A Janela da Rua do Macena
Ao chegar à rua do Macena recebi um choque tremendo. Foi a decepção maior que já experimentei. À janela da minha casa, caído para fora, vermelho, papudo, Julião Tavares pregava os olhos em Marina, que, da casa vizinha, se derretia para ele, tão embebida que não percebeu a minha chegada. Empurrei a porta brutalmente, o coração estalando de raiva, e fiquei em pé diante de Julião Tavares, sentindo um desejo enorme de apertar-lhe as goelas. O homem perturbou-se, sorriu amarelo, esgueirou-se para o sofá, onde se abateu.
— Tem negócio comigo?
A cólera engasgava-me. Julião Tavares começou a falar e pouco a pouco serenou, mas não compreendi o que ele disse. Canalha. Meses atrás se entalara num processo de defloramento, de que se tinha livrado graças ao dinheiro do pai. Com o olho guloso em cima das mulheres bonitas, estava mesmo precisando uma surra. E um cachorro daquele fazia versos, era poeta.
Aprumava-se, as palavras corriam-lhe facilmente, mas continuei a ignorar o que significavam.
— Tem negócio comigo? - repeti sem pensar que o tipo já havia provavelmente dado resposta.
A loquacidade de Julião Tavares aborrecia-me. Uma voz líquida e oleosa que escorria sem parar. A minha cólera esfriava, o suor colava-me a camisa ao corpo.
A roupa do intruso era bem-feita, os sapatos brilhavam. Baixei a cabeça. Os meus sapatos novos estavam mal engraxados, cobertos de poeira. Pés de pavão.
Julião Tavares falou sobre a política do país. A enxurrada cobria-se de nódoas de gordura, que se alastravam. Ia lá discutir com aquele bandido? O meu desejo era insultá-lo.
— Nunca estou em casa a esta hora. Estou no serviço, percebe? Sou um homem ocupado.
— Perfeitamente - respondeu Julião Tavares. - Uma vida cheia, uma vida nobre, dedicada ao trabalho.
Só a pontapés.
— Muito bonito, seu doutor.
Ultimamente, embora repugnado, eu o tratava por você.
— Uma coisa é jogar frases em cima do trabalho alheio, outra é pegar no pesado.
Julião Tavares fechou a cara:
— Todos nós temos as nossas obrigações, homem. Cada qual sabe onde o sapato lhe aperta.
Olhei os pés dele, e o meu ódio aumentou:
— Os seus não devem apertar muito.
— Acha?
Baixei a cabeça, mordi os beiços para não gritar os desaforos que me subiam à garganta e que eu engolia, pus-me a marchar na sala estreita, batendo os calcanhares com força. De uma parede a outra quatro passos. A porta, que tinha ficado aberta, mostrava-me os paralelepípedos, as sarjetas, as pernas dos transeuntes, só as pernas, porque, como já disse, eu tinha a cabeça baixa. A minha curiosidade se concentrava nos sapatos dos transeuntes. Passaram os tamancos de um carregador, os chinelos de Antônia, umas botinas velhas que julguei serem de Lobisomem. As crianças de d. Rosália corriam e gritavam, mas estavam descalças.
Lembrei-me da fazenda de meu avô. As cobras se arrastavam no pátio. Eu juntava punhados de seixos miúdos que atirava nelas até matá-las. Às vezes a brincadeira se prolongava, mas afinal as cobras morriam, e perto dos cadáveres ficavam montes de pedras. Certo dia uma cascavel se tinha enrolado no pescoço do velho Trajano, que dormia no banco do copiar. Eu olhava de longe aquele enfeite esquisito. A cascavel chocalhava, Trajano dançava no chão de terra batida e gritava: - "Tira, tira, tira". As alpercatas de Amaro vaqueiro iam do curral dos bois ao chiqueiro das cabras. Em dias de pega Camilo Pereira da Silva desenroscava-se, vestia o gibão, calçava as perneiras. O barbicacho do chapéu de couro terminava debaixo do queixo numa borla que lhe fazia uma barbinha ridícula. Assim paramentado, Camilo Pereira da Silva andava emproado como um galo, e as rosetas das esporas de ferro tilintavam.
Levantei a cabeça. Julião Tavares sorria e continuava a derramar a voz azeitada. Perto, pancadas de ferro tinindo. Eram as picaretas dos calceteiros que deslocavam as pedras da rua, consertavam o calçamento. No fim de uma daquelas viagens de quatro passos eu via, a alguns metros de distância, um montão de paralelepípedos que a poeira cobria. E, nessa nuvem de poeira, figuras curvadas, movendo-se. Desejei atirar todos aqueles paralelepípedos em cima de Julião Tavares.
Tornei a baixar a cabeça, desanimado, continuei a olhar os pés dos raros transeuntes que passavam na rua. Ia e vinha. Um, dois, um, dois - meia-volta. Este exercício era irritante. A porta escancarada convidava-me a abandonar tudo, a sair sem destino - um, dois, um, dois - e não parar tão cedo. Nenhum sargento me mandaria fazer meia-volta. Os meus passos me levariam para oeste, e à medida que me embrenhasse no interior, perderia as peias que me impuseram, como a um cavalo que aprende a trotar. Tornar-me-ia de novo meio cigano, meio selvagem, andaria numa corrida vagabunda pelas fazendas sertanejas, ouviria as cantigas dos cantadores e as conversas das velhas nas fontes, veria à beira dos caminhos estreitos pequenas cruzes de madeira, as mesmas que vi há muitos anos, enfeitadas de flores secas e fitas desbotadas. Indicaria uma delas, estirando o beiço. Quem teria morrido ali? E alguém me informaria, repetindo as histórias dos cantadores e as conversas das velhas nas fontes: - "Um sujeito que namorou a noiva de outro".
Estremeci. Os meus dedos contraíram-se, moveram-se para Julião Tavares. Com um salto eu poderia agarrá-lo.
Pensei em seu Evaristo e na cobra enrolada no pescoço do velho Trajano. Parei no meio da sala, aterrado com a imagem medonha que me apareceu. O pescoço do homem estirava-se, os ossos afastavam-se, os beiços entreabriam-se, roxos, intumescidos, mostrando a língua escura e os dentinhos de rato.
— Está doente? - perguntou-me Julião Tavares.
Suponho que a minha resposta foi despropositada.
O rapaz levantou-se, aproximou-se, e eu me desviei dele com um palavrão. Não me lembro do que disse, mas sei perfeitamente que terminei com um palavrão obsceno. Julião Tavares aprumou-se.
— Puta que o pariu - resmunguei.
Parece que ele ouviu. Mas fingiu que não tinha ouvido. Agarrou o chapéu e saiu.
— Bonito!
E pus-me a esfregar as mãos:
— Por causa de uma guenza de maus costumes estar um homem a aperrear-se. Enrolem-se, durmam, danem-se, vão para a casa do diabo.
Fui à cozinha e conversei um minuto com o Currupaco.
— O jantar está na mesa - disse Vitória.
Entrei na sala de jantar, bebi um pouco de aguardente, fiquei um instante olhando, por cima do muro, a mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas.
A sombra da mangueira ia cobrindo o quintal.
— As moscas estão comendo o jantar - gritou Vitória.
Cheguei-me à mesa, bebi mais um trago de aguardente e tomei o caminho da rua. Marina estava à janela:
— Que é isso? Vai com tanta pressa! Fale com os pobres.
Pareceu-me contrafeita. Sem-vergonha.
— Não matei seu boi não, moço. Me largue.
Passeei à toa pelas ruas, parando em frente às vitrinas, com a tentação de destruir os objetos expostos. As mulheres que ali estavam em pasmaceira, admirando aquelas porcarias, mereciam chicote. Fui ao jornal, li os telegramas. Eram notícias sem importância, mas julguei perceber nelas graves sintomas de decomposição social. Estive olhando sem ler os cartazes do cinema, entrei maquinalmente. O porteiro sabe que trabalho na imprensa e não pediu bilhete de ingresso. Na sala de projeção fiquei de pé, ao fundo, por baixo da cabina, sem ver a tela. Nunca presto atenção às coisas, não sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso e como sou besta! Caminhei tanto, e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda a projeção, instruir-me vendo as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba. À saída encontrei Moisés encostado a um poste da iluminação, lendo um jornal.
