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Julião Tavares

Foi por aquele tempo que Julião Tavares deu para aparecer aqui em casa. Lembram-se dele. Os jornais andaram a elogiá-lo, mas disseram mentira. Julião Tavares não tinha nenhuma das qualidades que lhe atribuíram. Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor. No relógio oficial, nos cafés e noutros lugares frequentados cumprimentava-me de longe, fingindo superioridade:

— Como vai, Silva?

À noite chegava-me a casa, empurrava a porta e, quando eu menos esperava, desembocava na sala de jantar, que, não sei se já disse, é o meu gabinete de trabalho. E lá vinham intimidades que me aborreciam. Linguagem arrevesada, muitos adjetivos, pensamento nenhum.

Conheci esse monstro numa festa de arte no Instituto Histórico. De quando em quando um cidadão se levantava e lia uma composição literária. Em seguida uma senhora abancava ao piano e tocava. Depois outra declamava. Aí chegava de novo a vez do homem, e assim por diante. Pelo meio da função um sujeito gordo assaltou a tribuna e gritou um discurso furioso e patriótico. Citou os coqueiros, as praias, o céu azul, os canais e outras preciosidades alagoanas, desceu e começou a bater palmas terríveis aos oradores, aos poetas e às cantoras que vieram depois dele. À saída deu-me um encontrão, segurou-me um braço e impediu que me despencasse pela escada abaixo. Desculpou-se por me haver empurrado, agradeci ter-me agarrado o braço e saímos juntos pela rua do Sol. Repetiu pouco mais ou menos o que tinha dito no discurso e afirmou que adorava o Brasil.

— Ah! Eu vi perfeitamente que o senhor é patriota.

Foi a conta.

— Quem o não é, meu amigo? Nesta hora trágica em que a sorte da nacionalidade está em jogo...

— Efetivamente - murmurei -, as coisas andam pretas.

Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo por alto a vida, o nome e as intenções do homem. Família rica. Tavares & Cia., negociantes de secos e molhados, donos de prédios, membros influentes da Associação Comercial, eram uns ratos. Quando eu passava pela rua do Comércio, via-os por detrás do balcão, dois sujeitos papudos, carrancudos, vestidos de linho pardo e absolutamente iguais. Esse Julião, literato e bacharel, filho de um deles, tinha os dentes miúdos, afiados, e devia ser um rato, como o pai. Reacionário e católico.

— Por disciplina, entende? Considero a religião um sustentáculo da ordem, uma necessidade social.

— Se o senhor permite...

E divergi dele, porque o achei horrivelmente antipático. Ouviu-me atento e mostrou desejo de saber o que eu era. Encolhi os ombros, olhei os quatro cantos, fiz um gesto vago, procurando no ar fragmentos da minha existência espalhada.

— Luís da Silva. Rua do Macena, número tanto. Prazer em conhecê-lo.

E meti-me no primeiro bonde que passou. Mas não consegui desembaraçar-me do homem. Dias depois fez­-me uma visita. Em seguida familiarizou-se. E era Luís para aqui, Luís para ali, elogios na tábua da venta, só com o fim de receber outros. Não tenho jeito para isso. Duas, três horas de chateação, que me deixavam enervado, besta, roendo as unhas.

Habituei-me a escrever, como já disse. Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos não prestam. Mas adquiri cedo o vício de ler romances e posso, com facilidade, arranjar um artigo, talvez um conto. Compus, no tempo da métrica e da rima, um livro de versos. Eram duzentos sonetos, aproximadamente. Não me foi possível publicá-los, e com a idade compreendi que não valiam nada. Em todo caso acompanharam-me por onde andei. Um dia, na pensão de d. Aurora, o meu vizinho Macedo começou a elogiar um desses sonetos, que por sinal era dos piores, e acabou oferecendo-me por ele cinquenta mil-réis. Nem foi preciso copiar: arranquei a folha do livro e recebi o dinheiro, depois de jurar que a coisa estava inédita. Macedo transigiu comigo umas vinte vezes. Infelizmente voltou para São Paulo sem concluir o curso. Desde então procuro avistar-me com moços ingênuos que me compram esses produtos. Antigamente eram estampados em revistas, mas agora figuram em semanários da roça, e vendo-os a dez mil-réis. O volume está reduzido a um caderno de cinquenta folhas amarelas e roídas pelos ratos.

Trabalho num jornal. À noite, dou um salto por lá, escrevo umas linhas. Os chefes políticos do interior brigam demais. Procuram-me, explicam os acontecimentos locais, e faço diatribes medonhas que, assinadas por eles, vão para a matéria paga. Ganho pela redação, e ganho uns tantos por cento pela publicação. Arrumo desaforos em quantidade, e para redigi-los necessito longas explicações, porque os matutos são confusos, e acontece-me defender sujeitos que deviam ser atacados. Além disso recebo de casas editoras de segunda ordem traduções feitas à pressa, livros idiotas, desses que Marina aprecia. Passo uma vista nisso, alinhavo notas ligeiras e vendo os volumes no sebo. Alguns rapazes vêm consultar-me:

— Fulano é bom escritor, Luís?

Quando não conheço Fulano, respondo sempre:

— É uma besta.

E os rapazes acreditam.

Ora, foi uma vida assim cheia de ocupações cacetes que Julião Tavares veio perturbar. Atravancou-me o caminho, obrigou-me a paradas constantes, buliu-me com os nervos.

Às vezes eu estava espremendo o miolo para obter uma coluna de amabilidades ou descomposturas. É o que sei fazer, alinhar adjetivos, doces ou amargos, em conformidade com a encomenda. Moisés entrava, puxava uma cadeira, sentava-se, abria o jornal. Vinha Pimentel, amarelo, triste, silencioso. Seu Ivo, bêbedo, acocorava-se a um canto e punha-se a babar, cochilando. Nenhuma dessas pessoas me incomodava. Trabalhava diante delas como se estivesse só, e ninguém me interrompia.

— Revolução na China - dizia Moisés.

Pimentel estirava o pescoço e enrugava a testa, farejando assunto. E lá vinham confusamente os chineses do telegrama. Seu Ivo queixava-se da carestia dos gêneros. Apertava o cinturão, bocejava, pedia comida. Eu dava respostas sem perceber direito as perguntas e sem interromper o trabalho. As frases iam pingando no papel, umas traziam as outras, e no fim lá estava aquela prosa medida, certinha, que me enjoava. Quando a expressão fugia ou as ideias se misturavam, acendia um cigarro. E, enquanto desanuviava a cabeça, punha os olhos distraídos na figura aniquilada de seu Ivo, que ali estava no canto da parede, babando-se, as pálpebras cerradas. As mãos eram dois calos escuros, os pés descalços eram patas achatadas.

Seu Ivo não mora em parte nenhuma. Conhece o Estado inteiro, julgo que viaja por todo o Nordeste. Entra nas casas sem se anunciar, como um cachorro, dirige-se às pessoas familiarmente, sempre a pedir comida. Passa alguns meses numa cidade, some-se de repente; aboleta-se nas povoações, nas fazendas, na capital. Frequenta as salas de jantar e as cozinhas. Quase não fala: balbucia frases ambíguas, aperreado, sempre na carraspana. Faz o que lhe mandam, recebe o que lhe dão, mas não agradece e não faz nada com jeito.

— Seu Luisinho, sinha Vitória, cadê a boia?

Se não lhe damos atenção, conversa com o gato, conversa com o papagaio, acaba mexendo nas panelas, furtando objetos miúdos que não utiliza.

