta. Agarrei a corda, fiz dela um bolo, meti-a no bolso. O coração batia-me desesperadamente.
— Vá para o diabo, seu Ivo - berrei.
Seu Ivo roncava. Sacudi-o. Levantou-se e ficou inclinado, como se estivesse armando um salto.
— Vá para o diabo. Aqui amolando! Eu tenho nada com você? Suma-se.
Seu Ivo baixou a cabeça:
— Está direito. Até logo, seu Luisinho. Deus lhe acrescente.
Julião Tavares entrava no café. Ia sentar-me longe dele, voltava-lhe as costas, mas examinava o espelho coberto de letras brancas. Afetava desprezo, aparentemente ignorava a existência do homem. Via, porém, a roupa molhada nos sovacos, os olhos que saltavam das órbitas, o cabelo escorrido, a papada balofa, as bochechas enormes, tudo riscado de traços brancos que anunciavam bebidas. Se me falavam, eu respondia com uma interjeição qualquer, voz selvagem, gutural, ouvida antigamente aos almocreves e aos tangerinos e que não perdi, apesar dos anos de cidade. Enquanto lançava distraído esses gritos estranhos e ásperos, lia os anúncios que havia no espelho. Juntava letras das palavras mais compridas e formava nomes novos.
Esse exercício tornou-se em mim um hábito de que não me posso libertar. Conto pelos dedos as combinações que vão surgindo, em séries de vinte, correspondentes às duas mãos fechadas e abertas. Quando há muitas vogais, consigo arranjar sessenta, oitenta, às vezes cem palavras ou mais. Faço assim com os letreiros das casas de comércio, com os cartazes de cinema, com os títulos dos jornais e dos livros. Esse passatempo idiota dá-me uma espécie de anestesia: esqueço as humilhações e as dívidas, deixo de pensar. Pelo menos não penso numa coisa só. Mas vejo perfeitamente o que se passa em roda. Pouco a pouco chegam sinais de impaciência: os dedos apertam-se, as unhas ferem a palma, e zango-me por estar perdendo tempo com semelhante estupidez, mas ordinariamente não interrompo a contagem.
Ali sentado a um canto, voltado para a parede, sentia-me distante do mundo. Só via as letras brancas que se estampavam na cara vermelha de Julião Tavares. Lembrava-me dos desenhos medonhos que os selvagens fazem no rosto e do costume que os cangaceiros têm de marcar os inimigos com ferro quente. Dos letreiros brancos saíam às vezes nomes que se aplicavam bem a Julião Tavares. Se eu fosse um cangaceiro sertanejo e encontrasse Julião Tavares numa estrada, meter-me-ia com ele na capoeira e imprimir-lhe-ia no focinho, com ferro, algumas das letras brancas que lhe apareciam na pele e na roupa. Segurava a xícara desatento, derramava açúcar no pires e no mármore, bebia o café maquinalmente. Os traços de alvaiade zebravam as pessoas que transitavam na rua. Certamente Marina ia surgir entre elas.
Depois que Julião Tavares tinha deixado de frequentar a casa vizinha, qualquer ausência de Marina me trazia a suspeita de que os dois iam encontrar-se. Tomava o chapéu e acompanhava-a, escondendo-me, encostando-me às paredes, receando que a espionagem fosse descoberta. Evidentemente as relações dos dois estavam reatadas. O homem gordo ia virar uma esquina e dar o braço à amante, levá-la a uma casa de recurso. A evidência esmorecia. Marina andava como as outras mulheres, olhava as vitrinas, entrava nas lojas. Ia esperá-la no primeiro poste cintado de branco. Minutos depois a perseguição recomeçava, até que ela se recolhia. Sentia-me a um tempo aliviado e logrado. Era claro que eles iam juntar-se em qualquer parte. Acusava-me de não ter prestado bastante atenção à rua. Com certeza tinha-me escapado uma porta meio aberta, uma escada sombria onde aquele sem-vergonha se atocaiava. O meu desejo era voltar, examinar os arredores, as esquinas, as árvores da rua Augusta. Estava certo de que, enquanto eu vigiava Marina, Julião Tavares me vigiava de longe, parando, escondendo-se.