— Acabe com essa literatura, Moisés - exclamei impaciente. - Não serve.
Moisés dobrou a folha, sorrindo:
— Que história é essa?
— É o que lhe digo. Não serve. A linguagem escrita é uma safadeza que vocês inventaram para enganar a humanidade, em negócios ou com mentiras.
— Que diabo tem você? - perguntou Moisés.
— Não é nada não. É que não vale a pena, acredite que não vale a pena. Uma pessoa passa a vida remoendo essas bobagens. Tempo perdido. Uma criança mete a gente num chinelo, Moisés; qualquer imbecil mete a gente num chinelo, Moisés.
Às onze horas achava-me encostado a uma banca do Helvética, bebendo aguardente e não distinguindo bem as pessoas que se serviam nas outras mesas, funcionários, políticos, negociantes, choferes, prostitutas. Uma criaturinha magra empurrou uma das portinholas que dão para a igreja do Livramento, avançou de manso. Ninguém lhe prestou atenção.
— Pst. Senta aí.
Chegou-se acanhada e esperou a repetição do convite.
— Senta aí.
Sentou-se. O peito era uma tábua, os braços finos, as pernas uns cambitos que nem sei como aguentavam o corpo. A carinha não era feia, talvez tivesse sido bonita.
— Beba alguma coisa.
— Não, muito obrigada.
E espalhou a vista pelas mesas.
— Procurando alguém?
— Era. Parece que ele hoje não vem. Já é tão tarde!
— Onde mora?
— Aqui na rua da Lama. É perto.
E mostrou a chave que trazia na mão.
— Beba alguma coisa - insisti.
— Não senhor, eu não bebo.
Tossia e olhava a porta da cozinha.
— Um petisco.
Pimentel entrou na sala e perguntou-me ao ouvido:
— Onde diabo arranjou esse canhão?
Coitadinha. Não era feia, o que estava era estragada.
— Aceite.
A criatura hesitava, afogueada. Afinal se resolveu:
— Muito obrigada. Eu aceito. O senhor vai comigo, não? É aqui pertinho.
Comeu de cabeça baixa, em silêncio, e repetiu o prato. Só falou ao terminar o café:
— Vamos?
Meti a mão no bolso e lembrei-me de que me restava uma cédula de vinte mil-réis. Recebi o troco e levantei-me.
— Vai comigo? - tornou a perguntar a mulher.
Bebi o resto da aguardente:
— Vamos lá.
No quartinho sujo a rapariga despiu-se e veio abraçar-me desajeitada. O cabelo tinha um óleo de cheiro enjoativo.
— Esteja quieta.
E afastei-me, sentei-me na cama, sem tirar o chapéu. Ela acomodou-se, as pernas cruzadas, os braços cruzados escondendo os peitos bambos. Curvada, mostrava apenas um pedaço da barriga engelhada e escura.
— Anda na vida há muito tempo?
— Nem por isso. Quatro anos.
— An.
Quatro anos. E ali estava aquela carcaça comida pelo treponema. Panos caídos no chão, o irrigador com permanganato. Na mesinha da cabeceira essências ordinárias disfarçavam um cheiro forte de esperma. Tive necessidade de fumar. Encontrei cigarros, mas procurei fósforos em todos os bolsos, e o que achei foi o pacote com as caixinhas de veludo - o relógio-pulseira e o anel.
— Faz o obséquio de me arranjar uma caixa de fósforos?
A mulher levantou-se. Escanzelada, coxas finas com marcas de varizes, nádegas murchas. Chi! que peleiro!
— Muito obrigado.
Acendi o cigarro. A mulher sentou-se junto de mim e começou o seu trabalho de abraços, beijos etc.
— Esteja quieta.
Meti a mão no bolso, senti através do papel de seda a macieza do veludo. A fita do relógio faria uma cinta negra no braço roliço, um braço macio como veludo. Os beijos começavam no pulso, onde a fita se enrolaria. O tique-taque seria do relógio ou do sangue correndo na artéria? Na escuridão do quintal os meus beiços avançavam na pele, que se cobria de borbulhas pequenas como pontas de alfinetes.
— Sempre foi assim magra?
— Ah! não! - respondeu a mulher ocultando as pelancas dos peitos com os cotovelos ossudos. - Era cheia, gordinha.
Acariciei com as pontas dos dedos o papel de seda. A mulher bocejava, caceteada. Que horas seriam? Talvez uma hora. A folhagem da mangueira estendia um pretume no quintal. Os mais insignificantes rumores cresciam: o salto dos grilos nos canteiros, a queda das folhas, o trabalho das formigas. A luz vermelha do farol espalhava-se pelo telhado. Um minuto depois não era vermelha, era branca. Usávamos precauções excessivas, receávamos que os nossos suspiros fossem ouvidos nas casas fechadas.
— Parece que isso rende pouco, hem? - perguntei abarcando com a vista a mesinha, o espelho rachado, o irrigador, as camisas sujas, toda a miséria do quarto.
A mulher teve um gesto de esmorecimento:
— E então! Não está vendo?
— É. Não se dá. Por que não arranja outra vida?
Levantou os ombros, quase agastada:
— Ora outra vida! Que vida? Sempre os mesmos conselhos. Daqui só para a cova.
Realmente, coitada, dali era para a cova, com escala pelo hospital. Infelicidade. Eu é que me podia considerar um sujeito feliz. Repetia isto maquinalmente, enquanto apalpava as caixinhas de veludo. Soltei-as com raiva, ergui-me, esfreguei as mãos. O sentido das palavras que me dançavam no espírito tornou-se claro. Perfeitamente, um sujeito feliz. Que é que me faltava? Livre. Se me viesse aquela desgraça depois do casamento? A sem-vergonha, admiradora de d. Mercedes, tinha feitio para cornear marido mais vigilante que eu. - "D. Mercedes é linda, parece uma artista de cinema." Sem-vergonha. Recuperava a minha liberdade. Muito bem. Fazia tempo que não frequentava as mulheres. Pois estava em casa de uma. O pior é que só me restavam catorze mil-réis e uns níqueis. O dinheiro tinha voado, tinha-se esbagaçado, virara camisas de seda, pó de arroz. Dos males o menor.
— Vão-se os anéis, fiquem os dedos.
Magnífica solução. Liberdade, liberdade completa.
Pus-me a cantar estupidamente, batendo com os dedos na tábua da mesinha:
Liberdade, liberdade,
Abre as asas sobre nós...
— Está indisposto? - perguntou a mulher. - É bom deitar-se, descansar. Vamos dormir.
Dormir, que lembrança!
— Não, adeus. Está aqui. Não lhe dou mais porque não tenho, ouviu? Desculpe.
A criatura recusou os dez mil-réis que lhe apresentei:
— Pode guardar. Nós não fizemos nada. Além disso pagou a ceia. Eu estava com fome.
— Não senhora. Receba. É o que tenho.
— Muito obrigada. Já não lhe disse que não aceito? Eu estava com fome.
Encolerizei-me de verdade e despropositei:
— Não me faça cometer um desatino. A senhora é relógio para trabalhar de graça? A senhora tem obrigação de andar nua diante de mim? Duas horas de chateação, de conversa mole! A senhora é relógio? A senhora não é relógio.
A mulher recebeu o dinheiro, espantada. Julgou-me doido, suponho. Realmente as últimas palavras me haviam tornado furioso.
Marina me explicou muito direitinho que eu não tinha razão. O que tinha era falta de confiança nela. Chorou, e fiquei meio lá, meio cá, propenso a acreditar que me havia enganado.