Depois de um ano de ausência, pergunto-lhe:

— Como vai, seu Ivo?

Mas estou pensando noutra coisa.

— Ruim, tudo safado, seu Luisinho. A barriga tinindo.

E põe-se a chorar como um desgraçado. Continuo a construir mentalmente o período interrompido.

— Vá comer, seu Ivo. Vitória, um prato para seu Ivo.

O homem do Instituto atrapalhou-me a vida e separou-me dos meus amigos.

— Que diabo vem fazer este sujeito? - murmurei com raiva no dia em que Julião Tavares atravessou o corredor sem pedir licença e entrou na sala de jantar, vermelho e com modos de camarada.

Soltei a pena, Moisés dobrou o jornal, Pimentel roeu as unhas. E assim ficamos seis meses, roendo as unhas, o jornal dobrado, a pena suspensa, ouvindo opiniões muito diferentes das nossas. As de Moisés são francamente revolucionárias; as minhas são fragmentadas, instáveis e numerosas; Pimentel às vezes está comigo, outras vezes inclina-se para Moisés.

Raramente discutíamos. O judeu cansava-se em dissertações longas, que eu aprovava ou desaprovava com a cabeça. Acontecia aprovar agora e reprovar depois. Quando bebia, tornava-me loquaz e discordava de tudo, só por espírito de contradição:

— História! Esta porcaria não endireita. Revolução no Brasil! Conversa! Quem vai fazer revolução? Os operários? Espere por isso. Estão encolhidos, homem. E os camponeses votam com o governo, gostam do vigário.

O que eu queria era convencer-me de que não tinha razão. Desejava que Moisés estirasse argumentos e seu Ivo se revoltasse.

— Números. Nada de tapeação. Estatística.

O judeu falava em milhões de desempregados, em consciência de classe, voltava-se para seu Ivo, que não compreendia a língua dele:

— Não entendo. Vossemecês são brancos, lá se arrumem.

Eu gritava ao ouvido da criada:

— Ele diz que a gente não precisa de Deus. Nem de Deus nem de padres. Vai acabar tudo.

— Credo em cruz! - opinava a mulher.

E ia para a cozinha. Julgo que nunca se ocupou com assuntos referentes à alma. Rezava em voz alta. À noite sapecava o padre-nosso e a ave-maria, antes das somas. Agora dizia "Credo em cruz!" e ia preparar o café, ler os embarques e os desembarques, junto à gaiola do Currupaco. Seu Ivo metia os olhos gulosos pelos vidros do guarda-comidas:

— Seu Luisinho vai bem. Tanto pão! tanta carne!

Escancarava a boca, mostrava os dentes brancos, estirava os braços musculosos.

— Uma força perdida - dizia Moisés.

Talvez houvesse também alguma inteligência perdida por detrás daqueles olhos mortos pela cachaça. Um sujeito inútil, sujo, descontente, remendado, faminto.

O outro sujeito inútil que nos apareceu era muito diferente. Gordo, bem-vestido, perfumado e falador, tão falador que ficávamos enjoados com as lorotas dele. Não podíamos ser amigos. Em primeiro lugar o homem era bacharel, o que nos distanciava. Pimentel, forte na palavra escrita, anulava-se diante de Julião Tavares. Moisés, apesar de falar cinco línguas, emudecia. Eu, que viajei muito e sei que há doutores quartaus, metia também a viola no saco.

Além disso Julião Tavares tinha educação diferente da nossa. Vestia casaca, frequentava os bailes da Associação Comercial e era amável em demasia. Amabilidade toda na casca. Ouvi-o, na festa de aniversário de um figurão, conversar com uma sirigaita. Eu estava bebendo cerveja no jardim, e eles num caramanchão diziam besteiras horríveis. Como falavam alto, percebi claramente as palavras de Julião Tavares. Não tinham sentido. Como o discurso do Instituto Histórico.

Pois foram tolices assim que aquele tipo nos veio impingir. Horrível. Diante dele eu me sentia estúpido. Sorria, esfregava as mãos com esta covardia que a vida áspera me deu e não encontrava uma palavra para dizer. A minha linguagem é baixa, acanalhada. Às vezes sapeco palavrões obscenos. Não os adoto escrevendo por falta de hábito e porque os jornais não os publicariam, mas é a minha maneira ordinária de falar quando não estou na presença dos chefes. Com Moisés dá-se coisa semelhante. Apenas, se lhe acontece engasgar-se, recorre a locuções estrangeiras. As nossas conversas são naturais, não temos papas na língua. Abro um livro, fico alguns minutos fazendo cacoetes, de repente dou um grito:

— Que sujeito burro! Puta que o pariu! Isto é um cavalo.

Moisés toma o volume, lê uma página com atenção fungando:

— Tem coisas boas, tem ideias.

— Que ideia! Isto é um sendeiro, não sabe escrever.

Julião Tavares veio tomar impossíveis expansões assim. Dizia, referindo-se a um poeta morto:

— Era um grande espírito, um nobre espírito. Quanta emoção! Além disso conhecimento perfeito da língua. Artista privilegiado.

Filho de uma puta. Esse artista privilegiado aperreou-me durante semanas, tirou-me o apetite. Na repartição, no cinema, no jornal, no café, perseguia-me a lembrança da voz antipática:

— Um grande espírito, um nobre espírito. Emoção e conhecimento perfeito da língua.

Filho de uma puta. Não podia ser nosso amigo. Encontrava-me na rua:

— Como vai, Silva?

E ali, no outro lado da mesa, as pernas cruzadas, com a intenção de se demorar - sorrisos, patriotismo, a grandeza do poeta morto.

Comecei a odiar Julião Tavares. Farejava-o, percebia-o de longe, só pelo modo de empurrar a porta e atravessar o corredor.

— Canalha!

E rangia os dentes, arrumava os papéis tremendo de raiva. Tudo nele era postiço, tudo dos outros.

Se aquele patife tivesse chegado aqui naturalmente, eu não me zangaria. Se me tivesse encomendado e pago um artigo de elogio à firma Tavares & Cia., eu teria escrito o artigo. É isto. Pratiquei neste mundo muita safadeza. Para que dizer que não pratiquei safadezas? Se eu as pratiquei! É melhor botar a trouxa abaixo e contar a história direito. Teria escrito o artigo e recebido o dinheiro. O que não achava certo era ouvir Julião Tavares todos os dias afirmar, em linguagem pulha, que o Brasil é um mundo, os poetas alagoanos uns poetas enormes e Tavares pai, chefe da firma Tavares & Cia., um talento notável, porque juntou dinheiro. Essas coisas a gente diz no jornal, e nenhuma pessoa medianamente sensata liga importância a elas. Mas na sala de jantar, fumando, de perna traçada, é falta de vergonha. Francamente, é falta de vergonha.

— Boa tarde, d. Adélia. Como vai a senhora?

— Assim, assim - respondeu a mãe de Marina encostando-se à janela para esconder a saia encardida. - Hoje em dia quem é que vai bem?

Agora eu conhecia mais ou menos d. Adélia, falava com ela, parava na calçada às vezes: - "Bom dia, boa tarde, sim senhora, como tem passado?". Conhecia também o marido, seu Ramalho, sujeito calado, sério, asmático, eletricista da Nordeste. Não gostava de mim, provavelmente por causa das minhas palestras com a filha. Perturbava-nos:

— Marina, venha lavar os pratos. Marina, venha cuidar das panelas. Lugar de moça é a cozinha.

Ora se Marina lidava com pratos e panelas!

— Velho pau!

E continuava na prosa.

— Cuidado com o sereno, Marina.