Ali no café, com o jornal enrolado sobre o mármore, a mão gorda e curta distribuindo acenos, o sorriso nos beiços grossos, derretia-se para as moças que passavam na calçada. Por detrás das linhas brancas do espelho, a cara redonda se afogueava, as bochechas moles inchavam, o olho azulado queria escapulir-se da órbita e meter-se no seio das mulheres.
Eu procurava um cigarro, sentia a aspereza da corda. Ficara no bolso desde aquela tarde, misturando-se aos cigarros soltos e machucados.
As letras dos anúncios desapareciam, e toda a minha atenção se concentrava em Julião Tavares. Lembrava-me do primeiro encontro que tivemos, no Instituto. Ele catalogava frases monstruosas a respeito da bandeira nacional. À saída dava-me um empurrão, segurava-me um braço e escorregava na intimidade. Meia hora depois expunha-me projetos de reforma.
— O país precisa isto, precisa aquilo.
— Ah! Eu conheci logo que o senhor era patriota.
Lá estava amolando outro, com o cotovelo no mármore, a voz oleosa, o olho derramado sobre as mulheres. Agitava-me, rangia os dentes, grunhia uma obscenidade.
Não ligava importância àquelas bestas, fossem para a casa do diabo. Tinham dormido juntos, ela estava pejada. Muito bem. Era encher-se, parir, enjeitar o filho, marchar para a rua da Lama, acabar-se no esquentamento. Um filho na barriga, um filho daquele sem-vergonha. Tão bom era um como o outro.
E apertava a corda com força. Quando retirava a mão do bolso, via nos dedos os sinais que ela deixava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era dar um salto, passar uma daquelas voltas no pescoço do homem.
O doutor chefe de polícia estava ali tomando café, de cabeça baixa, preocupado com alguma encrenca.
Que é que me podia acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir sentença. A vida na prisão não seria pior que a que eu tinha. Realmente as portas ali são pretas e sujas, as grades de ferro são pretas e sujas, os móveis são pretos e sujos. É o que me amedronta. Aquele bolor, aquele cheiro e aquela cor horríveis, aquela sombra que transforma as pessoas em sombras, os movimentos vagarosos de almas do outro mundo, apavoravam-me. Não posso encostar-me às grades pretas e nojentas. Lavo as mãos uma infinidade de vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei por onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz ou mexeu nas coxas de qualquer Marina. Preciso muita água e muito sabão. Viver por detrás daquelas grades, pisar no chão úmido, coberto de escarros, sangue, pus e lama, é terrível. Mas a vida que levo talvez seja pior. Não tinha medo da cadeia. Se me dessem água para lavar as mãos, acomodar-me-ia lá. Podia o resto do corpo ficar sujo, podiam os piolhos tomar conta da cabeça e as roupas esfrangalhadas cobrir mal a carne friorenta. Se me dessem água para lavar as mãos, estaria tudo muito bem. Dar-me-iam água para lavar as mãos? A cara do doutor chefe de polícia era triste. Provavelmente ele vivia cheio de aborrecimentos, tinha uma necessidade qualquer e compreenderia a minha necessidade de lavar as mãos. Decididamente a polícia não me inspirava receio.
Medo de Julião Tavares? Não havia motivo, Julião Tavares procuraria levantar-se do tamborete, faria um barulho inútil, bateria com os braços na mesa e quebraria a xícara. As bochechas vermelhas se tornariam roxas, os olhos se rodeariam de olheiras roxas, os beiços roxos e intumescidos se descerrariam mostrando os dentes de rato e a língua escura e grossa, os movimentos das mãos se espaçariam, afinal seriam apenas sacudidelas, contrações. A imobilidade dos dedos sobre o mármore, os pés das unhas roxos. Um rebuliço, mesas caídas, o guarda-civil do relógio oficial apitando, gente correndo, aos gritos.
Medo da opinião pública? Não existe opinião pública. O leitor de jornais admite uma chusma de opiniões desencontradas, assevera isto, assevera aquilo, atrapalha-se e não sabe para que banda vai. Ouvindo-o, penso no tempo em que os homens não liam jornais. Penso em Filipe Benigno, que tinha um certo número de ideias bastante seguras, no velho Trajano, que tinha ideias muito reduzidas, em mestre Domingos, que era privado de ideias e vivia feliz. E lamento esta balbúrdia, esta torre de Babel em que se atarantam os frequentadores do café. Quero bradar:
— Eles escrevem assim porque receberam ordem para escrever assim. Depois escreverão de outra forma. É tapeação, é safadeza.