— Posso obrigar uma pessoa a não olhar para mim? Posso furar os olhos do povo?
Não senhora. A coisa era diferente. Eles tinham sido pegados com a boca na botija, grelando, esquecidos do mundo. Tinham ou não tinham? Sim senhor, mas sem malícia.
— Posso furar os olhos do povo?
Esta frase besta foi repetida muitas vezes, e, em falta de coisa melhor, aceitei-a. Sem dúvida. As mulheres hoje não vivem como antigamente, escondidas, evitando os homens. Tudo é descoberto, cara a cara. Uma pessoa topa outra. Se gostou, gostou; se não gostou, até logo. E eu de fato não tinha visto nada. As aparências mentem. A Terra não é redonda? Esta prova da inocência de Marina me pareceu considerável. Tantos indivíduos condenados injustamente neste mundo ruim! O retirante que fora encontrado violando a filha de quatro anos - estava aí um exemplo. As vizinhas tinham visto o homem afastando as pernas da menina, todo mundo pensava que ele era um monstro. Engano. Quem pode lá jurar que isto é assim ou assado? Procurei mesmo capacitar-me de que Julião Tavares não existia. Julião Tavares era uma sensação. Uma sensação desagradável, que eu pretendia afastar de minha casa quando me juntasse àquela sensação agradável que ali estava a choramigar.
— Pois bem, minha filha, não vale a pena falar mais nisso. Enxugue os olhos. Se você diz que não foi, não foi. Acabou-se, não se discute. Está aqui uma lembrancinha que eu lhe trouxe. Vamos ver se fica bonito.
Marina desembaraçou-se das lamúrias, passou a uma alegria ruidosa. Muitos agradecimentos, uns beijos ainda com a cara molhada. Estranhei aquela mudança repentina.
— Nervoso. Quando casar, endireita.
Marina examinava o relógio e o anel: levantava a mão, afastava-a, aproximava-a.
— Uma beleza. Você tomando incômodo!
Incômodo! Eu estava com o bolso pegando fogo e devendo cinquenta mil-réis a Pimentel.
— Não se preocupe. O que precisamos é acertar essa história do casamento. Quando é isso?
Respondeu vagamente. Andava bordando umas guarnições, preparando umas almofadas. E faltavam certas coisas. Impacientei-me:
— Se você só se decidir quando tiver tudo... Assim ninguém acaba. Vamos marcar o dia. Valeu? Dê uma nota dos troços que faltam.
— Talvez fosse melhor eu fazer a compra.
— É. Talvez fosse, gaguejei aflito. Eu vou ser franco. Estou na pindaíba, ouviu? É necessário a gente escolher mercadoria barata.
Esperei que minha noiva se conformasse com a situação. Baixou a cabeça, e as partes do rosto que não estavam pintadas empalideceram:
— Bem.
— Dá cá a nota.
— Para quê? Assim com essa pobreza...
— Deixa disso - murmurei ressentido. - Donde vem tanto luxo? Riqueza não tenho, mas para vivermos com decência o que há chega. Dá cá a nota.
Marina entregou-me lápis e papel, ditou coisas absurdas, com um risinho ruim, e eu percebi nela a intenção perversa de me humilhar. Quando falou em tapetes e tapeçarias, não me contive:
— Oh! Isso também é demais. Eu estou fazendo das fraquezas forças, compreenda. Diga os objetos indispensáveis. Meu avô não possuía tapetes e foi um homem feliz.
— Naquele tempo era diferente - respondeu Marina.
— Está bem.
Não escrevi as tapeçarias, terminei a nota e despedi-me bastante aperreado. Tudo aquilo estava fora dos eixos. Mais tarde encontrei Moisés:
— Olhe cá. Seu tio me quererá vender estas porcarias a crédito?
— Esse negócio de prestações é por preço horrível - disse Moisés. - Era melhor você comprar a dinheiro.
— Mas se não tenho! Estou na quebradeira, Moisés. Mande as fazendas.
Assim, acabei de encalacrar-me. Marina recebeu os panos friamente, insensível ao sacrifício que eu fazia, aquela ingrata. Se eu não tivesse cataratas no entendimento, teria percebido logo que ela estava com a cabeça virada. Virada para um sujeito que podia pagar-lhe camisas de seda, meias de seda. Que valiam os tecidos grosseiros comprados ao velho Abraão, ou Salomão, o tio de Moisés? Nem olhou os pobres trapos, que ficaram em cima de uma cadeira, esquecidos.
Lembro-me perfeitamente da cena muda que houve naquela tarde. Sentada, a cabeça caída para o encosto da cadeira, as pernas cruzadas, os dedos cruzados num joelho, não me via, era como se estivesse só. A cara parada mostrava cansaço, enjoo. De longe em longe batia com o calcanhar no chão. A saia esticada exibia a coxa, mas a minha atenção se concentrava nos braços e nos dedos. Não trazia o relógio nem o anel que eu lhe tinha oferecido na véspera. Isto me desapontava, arrancava-me pragas e insultos, que eu engolia com medo de praticar uma violência. - "Ordinária! Arrasa-se a gente para ser agradável a uma peste assim, e o resultado é este: coice. Ordinária. Safada." Desejei falar novamente em Julião Tavares, mas temi não convencer-me de que me havia enganado. O rosto imóvel, como se eu não estivesse ali. As mãos finas cruzadas sobre o joelho. Ia escurecendo. Àquela hora seu Ramalho, coberto de azeite, abreviava os dias no calor da usina elétrica, limando bronzes. D. Adélia, na cozinha, enchia-se de fumaça, envenenava-se. Marina permanecia imóvel. Que é que eu estava fazendo, naquele constrangimento, olhando o pacote aberto, estripado, em cima de uma cadeira? As entrevistas no quintal eram coisas muito antigas. O relógio e o anel tinham sido oferecidos na véspera, mas eram antigos também. E parecia-me que tinham sido dados a outra pessoa. Em que estaria pensando Marina? Agora eu não lhe via o rosto: as feições diluíam-se na escuridão. Sentia-me atordoado, com um nó na garganta. Se falasse, diria injúrias. Uma ingratidão assim! Não esperava aquilo. Fatos e indivíduos desencontrados, velhos e novos, fervilhavam-me na cabeça, misturavam-se. No copiar da fazenda José Baía explicava-me as virtudes da oração da cabra preta. Seu Evaristo balançava, pendurado num galho de carrapateira. Berta me havia segurado um braço e arrastado até a escada. E eu, agarrando-me ao corrimão: - "Madame, a senhora não está vendo que não posso encostar-me a uma criatura da sua marca?". Tavares & Cia., negociantes de secos e molhados na rua do Comércio, vestidos de brim de linho, viviam escondidos por detrás dos fardos e eram uns ratos. - "Escrevi muito atacando a Primeira República, doutor. As minhas opiniões são conhecidas." Pobre da mulher da rua da Lama. Rondando as mesas, com fome, às onze horas da noite.
— Bem. Parece que me vou embora, Marina. Boa noite.
— Já vai? - perguntou Marina sem se mexer.
— Já.
Saí, resmungando:
— Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de prostituição.
Por que foi que aquela criatura não procedeu com franqueza? Devia ter-me chamado e dito: - "Luís, vamos acabar com isto. Pensei que gostava de você, enganei-me, estou embeiçada por outro. Fica zangado comigo?". E eu teria respondido: - "Não fico não, Marina. Você havia de casar contra vontade? Seria um desastre. Adeus. Seja feliz". Era o que eu teria dito. Sentiria despeito, mas nenhuma desgraça teria acontecido. Lembrar-me-ia de Marina com vaidade, até com orgulho: - "Sim senhor, gostei de uma mulher de caráter, mulher de cabelo na venta". Não seria esta miséria, esta recordação de coisas mesquinhas.
De todo aquele romance as particularidades que melhor guardei na memória foram os montes de cisco, a água empapando a terra, o cheiro dos monturos, urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposição no lixo. Tão morno, tão chato! Nesse ambiente empestado Marina continuava a oferecer-se negaceando. Conservava-me preso, fazendo gatimanhos, esticando a saia estreita que lhe mostrava bem as coxas e as nádegas.