— Se isto é coisa que se suporte!

Entrava dando muxoxos, arreliada.

Seu Ramalho era uma criatura seca por natureza e humilde por ofício. Tinha um sorriso franzido, um ombro alto e outro baixo. D. Adélia, bamba, a voz sumida, os olhos assustados, parecia viver escondendo-se. Agora estava resolvida a conversar. Seria a respeito do meu namoro com Marina? Suspirou, mexeu os beiços, tornou a suspirar:

— Tudo pela hora da morte, seu Luís.

— É verdade, tudo pela hora da morte, d. Adélia. A senhora já reparou nos preços dos remédios? A farmácia tem uma goela!

Adélia fez um gesto de desalento:

— Nem me fale. A gente não pode adoecer mais não, seu Luís.

Ficamos um instante calados, olhando a rua, constrangidos.

— Sim senhora, murmurei esfregando as mãos e sorrindo para o mulherão sardento.

— É isso mesmo, respondeu d. Adélia.

E, depois de um silêncio comprido, enrolando as mãos no babado da roupa:

— Para sustentar uma casa a gente torce a orelha.

Concordei com alvoroço:

— Torce, d. Adélia. Que dúvida! Depois do dia 20 é preciso que uma pessoa se tranque para encurtar a despesa. Porque na rua é o café, o bilhete de teatro, a subscrição. Um horror.

— E o mercado, seu Luís! Quer chova, quer faça sol, é ali no duro. Ninguém pode passar sem comer.

— Perfeitamente, d. Adélia. Ninguém pode passar sem comer. O pior é o aluguel da casa. O aluguel da casa, d. Adélia! Quanto paga a senhora pelo aluguel da casa?

— Cento e trinta mil-réis. Um roubo.

— Eu pago cento e vinte. Um roubo maior, que aquilo não é casa. Uns quartinhos escuros, sujos. E tanto buraco de rato como nunca se viu. Uns ratinhos miúdos, deste tamanho, não sei se a senhora conhece, danados para roer pano. Não tenho um lenço inteiro, tudo furado.

— Aqui é o mesmo - declarou d. Adélia.

Deu um suspiro que elevou o peito volumoso, curvou-se mais para fora:

— Ó seu Luís, eu queria pedir-lhe um favor. Faz uma semana que estou matutando e sem coragem. Hoje botei a vergonha de banda.

— Que é que há, d. Adélia?

D. Adélia reeditou o suspiro:

— Estive pensando... Se o senhor puder, ouviu? Pedir não é desonra. A gente faz das tripas coração. Necessidade tem cara de herege.

— Diga, d. Adélia.

A vizinha baixou mais a voz, que tremia, e o carão sardento ficou encarnado como o vestido de chita:

— É por causa da Marina. Assim desocupada, com as mãos abanando... Ela não é preguiçosa. Cose, borda, mas trabalho de mulher em casa não adianta. Gasta-se tempo sem fim num bordado e recebe-se uma ninharia. Se fosse possível arranjar um emprego para Marina...

Acendi um cigarro, pus-me a contar os paralelepípedos sem me animar a desiludir a vizinha.

— Dê uma penada por ela.

Coitado de mim.

— Difícil. É preciso pistolão.

— Eu sei - disse d. Adélia. - Foi por isso que me lembrei do senhor, que é bem relacionado. Só conhecemos o senhor.

— Mas d. Adélia - respondi aflito -, a senhora está enganada. Eu sou um infeliz, não tenho onde cair morto. Uma recomendação minha não serve. Mas vou tentar, ouviu?

Seu Ramalho dobrou o beco da usina elétrica e veio vindo, lento, negro de azeite e carvão.

— Boa tarde.

— Boa tarde, seu Ramalho. Como vai essa gordura? Estávamos falando sobre a carestia.

Seu Ramalho estirou o beiço:

— Cada dia vai ficando pior. É de fazer um cristão endoidecer. Ora, eu lhe conto.

Mas não contou nada. Costuma deixar as frases em meio.

— Pois é como lhe disse - murmurei. - Vamos ver. Que, para ser franco, nem sei se a Marina se ajeita. Ela sabe datilografia?

— Não sabe nada - atalhou seu Ramalho. - Você foi amolar o rapaz com peditórios, mulher? Eu não lhe tinha dito que não tocasse nisso?

— Que é que tem, seu Ramalho? Ela quer que a moça trabalhe. É natural.

— Trabalhar em quê, meu amigo? Só se for em pintar a cara, que é o que ela sabe fazer.

D. Adélia, vexada, continuava a enrolar os dedos trêmulos no vestido.

— Eu falei por falar. Se fosse possível. Um ordenadozinho que desse para a roupa. Não há tantas moças empregadas? Nos telefones, nos correios...

— São pessoas que sabem onde têm as ventas, criatura - interrompeu seu Ramalho. - Ou que arranjaram proteção. E sua filha entrou na escola e saiu como entrou. Ou as escolas não prestam ou ela é bruta demais. Emprego para roupa. Tem graça. Cinquenta mil-réis de sapatos todos os meses. Não há dinheiro que chegue.

— O senhor é duro, seu Ramalho - arrisquei.

— Pois sim - respondeu o homem arquejando por causa da asma. - É que vivo no toco, roendo um chifre.

Falava de cabeça baixa, os olhos no chão, os músculos da cara imóveis, a boca entreaberta, a voz branda, provavelmente pelo hábito de obedecer.

— Eu falei por falar - gaguejou d. Adélia caindo para uma banda, as banhas derramadas no parapeito da janela, onde fincava o cotovelo. - Foi, a menina com as mãos abanando...

Seu Ramalho acendeu o cachimbo e pôs-se a esgaravatar as unhas com o fósforo queimado:

— É isso. Eu aqui não sei nada. Todo mundo de rédea no pescoço. Casa de Gonçalo. As mulheres mandam, e o corno velho é o último que tem conhecimento das coisas.

Antônia, a criada de d. Rosália, passou bamboleando-se, foi até a esquina da rua Augusta e esteve algum tempo conversando com um soldado de polícia. Voltou, sempre se rebolando e com as pernas abertas.

É uma criatura ingênua, meio selvagem. Acredita em tudo quanto lhe dizem e tem grande necessidade de machos. Quando pega um, entrega-se inteiramente. Não escolhe, é uma rede.

Todas as tardes, findo o serviço, arruma a louça, veste os trapos melhores, calça os sapatos de verniz e sai. Se arranja algum dinheiro, deixa o emprego e amiga-se. Erra sempre. Gasta as economias, volta ao trabalho, vai acumu­lar novo pecúlio para sustentar novos amantes, novas decepções. É doida pelas crianças: passa o dia gritando, brincando com elas. Mas à noite esquece tudo e corre para a crápula. D. Rosália atura-a por causa dos filhos. Quando lhe faz as contas, diz numa voz áspera que ouço perfeitamente na sala de jantar:

— Pegue o seu ordenado, Antônia, e suma-se, não torne a aparecer aqui.

Antônia recebe o salário, entrouxa os cacarecos, beija as crianças e sai cantando, certa de que encontrou um homem. Volta faminta, com marcas novas de feridas.

— Tu acabas no hospital, Antônia.

Mas as crianças fazem um berreiro feio - e Antônia fica.

A presença dessa criatura vagabunda e galicada traz-me sentimentos bons.

— Como vai, Antônia?