Aborreço a lida enfadonha, que só serve para gerar confusão no espírito de seu Ramalho. Pimentel é um malandro. Por que será que Pimentel não escreve sempre as mesmas coisas? Repetindo-as, ele próprio, que não acredita em nada, acabaria acreditando nos seus artigos.
Não há opinião pública: há pedaços de opinião, contraditórios. Uns deles estariam do meu lado se eu matasse Julião Tavares, outros estariam contra mim. No júri metade dos juízes de fato lançaria na urna a bola branca, metade lançaria a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opinião. Inútil esperar unanimidade. Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos.
Eu não podia temer a opinião pública. E talvez temesse. Com certeza temia tudo isso. Era um medo antigo, medo que estava no sangue e me esfriava os dedos trêmulos e suados. A corda áspera ia-se amaciando por causa do suor das minhas mãos. E as mãos tremiam. O chicote do feitor num avô negro, há duzentos anos, a emboscada dos brancos a outro avô, caboclo, em tempo mais remoto... Estudava-me ao espelho, via, por entre as linhas dos anúncios, os beiços franzidos, os dentes acavalados, os olhos sem brilho, a testa enrugada. Procurava os vestígios das duas raças infelizes. Foram elas que me tornaram a vida amarga e me fizeram rolar por este mundo, faminto, esmolambado e cheio de sonhos. Não preciso de automóveis nem de rádios, viveria bem numa casa de palha, dormiria bem numa cama de varas, num couro de boi ou numa rede de cordas, como Quitéria, como o velho Trajano e Camilo Pereira da Silva. Para que me habituei a ler papel impresso, a ouvir o rumor de linotipos? Desejaria calçar alpercatas, descansar numa rede armada no copiar, não ler nada ou ler inocentemente a história dos doze pares de França.
Onde estariam os descendentes de Amaro vaqueiro? Talvez o guarda-civil do relógio oficial fosse um deles. Se eu matasse Julião Tavares, o guarda-civil não levantaria o cassetete: apitaria. Chegariam outros, que me ameaçariam de longe. O guarda-civil não tem coragem. Se tivesse, não olharia os automóveis horas e horas, junto ao relógio oficial: ocupar-se-ia devastando fazendas, incendiando casas, deflorando moças brancas, enforcando proprietários nos galhos dos juazeiros. Os sertanejos fortes revoltaram-se e andam matando, roubando, violando, quase selvagens, sujos, os cabelos compridos, enfeitados de penduricalhos, os chapéus de couro cobertos de medalhas, as cartucheiras pesadas, enormes. Nenhum respeito à autoridade. Se um oficial de polícia viajar pela estrada, morre na tocaia. E se não morrer logo, é pior: levam-no para a capoeira e torturam-no. Os campos estão desertos, o gado enegreceu com o carrapato, os homens valentes pegaram o rifle, amarraram a cartucheira na cintura. O guarda-civil do relógio oficial veio para a cidade e arranjou emprego. É um sujeito magro como eu, civilizado como eu. Se houver barulho na rua, ele apita. Se houver greve nas fábricas e lhe mandarem atirar contra os grevistas, atira tremendo. As greves acabam. E ele voltará para a chateação do ponto, magro, triste. É pouco mais ou menos como eu.
— Escreva um artigo a respeito de salários, seu Luís.
Bocejo e sapeco uma literatura ordinária, constrangido. Sei que estou praticando safadeza. Penso no que acontecerá depois. Quando houver uma reviravolta, utilizarão as minhas habilidades de escrevedor? E o guarda-civil? Continuará junto ao relógio, olhando os automóveis, apitando em caso de necessidade? E Julião Tavares, patriota e versejador? Para que serviria Julião Tavares? Agora era uma figura importante demais. Tavares & Cia., negociantes de secos e molhados na rua do Comércio, eram uns ratos. A personagem oficial que visitava d. Mercedes, alta noite, devia muito a Tavares & Cia. E Julião Tavares era importante. Fazia receio matar um sujeito importante como Julião Tavares.