— Marina, esse procedimento é incorreto. Por que não me larga? Dê o fora, desocupe o beco.
— Está roendo courana. Coitadinho dele.
Não tornamos a falar em casamento. Creio que ela procedeu assim por hábito. Ou talvez quisesse pagar os objetos que tinham esgotado a minha fortuna. Mas ia-se distanciando, e eu não podia agarrá-la. Às vezes ficava trombuda, aparentando gravidade. As distrações eram constantes, aquele modo de se descangotar, abrir a boca e olhar por cima da cabeça da gente. Isto me amarrava e atenazava. Presumo que a intenção dela era desembaraçar-se de mim lentamente, ou desembaraçar-se ela própria do costume que havia adquirido.
À tarde eram aqueles manejos, mas pela manhã, quando eu saía para a repartição, plantava os cotovelos na janela e enxeria-se com Julião Tavares. Uma vez por semana eu largava o serviço antes do meio-dia, só para pegá-los. Ao dobrar a rua Augusta, avistava Julião Tavares na prosa com ela, vermelho, soprando, derretendo-se, a roupa de brim com manchas de suor nos sovacos. Vendo-me, o canalha voltava as costas, porque estava intrigado comigo. Abri-me com d. Adélia, comentei aquele escândalo:
— A senhora aprova o comportamento de sua filha?
D. Adélia torceu as mãos, engoliu em seco e respondeu numa atrapalhação:
— É a mocidade.
Perdi os estribos:
— Que mocidade! É sem-vergonheza. Não lhe invejo a sorte, d. Adélia. Sua filha acaba mal.
— Quem tem família está sujeito a tudo, seu Luís. Ninguém deve dizer "Deste pão não comerei nem desta água beberei".
— Não deve não, d. Adélia. É uma tristeza. A senhora lavando, engomando, cozinhando, e seu Ramalho na quentura da usina elétrica, matando-se para sustentar os luxos daquela tonta. Sua filha não tem coração.
— Muito nova, dizia a mãe. Depois endireita. Quando casar, endireita.
— E a senhora pensa que há no mundo um trouxa que se engane com ela? Não casa não, d. Adélia. Aquela dá com os burros na água.
D. Adélia tinha lágrimas na voz e gaguejava frases truncadas:
— Então... Eu não sabia. Uma coisa apalavrada... Não há motivo, seu Luís, acredite que não há motivo. Por que foi?
Eu sentia prazer em atormentar a pobre da velha:
— D. Adélia, olhe para a minha cara. A senhora me acha com jeito de corno?
— Deus me livre, seu Luís - exclamava a mulher recuando e arregalando os olhos. - Eu havia de achar semelhante barbaridade?
— Então, se não me acha com jeito de corno, não me faça perguntas dessa natureza.
O meu desejo era desligar-me daquela gente, passar calado, carrancudo, as mãos nos bolsos, o chapéu embicado. Esforçava-me por me dedicar às minhas ocupações cacetes: escrever elogios ao governo, ler romances e arranjar uma opinião sobre eles. Não há maçada pior. A princípio a gente lê por gosto. Mas quando aquilo se torna obrigação e é preciso o sujeito dizer se a coisa é boa ou não é e por quê, não há livro que não seja um estrupício.
O que eu devia fazer era mudar de casa. Esta é inconveniente, cheia de barulhos, parece mal-assombrada. Os ratos não me deixavam fixar a atenção no trabalho. Eu pegava o papel, e eles começavam a dar uns gritinhos que me aperreavam. Tinham aberto um buraco no guarda-comidas, viviam lá dentro, numa chiadeira infernal. Às vezes havia um cheiro de podridão. Vitória se enfrenesiava, andava para cima e para baixo, manejando um regador com água e creolina, molhando tudo. Mas o fedor resistia. Afinal íamos encontrar o armário dos livros transformado em cemitério de ratos. Os miseráveis escolhiam para sepultura as obras que mais me agradavam. Antes, porém, faziam um sarapatel feio na papelada. Mijavam-me a literatura toda, comiam-me os sonetos inéditos. Eu não podia escrever.
Os grilos não me incomodavam, escrevo perfeitamente ouvindo os grilos. Havia uma orquestra deles, mas eu nem os notava. Saltavam-me em cima do papel, eu dava-lhes piparotes, e eles desapareciam.
Os ratos é que me roíam a paciência. Corrote, corrote - era como se roessem qualquer coisa dentro de mim. Lembrava-me do tempo em que andava pelas ruas sentindo o cheiro das mulheres. Miudinhos, deviam ser catitas. Corriam pela sala de jantar, vinham mexer nos meus chinelos, sem medo, sem vergonha. Levantava-me, abria as portas do guarda-comidas, saltavam três, quatro, que se escapuliam para os buracos das paredes. Voltavam, assustados, ganhavam confiança, aproximavam-se, bonitinhos, os olhos vivos e as orelhas arrebitadas. O meio de obrigá-los ao silêncio durante uns minutos era espalhar na sala pedaços de miolo de pão, que eles devoravam depressa. Casa infame. E dr. Gouveia cobrava-me cento e vinte mil-réis de aluguel! De quando em quando o madeiramento bichado estalava.
— Qualquer dia esta cumeeira vem abaixo - gemia Vitória. Por que é que o senhor não se muda?
As noites eram medonhas. Os galos marcavam o tempo, importunavam mais que os relógios. E os ratos não descansavam. Enquanto alguns roíam a madeira do guarda-comidas, outros deviam estar lá dentro no armário, devastando os manuscritos, morrendo na literatura. Fogo nos livros imundos. Mas a casa enchia-se de pulgas. O gato amava nos telhados, gato ordinário. Uns miados estridentes, indiscretos: - "Rasga, diabo!". Marina, quando se excitava, enrolava-se como uma gata e miava. Miava baixinho, para não acordar a vizinhança.
Irritava-me um som de armadores de rede. Em noites de calor Marina dormia em rede, balançava-se.
Os armadores rangiam. O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando-se, traindo-se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem.
Os armadores continuavam a ranger. Provavelmente estava deitada de costas, as pernas caídas, os pés no chão dando o impulso para o balanço. Talvez estivesse nua por causa do calor.
Seu Ramalho tossia. D. Adélia descansava na cama dura a armação fatigada.
Ou não descansava. Era possível que fizesse contas, aperreada - tanto para o aluguel da casa, tanto para o mercado, tanto para a luz, tanto para a roupa. Vitória também calculava, resmungando. Os números misturavam-se ao canto dos galos e ao chiar dos ratos. No princípio do mês iria revolver as pratas enterradas no canteiro das alfaces, na raiz da mangueira, ao pé da cerca. Não havia agora ninguém lá. Bichos miúdos apenas, grilos, formigas.
Em que estaria pensando Marina? Provavelmente no outro. Um sujeito gordo, vermelho, suado, bem-falante, de olhos abotoados. Seria possível que ela gostasse daquilo?
Seu Ramalho tossia. Assaltava-me o desejo de ver Julião Tavares sujo de azeite e carvão, recebendo na cara as faíscas da fornalha. Por que não? Derretendo as banhas. Inútil, preguiçoso, discursador. Canalha.
Pouco a pouco nos fomos distanciando, um mês depois éramos inimigos. A princípio houve brigas, reconciliações desajeitadas, conversas azedas com d. Adélia. Tempo perdido. Marina estava realmente com a cabeça virada para Julião Tavares. Comecei a passar trombudo pela calçada, remoendo a decepção, que procurei recalcar.
— Mulheres não faltam.