A cabocla respondeu descerrando os beiços grossos e mostrando os dentes largos num sorriso infantil. Seu Ramalho não a viu: estava de cabeça baixa, monologando, remexendo a cinza do cachimbo com o fósforo. D. Adélia continuava encalistrada, bicuda, machucando o vestido. Senti-me leve, quase alegre, e espantei-me de ver aquelas caras fúnebres.

— Isso não tem importância. Procurando bem... Há muitas por aí cavando a vida. Vamos ver se arranjamos alguma coisa, d. Adélia. Vamos ver. Depois lhe digo.

— História - murmurou seu Ramalho com desânimo. - Aquela não dá para nada. O homem que casar com ela faz negócio ruim.

Como era grande o calor, abri a janela do quintal. Uma ba­forada de ar quente bateu-me no rosto. Debrucei-me e distraí-me acompanhando com a vista os movimentos da mulher que lava garrafas. O gato pulou de um galho da mangueira, saltou o muro, trepou num monte de lixo e cacos de vidro. O homem triste andava entre as pipas, debaixo do telheiro, a encher dornas.

Que estaria fazendo Marina? Pensei em d. Mercedes. Vida bem sossegada a dessa galega. Um sem-vergonha o figurão que a sustentava, um caloteiro: devia os cabelos da cabeça e dava festas, punha automóveis à disposição da amásia. Como diabo podia um macho gostar daquela tipa de carnes bambas?

— Ladrões, velhacos, porcos!

Bati a janela com força. Depois voltei a abri-la. A mulher magra, de cócoras, a saia entalada entre as pernas, continuava a lavar garrafas. O homem triste passeava entre as pipas.

Com certeza a minha vizinha àquela hora pintava as unhas. Indignei-me:

— Ó Vitória, por que não varre esta casa direito? Cisco por toda parte, montes de cisco. Tudo cheio de poeira.

Vitória não percebeu a repreensão. Agarrei uma toalha e esfreguei com ela o guarda-louça:

— Porcaria!

Peguei um livro, abri a porta e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de d. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas, devia nas mercearias, devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe. Os credores miúdos deixavam-se esfolar com medo; os grandes sangravam por conveniência: tinham interesses, arranjavam o que queriam. E um safado como aquele era troço no Estado. Que desgraça!

Deitei-me na espreguiçadeira, acendi um cigarro, abri o livro e comecei a ler maquinalmente. De quando em quando bocejava, suspendia a leitura incompreensível.

O jardim, que a antiga inquilina vinha regar todas as manhãs, estava sujo, maltratado, coberto de garranchos e folhas secas.

Soltei o livro e fechei os olhos, aborrecido. Mas os olhos não ficaram bem fechados: através das pálpebras meio cerradas distinguiam-se as coisas que estavam perto do chão, dez ou quinze metros em redor - o tronco do mamoeiro, o monte de lixo, as florinhas desbotadas. D. Adélia, no banheiro, lavava roupa, e a água espumosa corria de lá, vinha estagnar-se numa poça junto à cerca.

Se aquela tonta prestasse, estaria ajudando a mãe, ensaboando panos. Preguiça. Estava era lendo besteiras, arrancando cabelos das sobrancelhas com a pinça ou raspando os sovacos. A princípio ainda tratara dos canteiros. Habituara-se depois a levar para ali um romance, que não abria. Conversava. E eu me zangava com as conversas dela, que, como já disse, eram malucas. Zangava-me de verdade. Mas estava ali com os olhos meio fechados, espiando os canteiros e esperando que a mulherinha chegasse.

Fazia uma semana que eu andava cavando uma colocação para ela. Arranjar emprego, como não ignoram, é dificuldade. As pessoas a que a gente se dirige sorriem. Tudo fácil, às ordens, perfeitamente. Escutam as choradeiras com paciência e escrevem cartões a outras pessoas. Estas escrevem outros cartões, e assim por diante. Cada um se desaperta. Eu falara ao diretor da minha repartição:

— Doutor, tenho uma vizinha que faz pena, moça prendada. Mata-se para ajudar a família, mas, como sabe, trabalho de mulher em casa não rende. Se o senhor pudesse, com a sua influência...

O diretor respondera distraído:

— Está bem. Vamos ver.

Noutras repartições, a mesma história com pequenas variantes:

— Moça decente, instruída, matando-se para auxiliar a família. Um modelo. A mãe doente...

Enfim uma cambada de mentiras inúteis. Nos bancos:

— Moça digna, alguns conhecimentos de escrituração mercantil e de aritmética.

Nos armazéns:

— Muito preparo, muita leitura, excelente calculista. Podia encarregar-se da correspondência.

Nas redações:

— Ó Fulano, você não me arranja aí na expedição qualquer coisa para uma moça que eu conheço? Um osso, uma sinecura que justifique dois ou três vales por mês.

Afinal fora encontrar para Marina um emprego de cem mil-réis numa loja de fazendas. E ali estava espiando o quintal com o rabo do olho.

Chape, chape, chape. Era o vascolejar da água nas garrafas. Líquido se derramava: o homem triste enchia dornas. D. Adélia tossia no banheiro, espremendo roupa. E Vitória, na cozinha, cantava: - "Currupaco, papaco. A mulher do macaco... ". Um galo no galinheiro pôs-se a arrastar a asa a uma franga. Eu estava fazendo ali a mesma coisa, apenas com mais habilidade e mais demora. A franga não aparecia. Quem se ligasse a ela faria negócio mau, seu Ramalho tinha razão. Se ele, que era pai, sustentava opinião assim, imaginem. Sovaco raspado, unhas cor de sangue e sobrancelhas que eram dois traços. Mulher pelada. Para que diabo uma pessoa arrancar as sobrancelhas?

De repente a franguinha surgiu dentro do meu reduzido campo de observação. Como disse, eu apenas enxergava uns dez ou quinze metros do jardim. Primeiramente distingui as biqueiras vermelhas de uns sapatos, aqueles sapatos que, segundo a declaração de seu Ramalho, custavam cinquenta mil-réis e duravam um mês. Para ir ao quintal, sapato de sair e meia de seda esticada no pernão bem-feito. Ótimas pernas. As coxas e as nádegas, apertadas na saia estreita, estavam com vontade de rebentar as costuras.

Talvez a franguinha tivesse percebido que eu fingia dormir: pôs-se a ciscar por ali, rindo baixinho, avançando, recuando, mostrando-se pela frente e pela retaguarda. Eu respirava com dificuldade e pensava nas lições de geografia de seu Antônio Justino: - "Primeiro desaparece o casco, depois os mastros". Era o contrário que se dava agora: quando Marina se afastava, desaparecia em primeiro lugar a parte superior do corpo, isto é, a cintura, pois a cabeça e o tronco estavam fora do meu campo de observação.

Voltava-me as costas:

— Chi, chi, chi.

Um riso semelhante a um cochicho. Curvava-se para a frente: a cintura fina sumia-se, os quadris aumentavam. O pano marcava-lhe a separação das nádegas. Um passo, outro passo. As ancas morriam, agora eram as coxas grossas. Outro passo: uma ruga na meia cor de creme mostrava a articulação da coxa com a perna. E a perna cheia ia adelgaçando até findar num jarrete fino encastoado no tacão vermelho do sapato.

— Chi, chi, chi.

O cochicho risonho afastava-se, chegava-me aos ouvidos como o chiar de um rato. Chiar de rato, exatamente. Chiar de rato ou carne assada na grelha. Parecia-me que aquilo estava chiando dentro de mim, que a minha carne se assava e chiava. Os tacões vermelhos viravam-se para o outro lado. As biqueiras surgiam e avançavam. Lá vinham pedaços de canelas. As mãos puxavam a saia para trás, distinguiam-se os joelhos e as coxas. Como vinha curvada para a frente, a barriga desaparecia.