Nas horas de serviço conseguia distrair-me. Os livros enormes de lombos de couro e folhas rotas, os ofícios, a campainha do telefone e o tique-taque das máquinas de escrever me arrastam para longe da terra. O que lá fora é bom, útil, verdadeiro ou belo não tem aqui nenhuma significação. Tudo é diferente. Respiramos um ar onde voam partículas de papel e de tinta e trabalhamos quase às escuras. A voz do diretor é doce, ranzinza e regulamentar. Se um funcionário comete uma falta, o diretor mostra o parágrafo e o artigo adequados ao caso. Sucede que o funcionário se defende apontando outro artigo. Aí o diretor perturba-se e descontenta-se: compreende que o serviço não vai bem, mas encolhe-se diante do regulamento e admira e receia o empregado que soube encapar-se nele. Movemo-nos como peças de um relógio cansado. As nossas rodas velhas, de dentes gastos, entrosam-se mal a outras rodas velhas, de dentes gastos. O que tem valor cá dentro são as coisas vagarosas, sonolentas. Se o maquinismo parasse, não daríamos por isto: continuaríamos com o bico da pena sobre a folha machucada e rota, o cigarro apagado entre os dedos amarelos. Deixaríamos de pestanejar, mas ignoraríamos a extinção dos movimentos escassos. Os rumores externos chegam-nos amortecidos. Que barulho, que revolução será capaz de perturbar esta serenidade?
Era, pois, na repartição que eu obtinha algum sossego. As imagens que me atormentavam na rua surgiam desbotadas, espaçadas e incompletas. O ambiente era impróprio à vida intensa que elas tinham lá fora. Quando se iam fixando, um tique-taque de máquina de escrever, o chiar de uma folha que roçava sobre outra como lixa, um toque distante de campainha, uma voz descontente e adocicada, todas as complicações miúdas que me sustentam, cortavam as figuras esboçadas. Julião Tavares era uma sombra que se arredondava, tomava a forma de um balãozinho de borracha. Este objeto colorido flutuava, seguro por um cordel. O vento arrastava-o para um lado e para outro, mas o cordão curto não o deixava arredar-se muito do café. Marina era outra sombra que se balançava devagar na rede. O rumor dos armadores era interrompido pelo tilintar do telefone. A rede ia e vinha, Marina se deslocava um metro para a direita, um metro para a esquerda, e não podia ir mais longe. Desaparecia o risco de se aproximarem os dois, era como se estivessem amarrados.
Logo que me afastava da repartição, tudo mudava. Tropeçando no paralelepípedo, via, meio encandeado pelo sol, os transeuntes juntarem-se e apartarem-se, e isto me parecia cheio de malícia. Havia intenções reservadas nos homens que se acercavam das mulheres, havia promessas nos olhos das mulheres que se desviavam dos homens. Automóveis abertos exibiam casais, automóveis fechados passavam rápidos, e eu adivinhava neles saias machucadas, gemidos, cheiros excitantes. Todos os veículos transportavam pecados. A cidade estava em cio, era como o chiqueiro do velho Trajano. Que perigo! Três horas escondido - e cá fora esta gente desenfreada, bodejando, com estilo, com demoras e requintes, mas bodejando como os bodes do velho Trajano.
Os relógios batiam. Com certeza os machos olhavam os mostradores, pensando em entrevistas. Apressava-me. Três horas metido entre as paredes de uma catacumba oficial. Imaginava o que teria podido acontecer nessas três horas e aterrorizava-me. Corria para casa desembestado. A sala de jantar, a barra vermelha com manchas de umidade, o cano de ferro. Vitória punha os pratos na mesa. Esforçava-me por conversar, lembrava-me das moedas e sentia remorso, falava nos vapores. Vitória dizia a lista dos passageiros. Tentara fazer Currupaco decorar uma das listas, mas Currupaco não dera conta do recado e ficara nos versos da mulher do macaco, que fia e cose e toma tabaco há muitos anos.
— O senhor está magro como um cassaco. Não come!
Arreliava-se e dava-me conselhos. Como eu não lhe prestava atenção, afastava-se e ia explicar junto à gaiola do Currupaco:
— Papagaio não comeu, morreu.
Eu mastigava uns bocados, enganava o estômago, olhava o quintal, enfadado com a tagarelice da velha. Zangava-me e tinha vontade de lhe pedir silêncio. Continuando a falar tão alto, não me deixaria ouvir mais nada.