Entrei a procurá-las, a observá-las. Por que só haveria de servir aquela safadinha? Uma datilógrafa que me aparecia em toda parte era bem engraçada. Bonitinha, com olhos verdes e rosto de santa. Eu ia dobrar uma esquina - dava de cara com ela; tomava o bonde - ela era minha companheira de viagem. Depois de tantos acasos, a gente se cumprimentava, embora sem saber que rumo cada um ia tomar. Às vezes eu estava distraído, pensando em coisas à toa. Quando menos esperava, surgiam os olhos de gato da datilógrafa. Outras vezes chegava-me de supetão a ideia de que ia vê-la. E acontecia acertar. Sumiu-se umas semanas. Se não se tivesse sumido, é possível que a minha vida fosse hoje diferente. E talvez não fosse. Duas criaturas juntam-se um minuto, mas entre elas há um obstáculo. Provavelmente a datilógrafa dos olhos verdes, enquanto sorria para mim no bonde ou na esquina, pensava numa espécie de Julião Tavares que iria visitá-la horas depois. Morava numa casa de quintal sujo, lia romances tolos, admirava uma quenga semelhante a d. Mercedes. O pai era um pobre homem carregado de achaques e consumido pelo trabalho, a mãe lavava roupa e queixava-se da carestia.
Vitória é que tinha razão:
— Cabritinha enxerida. Esfregando-se nos homens.
O sem-vergonha metera-se na casa, ficava lá horas, íntimo da família, unha com carne. Empurrava a porta, entrava como se aquilo fosse dele. Seu Ramalho nem se voltava: debruçado à janela, aperreado, fumando cachimbo, mordia os beiços, encolhia os ombros. Vinha conversar comigo, desabafava:
— Não se case, seu Luís. É o conselho que lhe dou.
Quando o intruso saía, começava a arenga:
— Isto tem cabimento? Entra quem quer.
Marina defendia-se, malcriada:
— Entrou porque deixaram. Eu tenho culpa? Não mandei. Posso amarrar as pernas dos outros?
— Falem baixo - pedia d. Adélia. - Os vizinhos estão ouvindo.
— Que vizinhos! - gritava seu Ramalho. - Faço um escândalo. Isto é pensão?
Não fez o escândalo. E Julião Tavares continuou a frequentar a casa, levando presentes às mulheres. Às vezes jantava lá. Nesses dias um carregador trazia do armazém de Tavares & Cia. um caixão com embrulhos, latas e garrafas. Da minha sala de jantar, eu ouvia as conversas, as risadas, o barulho dos vidros e dos talheres. No fim a coisa descambava em discurso.
Seu Ramalho não tomava parte nessas orgias: embicava o chapéu, acendia o cachimbo e saía. D. Rosália balançava a cabeça com um sorrisinho safado:
— Feias coisas. Não dou um ano que isto cheire a alfazema.
Antônia ia comentar a história com o guarda-civil da esquina.
Punha-me a passear pelo corredor, olhando as biqueiras dos sapatos, os tijolos gastos, o rodapé vermelho da parede úmida. Por ali passava um cano. Algumas porcas das juntas estavam mal apertadas e por elas a água esguichava, formando poças no tijolo gasto. O cano estirava-se como uma corda grossa bem esticada, uma corda muito comprida. Eu andava para cima e para baixo, o ouvido atento aos mais insignificantes rumores da casa vizinha. Preocupava-me sobretudo o silêncio. Enquanto estavam batendo nos copos, tagarelando, nem por isso. Mas quando se calavam, vinham-me suposições que me davam tremuras. Provavelmente d. Adélia tinha ido à cozinha preparar o café. E os dois aproveitavam o tempo. Sem dúvida. Imaginava o que eles faziam. Era aquilo, sem dúvida.
— Que é que o senhor tem? - perguntava-me Vitória.
Sem dúvida. Imaginava perfeitamente. E não tirava os olhos da parede manchada, do rodapé vermelho, do cano.
— Um pedaço daquilo é arma terrível. Arma terrível, sim senhor, rebenta a cabeça de um homem. Já se tem visto.
Mas aquele, comprido demais, pregado ao chão, não tinha jeito de arma: parecia uma corda estirada. Quando vinha o silêncio, detinha-me na sala de jantar, contígua à outra sala onde a súcia se regalava, punha a mão atrás da orelha, continha a respiração. Furava com os olhos a cal que se descascava e dava ao muro a aparência de uma cara sardenta, furava o reboco, furava os tijolos. No outro lado a mesa num desarranjo, restos de comida, pontas de cigarros, nódoas na toalha, garrafas abertas, os dois juntos, perna com perna. D. Adélia, encostada ao fogão, respirava fumaça, engelhava as pálpebras, gemia uma desculpa: - "É a mocidade". Estava invisível e escaldava os dedos torcendo o pano de café. Os dois, grudados, cochichavam, esfregavam-se. Alguns botões tinham saído dos lugares. Afinal tudo era suposição. Talvez d. Adélia estivesse ali, um pouco afastada, os olhos atentos, observando o que se passava por baixo da mesa. História! Escondia-se e justificava aquela sem-vergonha: - "É a mocidade". Indecência. Atracados, os olhos vermelhos, baba no canto da boca, uns bichos. Aproximava-me da parede. Ali a poucos passos, tontos pela bebida, beijando-se. Conservavam-se em silêncio um instante, mas isto me parecia tempo excessivo, suficiente para todas as patifarias. Risos, a continuação de uma conversa interrompida. A voz precipitada de Marina era ininteligível; a de Julião Tavares percebia-se distintamente e causava-me arrepios: fazia-me pensar em gordura, em brancura, em moleza, em qualquer coisa semelhante a toicinho cru. Pescoço enorme, sem ossos, tudo banha. Quando o homem andava na rua, olhando para cima, risonho, aprumado, com passinhos curtos, a papada tremia. Aquilo era bambo, flácido, devia ter a consistência de filhó. De repente d. Adélia começava a falar. As mesmas queixas de sempre, lamentações tranquilas. Nunca ouvi ninguém se lamentar assim. Palavras arrastadas, monótonas, um pequeno assobio no fim de cada pausa. Aquele sossego me irritava quase tanto como os derramamentos de Julião Tavares. Afastava-me, sacudia a cabeça para não escutar a conversa, passeava pelo corredor, tossindo, batendo os pés, encaminhando o pensamento para coisas diversas, que se embaralhavam. Muitos crimes depois da revolução de 30. Valeria a pena escrever isto? Impossível, porque eu trabalhava em jornal do governo. Moisés se tinha ausentado: a polícia incomodava os rapazes que liam livros suspeitos e falavam baixo. Seu Ivo furtara-me uns pratos. A menina dos olhos agateados desaparecera. A mulher da rua da Lama, a que eu encontrara uma noite no Helvética, andava caipora, no hospital, com doença do mundo. A voz oleosa de Julião Tavares continuava a perseguir-me. Era como se eu estivesse diante de um aparelho de rádio, ouvindo língua estranha. Distanciava-me. As palavras gordas iam comigo. Umas chegavam completas, outras alteravam-se - ruídos confusos e vogais indistintas. Necessário dar cabo daquela voz. Se o homem se calasse, as minhas apoquentações diminuiriam. A criatura faminta da rua da Lama, seu Ivo, Moisés, a menina dos olhos agateados, tudo isto me passava pelo espírito sem se fixar. Um tropel, depois nada. O que ficava era aquela gordura que se derramava pelas paredes. Às vezes eu estava certo de que Julião Tavares se tinha calado, mas a voz não deixava de perseguir-me. Mexia-me, tossia. E olhava com insistência o cano que se estirava ao pé da parede, como uma corda.
Aos domingos iam ao cinema, juntos, de braço dado, bancando marido e mulher - ele com ar bicudo e saciado, ela bem-vestida como uma boneca e toda dengosa. Seda, veludo, peles caras, tanto ouro nas mãos e no pescoço que era uma vergonha. O pessoal da vizinhança povoava as janelas. D. Mercedes indignava-se, as filhas de Lobisomem mostravam as caras espantadas entre as rótulas, Antônia andava como lançadeira, ouvindo os comentários. As exclamações iam de um lado para outro. Só queriam saber se ainda estava inteira. As opiniões variavam. Discutiam as modificações do tipo: a grossura da barriga, o modo de andar. Eu, com os ouvidos abertos, simulando indiferença, escutava palavra aqui, palavra ali.