— Chi, chi, chi.

O rato roía-me por dentro. Senti cheiro de carne assada. Não, cheiro de fêmea, o mesmo cheiro que antigamente me perseguia, em meses de quebradeira. - "D. Aurora, veja se me arranja um quarto mais barato. Os tempos andam safados, d. Aurora."

As pernas de Berta eram assim bem torneadas. Apenas as de Berta eram nuas, tudo em Berta era nu.

— Chi, chi, chi.

Lá estavam novamente os quadris expostos. Para que aqueles panos? Gritei interiormente. Não era melhor que se descobrisse tudo? Coxas descobertas, rabo descoberto.

Foi assim que vi Marina entre as pestanas meio cerradas, como Berta me aparecia. As nádegas cresciam monstruosamente - e eu mal podia respirar. Se d. Adélia e Vitória viessem ali, veriam aquela armada: Marina despida, curvada para a frente, mostrando um traseiro enorme.

Tolice. D. Adélia, fria, com o pensamento distante de coisas assim, espremia camisas molhadas no banheiro. E Vitória conversava com o Currupaco, o vivente que ela estima e não lhe provoca imagens indecentes.

Chape, chape, chape. A mulher magra não acabava de lavar garrafas. A torneira derramava líquido na dorna. Ouvia-se perfeitamente. A princípio chegava-me um som confuso. Agora, porém, os sentidos irritados percebiam tudo. O chape-chape da mulher, o rumor do líquido, pregões de vendedores ambulantes, rolar de automóveis, a correria dos filhos de d. Rosália no quintal próximo, o cheiro das flores, dos monturos, da água estagnada, da carne de Marina, entravam-me no corpo violentamente. Apertei as pálpebras. A poça de água, os canteiros mofinos, o monte de lixo, sumiram-se. O que eu via bem eram os quartos brancos de Marina curvada, as coxas brancas.

— Chi, chi, chi.

Devia estar um pouco afastada, mostrando apenas os tacões ou as biqueiras dos sapatos. Mais perto, mais perto, o cheiro mais vivo, o chichichi mais perceptível - e eu sentia uma espécie de desmaio com aquela aproximação. O livro caiu, cruzei as pernas, sentei-me, vi Marina em pé junto da cerca, rindo como uma doida:

— Puxa! Que olhos abotoados! Parece que vai ter uma congestão.

Eu devia estar ridículo. Baixei a cara, com vergonha, e pus-me a esfregar as pálpebras, a agitar a cabeça para espalhar as ruindades que havia dentro dela. Quando terminei a esfregação, Marina continuava no mesmo lugar, exibindo os dentinhos, com tanta malícia no rosto que fiquei besta, acuado. Felizmente podia vê-la da barriga para cima.

— Cara de mal-assombrado - pilheriou Marina. - Sonhou com alma do outro mundo?

A visão obscena e os desejos lúbricos esmoreceram.

— Sonhei nada!

Estava num entorpecimento estúpido. Tive a impressão extravagante de que o ar havia tomado de repente a consistência mole e pegajosa de goma-arábica. Nesse ambiente gelatinoso Marina se movia, nadava, desesperadamente bonita, o peitinho redondo subindo e descendo, a querer saltar pelo decote baixo, pimenta nos olhos azuis, os cabelos de fogo desmanchando-se ao vento morno e empestado que soprava dos quintais. Veio-me o pensamento maluco de que tinham dividido Marina. Serrada viva, como se fazia antigamente. Esta ideia absurda e sanguinária deu-me grande satisfação. Nádegas e pernas para um lado, cabeça e tronco para outro. A parte inferior mexia-se como um rabo de lagartixa cortado. Mas eu não reparava na parte inferior, que tanto me perturbara: recebia as faíscas dos olhos azuis e desejava enxugar com beijos a saliva que umedecia os beiços um pouco grossos da minha amiga. Estava linda. Tinha corrido por ali alguns minutos como um rato, chiando. Eu era um gato ordinário. Podia saltar em cima dela e abocanhá-la: ao pé das estacas podres que Vitória remove todos os meses, desafiava-me com os olhos e com os dentes miúdos. Não saltei. O que fiz foi arranjar uma carranca séria, que devia ser burlesca, porque Marina soltou uma gargalhada.

— Marina - grunhi -, sua mãe não lhe falou?

— Sobre quê?

— Sobre uma colocação. Uma colocação para você. Sim, é bom uma pessoa pensar no futuro. Vocês não conversaram?

— Não.

— Ah! Pensei que tivessem conversado. Pois é. Sua mãe me falou e eu andei por aí martelando. Fiz o que pude.

Marina tinha agora o rosto comprido e uma ruga entre as sobrancelhas:

— Parece que minha mãe está com pena do bocado que me dá.

— Não diga isso, criatura. É para o seu bem.

D. Adélia saiu do banheiro com uma bacia de roupa molhada, que ia enxugar lá dentro, a ferro.

— Boa noite, gritou de longe.

E entrou logo. Ia escurecendo, e aquele boa-noite era uma espécie de censura, que ela não fazia claramente porque tinha medo da filha.

— Está aí, Marina. A pobre a esta hora lavando roupa!

Marina, em silêncio, quebrava torrões com o salto do sapato.

— Você me desculpa a franqueza. Eu não devia estar dando opinião sobre sua casa. É porque lhe tenho muita amizade. Por isso andei pedindo por aí.

— Encontrou alguma coisa? - perguntou Marina sem entusiasmo.

— Encontrei. Para bem dizer, não encontrei coisa boa não. Emprego público não há. Tudo fechado, tudo escuro. Enfim sempre achei um gancho.

— Onde é?

— Numa loja. Cem mil-réis por mês. Um princípio. Depois a gente cava serviço mais fácil e mais rendoso. O que é preciso é começar.

— Numa loja? - disse Marina com um risinho mau. - Obrigação de aturar pilhérias e até descomposturas dos fregueses. E beliscões dos empregados. Muito bom.

— Oh! Marina!

— Julgo que minha mãe está com intenção de me ver na rua. E você também está.

— Oh! Marina! Que horror! Se você não quer, acabou-se. Meti-me nisso porque sua mãe me pediu, compreende? E porque lhe quero muito bem.

Marina sensibilizou-se. Os olhos aguaram-se, o beicinho tremeu:

— Obrigada, Luís.

E estirou a mão. Levantei-me, tomei-lhe os dedos. O contato da pele quente deu-me tremuras, acendeu os desejos brutais que tinham esmorecido. Olhando-a de cima para baixo, via-lhe os seios, que subiam e desciam, as coxas, a curva dos quadris. Veio-me a tentação de rasgar-lhe a saia. E repetia como um demente:

— É porque lhe quero muito bem, Marina.

Apertei-lhe a mão, mordi-a, mordi o pulso e o braço. Marina, pálida, só fazia perguntar:

— Que é isso, Luís? Que doidice é essa?

Mas não se afastava. Desloquei as estacas podres, puxei Marina para junto de mim, abracei-a, beijei-lhe a boca, o colo. Enquanto fazia isto, as minhas mãos percorriam-lhe o corpo. Quando nos separamos, ficamos comendo-nos com os olhos, tremendo. Tudo em redor girava. E Marina estava tão perturbada que se esqueceu de recolher um peito que havia escapado da roupa. Eu queria mordê-lo e receava ao mesmo tempo que d. Adélia nos surpreendesse, encontrasse a filha descomposta.