— Vá comprar um maço de cigarros, Vitória.
Quando ela voltava, dava-lhe outra incumbência e conseguia ficar só algum tempo. Aproximava-me da parede manchada, aumentava a orelha com a mão e esperava, esperava, até que percebia aquela voz sacudida que ia ficando quebrada. Afastava-me, atravessava o corredor, chegava à porta da rua.
Dez minutos depois entrava no café. Lá estava Julião Tavares na prosa. Ia sentar-me no meu lugar. Se Moisés e Pimentel apareciam, conversávamos, discutíamos os fuxicos do jornal, metíamos o pau nos literatos da terra. Sentia-me em segurança. Na animação da palestra procurava cigarros, mas retirava a mão do bolso como se tivesse sido mordido. Aquela coisa punha termo aos momentos de tranquilidade.
— Um maço de cigarros.
Abria o maço de cigarros e deixava-o sobre a mesa. No dia seguinte jogaria a corda por cima do muro de d. Rosália.
— Fume um cigarro, Pimentel.
Não. As crianças pegariam aquilo, brincariam com aquilo, e aquilo era sujo e perigoso. Atiraria a corda por cima do muro do fundo, no monte de lixo e cacos de vidro, onde lançam ratos mortos. Seu Ivo, aquele cachorro, achava poucas as minhas aporrinhações e ainda me trazia encrencas. Seu Ivo que fosse para o diabo.
— A arte deve ser assim e assado - explicava Moisés.
A tecla de sempre, arte como instrumento de propaganda política. Eu queria contrariar o judeu, mas esmorecia, sem coragem para a discussão.
— Estou em segurança, em perfeita segurança.
Cada vez mais me convencia, porém, de que não estava numa segurança assim tão perfeita. Parecia-me que na calçada inimigos embiocados me espiavam.
— Um homem de repartição habitua-se a não ver nada fora dos processos. Vive lesando, como um cego, não é verdade, Pimentel?
— Sem dúvida.
Pimentel concordava distraído! Não desgosta ninguém. Escrevendo, agarra uma opinião e, sinta quem sentir, sapeca tudo no papel. Saem artigos furiosos, agressivos como uma peste. Mas em conversa aprova o que a gente diz.
— Continue, Moisés. Como é lá isso?
Tranquilo, perfeitamente tranquilo. Seu Ivo era um grande patife. Onde andaria seu Ivo? Vagabundeando pelos municípios. Uma tristeza pensar em seu Ivo, que só servia para incomodar os outros.
— Vai tudo muito mal, minha gente. Vai tudo escangalhado. Não há segurança nenhuma.
Não havia. A tranquilidade era pouco a pouco substituída por uma inquietação que me tornava brutal com os companheiros. Instabilidade, ruína, o mundo perdido. Não argumentava, não me explicava: queria descontentar Moisés.
— Não há remédio não. História. Tudo perdido.
Repisava no mesmo terreno, desajeitado. Uma teimosia estúpida. Procurava andar para diante, sentia-me burro, e isto me irritava mais. Ridículo, absolutamente ridículo. E zangava-me com Moisés, que falava sem se alterar. De quando em quando tudo escurecia - ficavam-me diante dos olhos listras coloridas. Receava-me de ofender gravemente Moisés. As minhas mãos dirigiam-se para ele, apertavam-se, como se o fossem estrangular. Eu procurava qualquer coisa, apalpava o bolso que tinha a corda e fazia um chumaço no paletó velho. Baixava a cabeça, prendia as mãos entre as pernas, envergonhado, perguntava a mim mesmo se Moisés teria percebido a tentação e os movimentos. Parecia-me ter cometido uma falta. Selvagem.
— Ora, sim senhor. Em conversinhas como esta é que se armam fuzuês medonhos.
Dizia isto em voz baixa, mas os dois amigos ouviam algumas palavras e espantavam-se. Fuzuês medonhos, brigas, sopapos, tiros. Lá vinha o título enorme da notícia, em quatro colunas: "Comunista assassinado num café". Ruim título. Pimentel arranjaria outro melhor. E escreveria durante uma semana coisas interessantes. Enquanto matutava nestes absurdos, olhava-me ao espelho: uma cara besta. Evidentemente o pessoal mangava de mim; Julião Tavares, no outro lado da sala, mangava de mim, via-se muito bem entre as linhas brancas do espelho. Esforçava-me por endireitar o rosto descomposto, procurava entender o discurso de Moisés. Com os olhos arregalados e os queixos contraídos, o que me dava à boca uma aparência de focinho, era como um rato, um rato bem-educado, as patas remexendo o maço de cigarros.