— Que é que temos, Antônia?
Antônia, bamboleando-se, cosia pedaços daqueles fuxicos.
E os dois lá iam até o fim da rua, grudados, ela desconjuntando-se, enrolando-se, torcendo-se como uma cobra de cipó. Dobravam a esquina, a rua ficava deserta. Reapareciam. Com certeza tinham desistido do cinema. Quando se aproximavam, é que eu notava o engano: era outro casal. Julião Tavares e Marina transformavam-se por momentos nas pessoas que vinham da praça Deodoro, mas eu continuava a vê-los longe, em diferentes lugares.
As três filhas de Lobisomem apareciam juntas, num feixe, confusão de cabelos arrepiados e olhos espantados. Antônia, colorida de vermelho e branco, saía à procura de machos. O vento gemia nos arames da Nordeste, e os arames balançavam como cordas.
Julião Tavares e Marina tinham entrado no Livramento e lá iam juntinhos, esfregando-se. Cadeiras na calçada. Era necessário saltar no paralelepípedo. Um passo em falso, topada na sarjeta, e os dois corpos se chocavam. Diante da igreja, nos bancos da praça miúda, gente esquisita: homens sujos, mulheres sem companhia. E crianças abandonadas pelos cantos. Cochichos, palavrões, descontentamento, frases incendiárias. Na calçada estreita da igreja as crianças abandonadas apinhavam-se. Automóveis parados, choferes adormecidos, vagabundos, exposição de prostitutas à entrada da rua da Lama.
D. Rosália conversava com d. Adélia. Picuinhas, perfídias: - "Não se queixe não, minha negra. A senhora até não é das mais caiporas. Tem quem lhe dê tudo". D. Adélia sorria vexada, mexia os beiços e não encontrava resposta.
Mais algumas pernadas, e os dois estavam defronte do café. Julião Tavares passava como um pavão. E o pessoal se calava, arregalava os olhos para Marina, que não ligava importância a ninguém, ia fofa, com o vestido colado às nádegas, as unhas vermelhas, os beiços vermelhos, as sobrancelhas arrancadas a pinça. Entravam no cinema, Julião Tavares comprava um jornal. Na sala de espera toda gente se voltava, com uma pergunta nos olhos. Julião Tavares sentava-se, fingia ler os telegramas, vaidoso. - "Quem é?" Informações em voz baixa, muita inveja. Sim senhor. Que bicho de sorte! Marina fazia água na boca dos homens.
Agora estava escuro. Debruçado à janela, eu fumava sem ver a rua. Via seu Ivo, Pimentel, a datilógrafa desaparecida. Onde estaria a datilógrafa? Bonitinha, com uns olhos de gato que acariciavam a gente. E amável, sem fumaças. Quando eu tirava o chapéu, respondia com um sorrisinho modesto. O meu desejo era sair de casa, ir procurá-la. Talvez estivesse num cinema de arrabalde, com o namorado. Coitadinha. Provavelmente nem pensava nisso. O dia inteiro batendo no teclado com os dedos entorpecidos, e duzentos mil-réis por mês. Talvez tivesse irmãos pequenos. Invadia-me uma ternura, queria ligar-me àquela moça que vestia roupas ordinárias e andava à pressa, com uma pasta debaixo do braço. Seríamos felizes. Ela trabalharia menos. Ao chegar a casa, fatigada, distrair-se-ia papagueando com o Currupaco, meteria as mãos doídas no pelo do gato. Eu escreveria um livro de contos, que ela datilografaria nas horas vagas, interessando-se. Convidaríamos Pimentel e Moisés. Quando a corja estivesse na sala vizinha, bebendo, nós conversaríamos sobre literatura. Moisés atacaria os livros feitos com frases bem-arrumadas. A arte deveria estar ao alcance de todos, a serviço da política. - "Que diz, seu Pimentel?" Pimentel responderia estirando o beiço. Escrevendo, é capaz de demonstrar qualquer coisa. Diante da folha de papel, em mangas de camisa, trabalha como um carroceiro, os dedos grossos pegando a caneta com força. Depois fecha o cérebro e desenruga a testa. - "Que diz, seu Pimentel?" Não diria nada. Para que um homem discutir, se não é obrigado a isto? Do outro lado da parede, risos, tinir de copos. Nós continuaríamos a conversa tranquilamente.
Onde andaria a datilógrafa dos olhos agateados? O que é certo é que eu precisava mulher. Devia acabar aquela maluqueira e meter-me na farra. Se achasse uma criatura como Berta... O diabo da alemã voltava-me sempre à lembrança, provavelmente por ter sido a primeira mulher bonita e limpa a que me encostei. - "Senhor não quer entrar?" Tipo admirável, ariano puro. - "Madame, um sujeito como eu pode agarrar-se a uma pessoa da sua marca?" A ariana pura tinha respondido numa língua embrulhada.
Às vezes seu Ramalho puxava uma cadeira, sentava-se à porta. Eu olhava distraído os arames, que balançavam como cordas bambas. Esta comparação dos arames a cordas vinha-me ao espírito com insistência. Se pudesse trabalhar, escrever, livrar-me daqueles arames... Não podia: a literatura cambembe para os políticos da roça tinha parado. Além disso eu necessitava beber muito, sentia preguiça, passava horas no café, esbagaçando dinheiro. O ordenado voava, as dívidas cresciam.
Naquele momento, porém, não pensava em nada disso. Pensava na miséria antiga e tinha a impressão de que estava amarrado de cordas, sem poder mexer-me. No banco do jardim, com os sapatos gastos, as meias reduzidas a canos, esperava ansiosamente um auxílio qualquer. Estudava as caras, numa agonia. A fome triturava-me a barriga, uma fome de muitos dias, enganada com pedaços de pão e cálices de aguardente. - "Cidadão, um nortista perseguido pela adversidade..." Não distinguia bem a cara do cidadão: a cabeça inclinava-se, a vista escurecia e pregava-se nos dedos dos pés, que saíam pelos buracos dos sapatos. Se pudesse, se não estivesse policiado e exausto, mataria o cidadão para roubar-lhe um níquel. Andava sujo, as calças com os fundilhos rotos e as bainhas esfiapadas, a gravata feita uma corda. Apanhava os jornais esquecidos nos bancos e procurava os anúncios miúdos para ver se descobria trabalho, mas as letras dançavam, fugiam. Imaginava fortunas absurdas: dinheiro achado na rua, um roubo que nunca tive coragem de praticar, o aparecimento de um fazendeiro rico e atilado que me diria: - "Ninguém percebe o seu valor, rapaz. O que lhe falta é roupa. Roupa e trato. Vamos comer no restaurante. E toca para São Paulo, meter a cara na lavoura do café". Qualquer serviço que me dessem seria bom. Oferecia-me para garçom de botequim, para revisor de jornal. Tinha uma inclinação maluca para os jornais. - "Queria que o senhor experimentasse, que me deixasse trabalhar uns dias de graça." Humilhações. Depois era a pensão de d. Aurora. A fome desaparecera, mas a falta de mulher atormentava-me. As que passavam na rua tinham cheiros violentos, e eu andava com as narinas muito abertas, farejando-as, como um bode. No colchão duro da minha cama de ferro os percevejos passeavam sobre os ossos amarelos que Dagoberto jogava lá.
Tarde. Os meninos de d. Rosália corriam no calçamento e faziam algazarra doida. As rótulas da casa de Lobisomem estavam cerradas. Encostado à janela, fumando, eu olhava a rua comprida e estreita. De quando em quando vultos distantes assustavam-me. E os arames balançavam como cordas.