— Meu Deus! - exclamou Marina sobressaltada.

E virou-se rapidamente. Quando tornou a mostrar o rosto, o peito havia desaparecido.

— Que foi que nós fizemos, Luís?

E começou a choramigar. A comoção dela me trouxe alguma vaidade, um pouco de arrependimento e quase a certeza de que nunca ninguém lhe havia tocado nos peitos. Apesar da admiração idiota que Marina tinha a d. Mercedes, tomei aqueles soluços como prova de inocência.

— Que foi que nós fizemos, Luís?

A cantilena chorosa arrasava-me os nervos. Cocei a testa, agoniado:

— É o diabo, Marina. Ninguém tem culpa. Foi uma topada. E agora é continuar. Qualquer dia a gente casa. É verdade, precisamos tratar disso. Você que acha?

Concordou passivamente, numa sílaba:

— É.

Esta anuência chocha me desorientou. Várias vezes tinha pensado em amarrar-me a ela, e nunca me passara pela cabeça a ideia de que a minha amiga hesitasse. Mordi os beiços, despeitado:

— Falei nisto porque pensei... Compreende. Sim, perfeitamente. Enfim você é quem sabe.

— Marina! - gritou lá de dentro seu Ramalho. - Cuidado com o sereno.

— Está certo - disse Marina rapidamente. - Velho pau. Se você acha que deve ser... Adeus.

— Adeus, Marina. Outra coisa. Vamos deixar de besteira. Por que é que a gente não se encontra aqui no escuro, meia-noite, quando estiverem dormindo? Valeu? Dá cá um beijo.

— Venha lavar os pratos, Marina.

— Já vou.

E escapuliu-se correndo. Sentei-me na espreguiçadeira, apanhei o livro:

— É uma dos diabos. Eu queria dar a ela alguma independência. Acabou-se. Gosto da pequena, amarro uma pedra no pescoço e mergulho.

Defronte da minha casa veio morar uma família esquisita, que não se relacionou com a vizinhança: um velho barbudo, encolhido, e três moças amarelas, sujas, malvestidas, ruivas e arrepiadas. O homem, de nome ignorado, andava olhando os pés, carrancudo, e não cumprimentava ninguém. Às vezes surgia a figura de uma das moças à janela; mas se alguém aparecia na rua, o postigo se fechava silenciosamente.

— Eu queria saber que espécie de gente é aquela - resmungava d. Adélia. - Só bicho.

— É mesmo, d. Adélia - concordava Antônia. - Tudo entocado. Só bicho.

Seu Ivo procurou entrar na toca, bateu, pediu comida: não teve resposta. Um dia d. Mercedes atracou-me na passagem:

— O senhor não me dirá que mistério é esse?

— E eu sei? Minha senhora.

— De que viverão eles? - perguntava d. Adélia.

Seu Ramalho explicava:

— Cada qual tem os seus ganchos.

— É exato - confirmava d. Adélia.

Enquanto a criada andava em busca de machos, d. Rosália esquecia os meninos e ficava horas ganhando calos nos cotovelos, o olho pregado na casa da família esquisita:

— Que vida! Uma pessoa assim cria mofo. Nem vão à igreja.

— Talvez sejam protestantes - comentava seu Ramalho.

— Com certeza. Devem ser bodes.

Até Marina fervia de curiosidade:

— Luís, descubra isso, meu filho.

De repente começaram a circular boatos feios: as moças eram filhas e amantes do velho.

— Que horror! Logo três!

— É por isso que ele anda capiongo. São remorsos.

— Provavelmente.

— Eu queria que me dissessem como se soube.

— Ora como se soube! Sabe-se tudo.

— Mas quem viu?

O carvoeiro tinha visto o homem abotoado a uma das sujeitas, no quarto. Porcaria. Nem fechavam a porta. D. Mercedes resumiu o caso:

— É verdade.

— O carvoeiro lhe contou, d. Mercedes?

— Não, foi outra pessoa. Na cidade onde eles moravam todo mundo falava. Foi o que me disseram. Sei de fonte limpa.

Quem teria dito? Com certeza a personagem graúda que vivia com ela.

— Estão ouvindo? D. Mercedes garantiu.

— Até dá engulhos - exclamou Antônia cuspindo. - Comer três filhas! Que lobisomem!

Daí em diante o velho se chamou Lobisomem.

— Parece que Lobisomem amanheceu doente. Não saiu hoje.

— São pecados.

As crianças de d. Rosália contavam histórias de lobisomens, e o herói delas era o vizinho. A notícia chegou aos ouvidos de Julião Tavares:

— Diz que um velho por aqui destambocou as filhas? Como é?

— Calúnias - respondeu Moisés.

— Em todo caso é bom verificar isso. Talvez a gente pudesse agarrar uma.

Cachorro! Lobisomem continuava como tinha chegado, indiferente, a cara enferrujada, tão distraído que esbarrava com as pessoas, e os choferes paravam os autos violentamente para não atropelá-lo. E as filhas, coitadas, amarelas, feias, nem se penteavam. Saberiam alguma coisa? Talvez não soubessem. Ao mudar-se para ali, certamente já traziam uma carga de infelicidades. E era possível que houvessem percebido fragmentos de horrores, gestos de desprezo, pilhérias ladradas na rua. Pobre do Lobisomem! Não tinha hora para sair, hora para chegar. Sempre só. Nem um guarda­-chuva, nem uma bengala, trastes necessários a homem tão curvado. Ora para um lado, ora para outro, sem destino. Que vida! Nem um hábito. Esta ideia de uma pessoa viver sem hábitos era para mim extremamente dolorosa. Apesar de haver atravessado uma existência horrível, sempre encontrara nela, mesmo nos tempos mais duros, ocupações que me entretinham. Comparava-me a Lobisomem. Eu era quase feliz, e a comparação me atenazava.

Marina tinha deixado de ver-me à tarde, mas todas as noites a gente se reunia no fundo do quintal. Ela passava pelo buraco da cerca, encostava-se ao tronco da mangueira, e eram beijos, amolegações que nos enervavam.

— Vamos entrar, descansar um bocado, Marina. Já que chegou aqui, dê mais uns passos.

— Você está maluco? Eu vou dar o fora. Qualquer dia a gente mete o rabo na ratoeira. Os velhos descobrem tudo, estrilam, e é um fuzuê da desgraça.

— Deixa disso, Marina, vamos lá para dentro.

— Good-bye.

— Vem cá, Marina.

— Vai-te embora, lobisomem.

Até ali, àquela hora, surgia o nome do vizinho. O que mais me aborrecia era não saber se as pessoas que falavam dele acreditavam na história suja. Enchia-me de raiva por não conseguir livrar-me dos fuxicos. Desprezava involuntariamente o desgraçado Lobisomem. Se aquilo fosse verdade? Não tinha verossimilhança, era aleive, disparate. Mas tanta gente repetindo as mesmas palavras... E casos iguais já se tinham visto.

— Besteira. Perdendo tempo com bobagens. Para o inferno.

Realmente a cara de Lobisomem não inspirava simpatia. E as filhas, de boca aberta, brancas, enroscadas, mo­les... Gente suspeita. Estas dúvidas eram terríveis. Aga­r­rava­-me ao judeu para libertar-me delas:

— Isto é o diabo. Uma criatura inofensiva, uma criatura parada!

— Safadeza - dizia Moisés tranquilamente.

— Infâmia. Esta canalha precisa chicote.

— Pois não fale nisso, homem. Para que mexer em porcaria?

— Não é tanto assim - intervinha Julião Tavares. - O incesto é natural, explica-se.