— Perfeitamente, perfeitamente.
Agora concordava com tudo. Eu tinha lá convicção! Baixava a mão lentamente, tocava no bolso volumoso. Pensava em Chico Cobra e no cabaço cheio de jararacas. Faltava-me qualquer coisa.
— Perfeitamente.
Levantava-me:
— Está bem. Já volto.
Corria à rua do Macena, entrava em casa, ia à sala de jantar, ao quintal, ao banheiro, demorava-me até perceber sinais da presença de Marina. Então voltava à conversa interrompida com os amigos.
— Tranquilo, tranquilo.
Quando não encontrava Julião Tavares, detinha-me um instante à porta, depois saía pelas ruas, a procurá-lo.
Marina caminhava depressa, virava esquinas, voltava-se, como se tivesse medo de ser perseguida. Entrou em várias lojas, escondeu-se num cinema. Distanciei-me dela e estive quase a perdê-la de vista. Aproximei-me de novo. Marina andava de um lado para outro, como formiga desnorteada. Parecia ter o diabo no couro. Meteu-se por uma rua onde os sapatos mergulhavam na areia. Seguia com dificuldade, curva, passando o lenço na cara. Escondi-me numa esquina, porque de quando em quando ela se aprumava e examinava a rua. Duas vezes parou, descalçou-se e esvaziou os sapatos cheios de areia. Em seguida começou a observar os números das casas. Como se afastasse muito de mim, saí, atravessei rapidamente um quarteirão e fui ocultar-me noutra esquina. Arrisquei-me depois a nova escapada e avizinhei-me bastante dela. O bairro era uma desgraça: mato nas calçadas, lixo, cães soltos, um ou outro maloqueiro vadiando à porta de quitandas miseráveis. As casas sujas, muitas riscadas com letras a carvão profundamente revolucionárias. Pensei em Tavares & Cia. e no dr. Gouveia.
— Com certeza Moisés anda por aqui, distribuindo boletins a esta gente.
Mas não se via a gente. Apenas maloqueiros cochilando, alguns mendigos, crianças barrigudas e amarelas. O resto devia estar no trabalho: os homens nas oficinas, nos estribos dos bondes da Nordeste, nos quartéis, em todos os infernos que há por aí; as mulheres lavando roupa, amando por dinheiro, preparando a comida ruim e insuficiente. Os filhos, roídos pelos vermes, seriam vagabundos mais tarde, dormiriam ao meio-dia nas portas das bodegas. Dormiriam? Quando eles crescessem, haveria pessoas dormindo ao meio-dia nas portas das bodegas? Muitos agora tiritavam, batendo os dentes como porcos caititus, na maleita que a lama da lagoa oferece aos pobres.
"Proletários, uni-vos." Isto era escrito sem vírgula e sem traço, a piche. Que importavam a vírgula e o traço? O conselho estava dado sem eles, claro, numa letra que aumentava e diminuía. Talvez a datilógrafa dos olhos agateados morasse por ali, num dos becos que iam ter à rua suja. Escondida num quarto escuro, a datilógrafa dos olhos agateados ocupava-se em bater na máquina um boletim subversivo. Um irmão decoraria dele a frase mais incendiária, que seria copiada a carvão no muro de uma igreja de arrabalde.
Aquela maneira de escrever comendo os sinais indignou-me. Não dispenso as vírgulas e os traços. Quereriam fazer uma revolução sem vírgulas e sem traços? Numa revolução de tal ordem não haveria lugar para mim. Mas então?
— Um homem sapeca as pestanas, conhece literatura, colabora nos jornais, e isto não vale nada? Pois sim. É só pegar um carvão, sujar a parede. Pois sim. Moisés que se arranje.
Senti despeito. Afastar-me-iam da repartição e do jornal, outros me substituiriam. Eu seria um anacronismo, uma inutilidade, e me queixaria dos tempos novos, bradaria contra os bárbaros que escrevem sem vírgulas e sem traços.