O meu pensamento fugia dali, entrava no quarto escuro que ficava ao pé da escada. Dagoberto pegava uma vértebra, eu escancarava o compêndio. A caveira desdentada era horrível, toda queimada de cigarros, o frontal cheio de buracos que serviam de cinzeiros. De que teria morrido o dono daquela caveira? Mas Dagoberto e os ossos desapareciam. Lá vinham d. Aurora e a neta marchando para o cinema. As minhas mãos úmidas apertavam no bolso as notas, eu sorria encolhido e silencioso, fazendo cálculos. D. Aurora, mole, tomava no bonde o lugar de dois passageiros, sacolejava-se com o movimento do carro, os caracóis brancos agitavam-se. Parecia-me que, se ela não estivesse entrouxada, as banhas se despegariam do corpo. A neta emproava-se, a vaidade pingava do leque, do lorgnon, dos olhos. Na sala de projeção a gente não via a tela. Horas horrivelmente cacetes, em que pedaços de duas pessoas se encontravam. Só uns pedaços, os outros estavam longe. As pernas da moça eram frias. Onde andaria o pensamento dela? Eu pensava nos bancos do passeio, nos sapatos sem sola, no galego do frege, no chefe da revisão. Com os dedos esmorecidos no joelho da pequena, lembrava-me também da cesta de ossos de Dagoberto e dizia mentalmente expressões técnicas. D. Aurora dormia.
Com certeza àquela hora o Capitólio se esvaziava, uma exposição de roupas desfilava nos corredores que limitam a sala de espera. Os ventiladores parados, grande calor. Marina, bamba, apertava os olhos, encolhia-se no vestido machucado, bocejava; Julião Tavares abanava-se com o jornal.
Que diabo fazia eu ali, debruçado à janela? Entrava, ia para a sala de jantar, abria um livro, punha-me a ler marcando os períodos com o dedo. Quando terminava um período, baixava o dedo a um lugar onde era provável haver ponto-final. Parecia-me que este exercício me fixava a atenção na leitura: às vezes conseguia compreender uma página inteira. Mas o dedo fatigava-se, entorpecia, e os olhos desviavam-se das letras, pregavam-se na toalha, nas moscas adormecidas sobre as nódoas. Um relógio batia. Julião Tavares e Marina ausentes. Vitória falava alto na cozinha. Antônia embalava o filho mais novo de d. Rosália, e a criança manhosa berrava com desespero. Felizmente ainda era cedo para os ratos roerem a madeira do guarda-comidas. A vitrola de d. Mercedes começava a tocar, o galo de d. Adélia batia as asas. Alguma cantiga distante, de bêbedo. Que fim teria levado seu Ivo, coitado? Apito de trem, provavelmente dez horas. O relógio da sala de jantar quase sempre parado. Passos na calçada. Quem seria? Muito tarde. O rolar dos veículos esmorecia. O gato já andava miando nos telhados. Os papéis, livros com as folhas intactas, esquecidos nas cadeiras, causavam-me enjoo. Rumor de ferrolho na casa vizinha, pisadas no corredor. Com certeza tinham voltado. Engano. Era seu Ramalho que entrava, aperreado, ia arengar com a mulher por causa do procedimento da filha. Às vezes a discussão se arrastava durante horas, mastigada e rancorosa. E Marina ausente.
— Isso tem jeito?
D. Adélia chorava, assoava-se, gemia desculpas sem pé nem cabeça.
D. Rosália era casada, mas eu não conhecia o marido dela, caixeiro-viajante que andava sempre no interior. Conhecia a voz. Quando ele chegava, depois de uma ausência de meses, a casa ficava em rebuliço. Um sujeito moreno e calvo rosnava um cumprimento e tocava o chapéu ao passar na minha calçada. Presumo que era o marido de d. Rosália, mas não tenho a certeza. Fala mansa e abafada, muito diferente da que eu ouvia da minha sala de jantar. Nunca vi o homem calvo e moreno entrar na casa à esquerda, mas como o aparecimento dele coincidia com a presença do marido de d. Rosália, suponho que os dois eram uma pessoa só.
Antônia chegava à minha janela e, piscando os olhos, segredava: - "O homem está aí". Mordia o beiço e saía bamboleando-se, com um risinho canalha, as pernas grossas muito abertas exibindo marcas de feridas. Para não descontentar a rapariga, eu sorria agradecendo a comunicação, aperreado em excesso, porque nesses dias não me era possível dormir sossegado. D. Rosália, honesta, vivia excitada, e o marido vinha feito um bode. Aquilo durava uma semana, mais de uma semana, até que o casal se acalmava e surgia nova viagem.
Nessa lua de mel, sempre renovada, as crianças marchavam cedo para a cama. Antônia aprontava o café, ia correr a zona. E o trabalho do amor começava, ruidoso, indiscreto. Antes da minha cabeçada com Marina, eu não aguentava aquilo. Escrevia, lia, dormia, acordava, levantava-me, tornava a deitar-me. Não me continha: vestia-me, ia para a rua, meia-noite, de madrugada. Por fim nem esperava tanto: quando Antônia servia o café, aos muxoxos, derrubando louça, e a porta da frente se fechava com um baque, eu agarrava o chapéu e saía. Agora não podia arredar-me dali. Parecia-me que, na minha ausência, Julião Tavares penetraria na casa e levaria o que me restava: livros, papéis, a garrafa de aguardente. Sentia-me preso como um cachorro acorrentado, como um urubu atraído pela carniça. Se pudesse dormir...
Durante o dia passava muitas vezes pela porta de Marina, desejando reconciliar-me com ela. Faltava-me coragem, a vergonha baixava-me o rosto, esquentava-me as orelhas.
Que me importava que Marina fosse de outro? As mulheres não são de ninguém, não têm dono. Sinha Germana fora de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, só dele, mas há que tempo! Trajano possuíra escravos, prendera cabras no tronco. E os cangaceiros, vendo-o, varriam o chão com a aba do chapéu de couro. Tudo agora diferente. Sinha Germana nunca havia trastejado: ali no duro, as costas calejando a esfregar-se no couro cru do leito de Trajano. - "Sinha Germana!" E sinha Germana, doente ou com saúde, quisesse ou não quisesse, lá estava pronta, livre de desejos, tranquila, para o rápido amor dos brutos. Malícia nenhuma. Como a cidade me afastara de meus avós! O amor para mim sempre fora uma coisa dolorosa, complicada e incompleta.
Se Marina voltasse... Por que não? Se voltasse esquecida inteiramente de Julião Tavares, seríamos felizes. Absurdo pretender que uma pessoa passe a vida com os olhos fechados e vá abri-los exatamente na hora em que aparecemos diante dela.
Nu, deitado de costas na cama de ferro, esfregava-me no colchão estreito e coçava-me, mordido pelas pulgas. No quarto, escuro para a conta da Nordeste não crescer, a luz que havia era a do cigarro, que me fazia desviar os olhos de um lado para outro. Não podia deixar de olhá-la. Às vezes me entorpecia, e a luz ia diminuindo, cobria-se de cinza. De repente despertava sobressaltado: parecia-me que, se o cigarro se apagasse, alguma desgraça me sucederia. E entrava a fumar desesperadamente, e soprava a cinza. Impossível dormir. O quarto de d. Rosália ficava paredes-meias com o meu. Antônia tinha-me dito, em confidência: - "O homem chegou". Devia ser o sujeito calvo e moreno que tocava o chapéu e rosnava um cumprimento. Agora se distinguiam palavras claras: - "Bichinha, gordinha...". Não sei como aquelas criaturas se podiam amar assim em voz alta, sem ligar importância à curiosidade dos vizinhos. D. Rosália resfolegava e tinha uns espasmos longos terminados num ui! Medonho que devia ouvir-se na rua. Antes desse uivo prolongado o homem soltava palavrões obscenos. Parecia-me que o meu quarto se enchia de órgãos sexuais soltos, voando. A brasa do cigarro iluminava corpos atracados, gemendo: - "Bichinha, gordinha..." - "Ui!". Na escuridão a parede estreita desaparecia. Estávamos os três na mesma peça, eu rebolando-me no colchão estreito, picado de pulgas, respirando o cheiro de pano sujo e esperma, eles agarrados, torcendo-se, espumando, mordendo-se. Aquilo iria prolongar-se por muitas horas. Depois o silêncio, o cansaço, a luz da madrugada, o sono, a parede, nos afastariam. Se nos encontrássemos, faríamos um ligeiro movimento de cabeça, resmungaríamos uma saudação apressada. D. Rosália, pendurando-se à janela, comentaria os modos suspeitos de Lobisomem e o procedimento de Marina; o homem calvo e moreno prosseguiria nas suas viagens pelo interior; eu redigiria informações: "Em conformidade com o artigo tal do regulamento...".