— Lá vem pedantismo.

E não prestava atenção à conversa de Julião Tavares. Lembrava-me de outro indivíduo infeliz, um sertanejo que vi há muitos anos, quando ele saía da prisão depois de cumprir sentença. Era um cearense esfomeado que tinha aparecido na vila em tempo de seca. Esmolambado, cheio de feridas, trazia escanchada no pescoço uma filhinha de quatro anos. Tinham ido morar na rua das putas e viviam de esmolas. Um dia as vizinhas ouviram gritos na casinha de palha e taipa que eles ocupavam. Juntaram-se curiosos, olharam por um buraco da parede e viram o homem na esteira, nu, abrindo à força as pernas da filha nua, ensanguentada. Arrombaram a porta, passaram o homem na embira, deram-lhe pancada de criar bicho - e ele confessou, debaixo do zinco, meio morto, que tinha estuprado a menina. Processo, condenação no júri. Anos depois os médicos examinaram a pequena: estava inteirinha. O que havia era sujidade e um corrimento. Tratando a doença da filha com remédios brutos da medicina sertaneja, o homem tinha sido preso, espancado, julgado e condenado.

— Está ouvindo, seu Moisés? Cipó de boi, facão e pé no tronco.

Moisés inflamava-se. Julião Tavares bocejava:

— Natural. A justiça não é infalível.

— Marina, a gente deve acabar com isto, minha filha. Vamos para dentro.

— Vou nada!

Torcia o corpo, defendia a virgindade com unhas e dentes.

— Está direito. Então é melhor apressar o casório.

— Com que roupa? - disse Marina.

— Que é que falta?

— Tudo. Eu sou uma noiva pelada, meu filho.

Impacientei-me:

— Ora! Ora! Ora! Entre nós não há cerimônia. Arranja-se. Eu tenho umas economias, pouco, mas tenho. Também você não precisa de muita coisa. Umas fronhas, umas camisas...

Como veem, eu tinha boa vontade. O que receava era transformar as nossas relações, miúdas, num acontecimento social importante.

Aquilo viera pouco a pouco, sem a gente sentir. Naturalmente gastei meses construindo esta Marina que vive dentro de mim, que é diferente da outra, mas se confunde com ela. Antes de eu conhecer a mocinha dos cabelos de fogo, ela me aparecia dividida numa grande quantidade de pedaços de mulher, e às vezes os pedaços não se combinavam bem, davam-me a impressão de que a vizinha estava desconjuntada. Agora mesmo temo deixar aqui uma sucessão de peças e de qualidades: nádegas, coxas, olhos, braços, inquietação, vivacidade, amor ao luxo, quentura, admiração a d. Mercedes. Foi difícil reunir essas coisas e muitas outras, formar com elas a máquina que ia encontrar-me à noite, ao pé da mangueira. Preguiçosa, ingrata, leviana. Os defeitos, porém, só me pareceram censuráveis no começo das nossas relações. Logo que se juntaram para formar com o resto uma criatura completa, achei-os naturais, e não poderia imaginar Marina sem eles, como não a poderia imaginar sem corpo. Além disso ela era meiga, muito limpa. Asseio, cuidado excessivo com as mãos. Passava uma hora no banheiro, e a roupa branca que vestia cheirava. Nos nossos momentos de intimidade eu sentia às vezes uma tentação maluca: baixava-me, agarrava-lhe a orla da camisa, beijava-a, mordia-a. Isto me dava um prazer muito vivo.

— O pior é que você ainda não me pediu - gemeu Marina.

E fingiu-se amuada. Liguei pouca importância ao amuo, mas fiquei remoendo aquela ideia desagradável de explicar­-me aos outros sobre coisas que só eram interessantes para nós. Explicações horríveis. Necessário entender-me com seu Ramalho, pedir o consentimento dele, dizer besteiras. Ia escrever-lhe uma carta com laços sagrados, felicidade conjugal, himeneu. Infâmia. Só a ideia de escrever isto me dava náuseas. Intenções puras. E era preciso comprar móveis, trastes de cozinha, cortinas para janelas, almofadas. Intenções puras. Domingo, na missa, o padre leria: - "Querem casar-se Luís Pereira da Silva, com trinta e cinco anos etc. etc., e Marina Ramalho, etc. etc.". Luís Pereira da Silva, com trinta e cinco anos, estava longe da igreja e dos banhos. Que necessidade tinha Luís Pereira da Silva daquela verbiagem? Depois os cartões de comunicação, grandes, com letras douradas, aos colegas da repartição, aos conhecidos, às amigas de Marina, ao padrinho, oficial do exército. Indispensável um cartão ao padrinho, que era oficial do exército e servia em Mato Grosso. Alguém me mandaria um telegrama. Intenções puras. Marina dá grande valor aos telegramas.

— Peço amanhã - murmurei compondo mentalmente as frases bestas da carta. - Falo amanhã. Ou escrevo.

Mão de esposo, união conjugal, intenções puras - Marina gosta disto. Provavelmente iria recortar e guardar com cuidado a notícia que o jornal publicaria na sétima página, junto aos versos. Em pé, diante do livro aberto, o juiz me perguntaria: - "O senhor Luís da Silva quer casar com d. Marina Ramalho?". Eu, encabulado, mastigaria uma sílaba, esfregando as mãos. Marina, de roupa branca e flores de laranjeira, afirmaria com a cabeça, pálida e comovida. O diretor me diria: - "Entrou no rol dos homens sérios, seu Luís". D. Adélia choraria abraçada à filha, como é de costume. Os sapatos me apertariam os calos, e o telegrama seria pouco mais ou menos assim: "Felicitações ao prezado amigo". Automóveis da casa para a igreja e da igreja para a casa. Haveria na minha sala alguns troços novos e inúteis. À noite, quando eu fosse procurar em minha mulher as últimas novidades, ela me falaria com entusiasmo naquela glória toda. No dia seguinte d. Rosália se penduraria à janela para gritar: - "Estava muito bonita a sua grinalda, minha negra". Quanto iriam custar tantas maçadas? Talvez os três contos de réis voassem.

— É o diabo, Marina. Vamos ver se arranjamos isto com simplicidade.

No outro dia retirei quinhentos mil-réis do banco e fui à casa vizinha:

— Ó d. Adélia, faça o favor de chamar a Marina.

E, enquanto esperava:

— Ela contou à senhora, não contou? Pois é. Parece que o mês vindouro a gente se engancha. Tenha a bondade de explicar isto a seu Ramalho. Ele já sabe, não?

D. Adélia embrenhou-se em circunlóquios para dizer que o marido sabia e não sabia. Sabia que eu gostava da menina. Isto se via perfeitamente. Agora ir para a igreja assim tão depressa era surpresa.

Marina se vestia num quarto próximo, topando nos móveis, derrubando as coisas.

— É isto, d. Adélia. Quem tem de se empenhar que se venda logo. A senhora não acha? Explique a seu Ramalho. Esse negócio de pedido de casamento é muito pau, não tenho jeito. Apareça, Marina.

— Um minuto - respondeu a minha amiga mostrando um pedaço da cara pela porta entreaberta. - Estou acabando de me calçar.

— Está nada! Está pintando os beiços. Essa sua filha é uma pintura, d. Adélia.

Sem saber se aquilo era elogio ou censura, d. Adélia sorriu vexada e justificou Marina:

— É a mocidade.

Meti a mão no bolso para tirar os quinhentos mil-réis, acanhei-me. Tirei um cigarro, que machuquei olhando as figuras das paredes:

— A senhora tem um Coração de Jesus muito bonito.

Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra de cipó e tão bem-vestida como se fosse para uma festa. Ao pegar-me a mão, ficou agarrada, os dedos contraídos, o braço estirado, mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela janela. Isto me dava a impressão de que o meu braço havia crescido enormemente. Na extremidade dele um formigueiro em rebuliço tinha tomado subitamente a conformação de um corpo de mulher. As formigas iam e vinham, entravam-me pelos dedos, pela palma e pelas costas da mão, corriam-me por baixo da pele, e eram ferroadas medonhas, eu estava cheio de calombos envenenados. Não distinguia os movimentos desses bichinhos insignificantes que formavam o peito, a cara, as coxas e as nádegas de Marina, mas sentia as picadas - e tinha provavelmente os olhos acesos e esbugalhados. Com uma sacudidela, desembaracei-me da garra que me prendia e tornei-me um sujeito razoável:

— Estávamos combinando, Marina. Quanto mais depressa melhor, foi o que eu disse a d. Adélia. Gente pobre não tem luxo.

— É preciso fazer as coisas com decência - opinou Marina.

— Claro. Mas com modéstia. Não é, d. Adélia? Dispensa-se o véu. Para que véu? Eu por mim casava hoje.

Marina escandalizou-se, trombuda. E d. Adélia, mexendo-se aflita na cadeira, que rangia sob as banhas excessivas, baixava os olhos, escondia as mãos papudas debaixo do avental, dava razão a mim, dava razão à filha, num desconchavo:

— É mesmo, seu Luís, gente pobre não tem luxo. Com decência, e então? Antigamente um noivado era serviço. Preparar a roupa branca, bordar a colcha, que trabalhão! Tarefa para meses. Hoje em dia, na máquina, vuco, vuco, vuco, num instante se borda uma colcha.

— A gente podia passar sem a colcha bordada.

— Isso é casamento de cambembe - disse Marina.

D. Adélia, com os olhos suplicantes, pedia silêncio.

— A propósito de roupa branca, d. Adélia...

Calei-me, com vergonha de oferecer os quinhentos mil-réis. O mulherão suspirou:

— No meu tempo de moça um pedido de casamento era coisa muito séria.

Agora eu estava ali conversando sobre lençóis.

— A propósito de roupa branca, d. Adélia, estive pensando... Até falei com a Marina, provavelmente ela disse à senhora. Para abreviar, compreende?

Compreendia.

— Cedo ou tarde eu havia de comprar esses panos. Para que etiqueta? Por isso me lembrei de propor a Marina... A senhora não leva a mal, suponho.

Não levava:

— Quando duas pessoas se entendem...

— Pois é. Uma espécie de adiantamento. É tirar de uma mão e botar na outra. Fica tudo em casa.

Entreguei a Marina a pelega de quinhentos:

— Está aqui, minha filha. Comece os arranjos. E adeus, que não quero perder o ponto.

Marina recebeu o dinheiro sem constrangimento, e eu me sensibilizei julgando que ela procedia assim por estar identificada comigo. Fiz-lhe algumas recomendações miúdas e retirei-me.

A primeira pessoa conhecida que encontrei na rua foi Julião Tavares. Senti um estremecimento desagradável, a repugnância que sempre me vinha quando dava de cara com aquele sujeito, e fingi não vê-lo, entrei numa loja para não falar com ele. Na repartição as horas correram doces e rápidas. O café estava cheio de caras amáveis. Guardei na memória pedaços de conversas. O cego dos bilhetes de loteria passou entre as cadeiras, batendo com o cajado no chão, cantando o número.

Se eu pegasse a sorte grande, Marina teria colchas bordadas a mão. Pobre de Marina! Precisava fazenda macia, pulseiras de ouro, penduricalhos.

As cadeiras da minha casa eram bem ordinárias. No tijolo safado não havia tapete. Nem um quadro na parede. E o colchão, duro como pedra, faria escoriações no corpo de Marina. Contento-me com muito pouco, habituei-me cedo a dormir nas estradas, nos bancos dos jardins.

— 16 384 - gemia o cego batendo com a bengala no cimento.

Ou seria outro número. Cem contos de réis, dinheiro bastante para a felicidade de Marina. Se eu possuísse aquilo, construiria um bangalô no alto do Farol, um bangalô com vista para a lagoa. Sentar-me-ia ali, de volta da repartição, à tarde, como Tavares & Cia., dr. Gouveia e os outros, contaria histórias à minha mulher, olhando os coqueiros, as canoas dos pescadores.

— 16 384.

Vestido de pijama, fumando, olharia lá de cima os te­lhados da cidade, os bondes pequeninos a rodar quase parados e sem rumor, os focos da iluminação pública, os coqueiros negros à noite. Uns quadros a óleo enfeitariam a minha sala. Marina dormiria num colchão de paina. E quando saltasse da cama, pisaria num tapete felpudo que lhe acariciaria os pés descalços.

— 16 384.

Um tapete fofo, sem dúvida. E a cama teria uma colcha bordada cobrindo o colchão de paina, uma colcha bordada em seis meses.

Alguns dias depois Marina me chamou para mostrar os objetos que tinha comprado. Não era quase nada: calças de seda, camisas de seda e outras ninharias.

— Que é do resto?

— Que resto? - perguntou espantada. - É só isto. Veja se as camisas estão bem-feitas, diga se as cores lhe agradam.

— Muito boas - murmurei.

— Mas você nem está olhando.

— Para quê? Não entendo. O que vejo é que falta quase tudo.

— Que se há de fazer? É a carestia. Em todo caso julgo que você aprova...

Que remédio! Havia de brigar com ela, dizer-lhe que tivesse juízo, explicar que sou pobre, não posso comprar camisas de seda, pó de arroz caro, seis pares de meias de uma vez? Seis pares de meias, que desperdício! Se ela suasse no veio da máquina ou aguentasse as enxaquecas do chefe na repartição, não faria semelhante loucura. Mas não despropositei, como o coração me pedia.

— Está bem. Vamos comprar o resto. Faça economia, ouviu? Os cobres estão escassos.

Sangrei mais quinhentos mil-réis. Depois sangrei duzentos, adquiri móveis em leilão e vesti-me de novo, porque as minhas camisas estavam esfiapadas e o paletó se cobria de nódoas. Marina aplaudia a transformação que se ia operando no meu exterior:

— Precisa é mandar consertar essa gola. O corpo está bom. Os pés não prestam, com esses sapatos indecentes. Dê por visto um pavão.

Ofereci a seu Ivo os meus sapatos cambados e reformei os pés. O dinheiro sumia-se, essas alterações chupavam­-me as reservas acumuladas com paciência. Eu vivia preocupado, fazendo cálculos na rua. E ainda não havia comprado uma lembrança para Marina.

Liquidei a minha conta no banco, estudei cuidadosamente uma vitrina de joias, escolhi um relógio-pulseira e um anel. Saí da joalharia com vinte mil-réis na carteira, algumas pratas e níqueis. Mais nada. Apenas confiança no futuro, apesar dos encontrões que tenho suportado. Os matutos acreditavam na minha literatura. Vinte mil-réis para café e cigarros.

Ia cheio de satisfação maluca. Não tirava a mão do bolso, apalpava as caixinhas, sentia através do papel de seda a macieza do veludo. Na alvura do braço roliço a fita do relógio faria uma cinta negra; a pedrinha branca faiscaria no dedo miúdo.

— Moisés me emprestará cinquenta mil-réis até o mês vindouro.

Angústia — Julião Tavares has loaded