Não havia regulamento, nem janela, nem mostruários. O que havia eram duas camas próximas. Uma delas rangia escandalosamente. - "Bichinha, taludinha..." Esses diminutivos contrastavam com a voz do homem, grossa, arrastada. Além disso d. Rosália tinha bem quarenta anos e não era taluda: era magra, cheia de ângulos, o carão chupado com duas olheiras fundas que no dia seguinte estariam medonhas. Silêncio de alguns minutos. Iam deixar-me dormir. Nada. Acendia outro cigarro e continuava com a vista presa na brasa, que se aproximava e afastava, em movimentos bruscos, como uma coisa viva mordida pelas pulgas. Aquela espécie de fogo-corredor me fascinava. Se Marina voltasse... Por que não? A água lava tudo, as feridas cicatrizam. Não valia a pena pensar no outro. Julião Tavares era um caminho errado. Tantos caminhos errados na vida! Quem sabe lá escolher com segurança os atalhos menos perigosos? A gente vai, vem, faz curvas e zigue-zagues, e dá topadas de arrancar as unhas. A água lava tudo, as feridas mais graves cicatrizam. Lembrava-me de uma queda antiga que me tinha jogado à cama quinze dias. O cavalo se havia empinado, eu caíra nas pedras do Ipanema, rachara a cabeça, esfolara a coxa. Por que era que uma ferida devia ser vergonhosa e outra não? Depois desse tombo, andara uns tempos bambo, tossindo, e nunca me havia consolidado, nem com os exercícios da caserna.
— Ora aí estão ferimentos que me deviam envergonhar, porque me tornaram fraco. E não me envergonham.
A brasa do cigarro chegava-me perto dos beiços, brilhava, faiscava, parecia mangar de mim na escuridão. Sinha Germana só tinha aberto os olhos diante do velho Trajano. Sem dúvida. Mas eu queria ver sinha Germana agora, no cinema, ou correndo as ruas, com uma pasta debaixo do braço, e mais tarde no escritório, batendo no teclado da máquina, ouvindo as cantigas dos marmanjos. Hábitos diferentes, necessidades novas.
Afinal por que seria que d. Rosália afirmava que Marina dera com os burros na água? Não havia certeza. E para que certeza?
— Que me importa o que se passa nas casas alheias?
O que se passava na cama de d. Rosália era quase público, pelo menos estava no conhecimento dos vizinhos. Fazia minutos que os dois se conservavam em silêncio. Enjoados, provavelmente, separados, cada um com o seu lençol. Engano. O barulho recomeçava: cochichos que iam crescendo e se transformavam em gritos, beijos compridos, chupões gorgolejados.
Quando se debruçava à janela, fiscalizando a rua, d. Rosália usava linguagem decente para censurar as filhas de Lobisomem, engulhava, cheia de pudores.
Uma criança urinava na cama e chorava. Distinguia-se perfeitamente o som das gotas que batiam no chão.
— Cala a boca! - ordenava d. Rosália.
O choro findava, mas as gotas continuavam a cair, e a respiração do homem se arrastava, entrecortada, encatarroada, fungada, interrompida por um pigarro, uma respiração de quem se está estrangulando. Aquilo me irritava tanto que eu apertava as mãos nos ouvidos e mordia as cobertas para não gritar. O resfolegar de cachorro cansado atravessava-me as palmas das mãos, rasgava-me os ouvidos, e os pingos de urina, penetrando a palha podre do colchão, caíam-me dentro da cabeça como marteladas. A criança recomeçava a chorar.
— Cala a boca.
Soluços engolidos da criança e a respiração arquejante do homem. Inútil apertar os ouvidos, que se pegavam às palmas como ventosas. Estirava-me, espreguiçava-me. De costas, as mãos sobre o peito, experimentava relaxar os músculos e não pensar. Através das pálpebras meio cerradas via apenas a brasa do cigarro, que se cobria de cinza. Tranquilo, tranquilo, nenhum pensamento. Sentia vontade de chorar, tinha um bolo na garganta.
— Tranquilo, tranquilo.
Esta repetição me exasperava e endoidecia. O corpo em completo sossego, o cigarro apagado. Não sabia em que posição estavam as pernas. As mãos pesavam em cima do peito. Mas as pernas, onde estariam elas? Flutuava como um balão. O corpo quase adormecido e sem pernas. As ideias, porém, não me deixavam, ideias truncadas. Uma guerra na Europa. D. Mercedes comprara discos novos para a vitrola. Moisés se ocultava, com medo da polícia. Um espírito puro, um espírito boiando, livre da matéria. As botinas de Lobisomem estavam cada vez mais cambadas. Onde andaria seu Ivo? Um espírito boiando. Como seria? O espírito de Deus era levado sobre as águas.
As pulgas mordiam-me. Sem mudar de posição, esforçava-me por não fixar o pensamento em coisa nenhuma. Quando vinha uma ideia, afastava-a, agarrava-me a outra, que saía logo. Algumas voltavam com insistência. As botinas de Lobisomem estavam cambadas. O espírito de Deus boiava sobre as águas.
Suava frio, mas prolongava a tortura que produziam as picadas das pulgas e a imobilidade. Afinal as picadas das pulgas e a imobilidade me distrairiam daqueles beijos e daqueles uivos. Outra vez o choro da criança, novamente a voz de d. Rosália, arreliada:
— Cala a boca, diabo!
O pranto continuava. Pisadas de pés descalços, palmadas, muxicões. A criança choramigava baixinho e aquietava-se. Novos passos abafados e um baque na cama, que rangia. O espírito de Deus boiava sobre as águas. Como estariam as minhas pernas? Cruzadas ou afastadas? Seria mais fácil saber como estavam as pernas de d. Rosália. O resfolegar prosseguia, resfolegar de porco fossando. Quantas horas aquilo duraria ainda? Seu Ivo, os discos da vitrola, Moisés, as botinas de Lobisomem, tudo inútil. Inúteis as picadas das pulgas. O homem calvo e moreno, com os olhos abotoados, fungava e arquejava, a baba escorrendo no beiço e umedecendo a pele seca de d. Rosália. Estava mesmo assim: os olhos arregalados, as ventas muito abertas; a boca pingando gosma, a cara barbuda arranhando e escovando o couro de d. Rosália. E aquela respiração estertorosa de bicho sufocado!
Sentava-me e acendia um cigarro. Perdido o sacrifício de permanecer imóvel, suportando as pulgas. Fechava as mãos com força. Estertor de bicho sufocado. O que eu desejava era apertar o pescoço do homem calvo e moreno, apertá-lo até que ele enrijasse e esfriasse. Lutaria e estrebucharia a princípio, depois seriam apenas convulsões, estremecimentos. Os meus dedos continuariam crispados, penetrando a carne que se imobilizaria, em silêncio. Este pensamento afugentava os outros. O espírito de Deus deixava de boiar sobre as águas. Uma criatura morrendo e esfriando, os meus dedos entrando na carne silenciosa. Não me lembrava de Julião Tavares. O que me aparecia na mente era o sujeito calvo e moreno que eu presumia ser o marido de d. Rosália e talvez nem fosse. Enfim desejava matar um homem que me roubava o sono.