A Casa na Rua do Macena e o Quintal
Ainda não disse que moro na rua do Macena, perto da usina elétrica. Ocupado em várias coisas, frequentemente esqueço o essencial. Que, para mim, a casa onde moramos não tem importância grande demais. Tenho vivido em numerosos chiqueiros. Provavelmente esses imóveis influíram no meu caráter, mas sou incapaz de recordar-me das divisões de qualquer deles. Não esperem a descrição destas paredes velhas que dr. Gouveia me aluga, sem remorso, por cento e vinte mil-réis mensais, fora a pena de água.
Afinal, para a minha história, o quintal vale mais que a casa. Era ali, debaixo da mangueira, que, de volta da repartição, me sentava todas as tardes, com um livro. Foi lá que vi Marina pela primeira vez, em janeiro do ano passado. E lá nos tornamos amigos.
Se ela morasse no prédio à esquerda, talvez não nos conhecêssemos. Quando saio para o serviço, passo em frente da casa à direita e cumprimento as pessoas que estão à janela. Transito raramente pelo outro lado. Reside ali uma d. Rosália, que tem o marido sempre ausente. Mulher antipática, amarela, muito faladora. Quase nunca a encontro. Felizmente há o muro que nos afasta. Vejo às vezes por cima dele cabecinhas de crianças que esperam momento favorável para furtar as mangas dos galhos que lhes chegam ao alcance das garras. Fujo para não importuná-las, mas são assustadiças e escondem-se.
O meu horizonte ali era o quintal da casa à direita: as roseiras, o monte de lixo, o mamoeiro. Tudo feio, pobre, sujo. Até as roseiras eram mesquinhas: algumas rosas apenas, miúdas. Monturos próximos, águas estagnadas, mandavam para cá emanações desagradáveis. Mas havia silêncio, havia sombra. O vozeirão de Vitória era um murmúrio abafado. Talvez o mamoeiro, as roseiras, o monte de lixo me passassem despercebidos, e se os menciono, é que, escrevendo estas notas, revejo-os daqui.
Tornei-me, pois, amigo de Marina. Com certeza começamos por olhares, movimentos de cabeça, sorrisos, como sempre acontece. Depois, palavra aqui, palavra ali, em pouco tempo estávamos camaradas, tratando-nos por você. Procurando reproduzir os nossos diálogos, compreendo que não dizíamos nada. Frívola, incapaz de agarrar uma ideia, a mocinha pulava como uma cabra em redor dos canteiros e pulava de um assunto para outro. O que me aborrecia nela eram certas inclinações imbecis ou safadas.
— Por que é que você não manda fazer um smoking, Luís? Um rapaz que ganha dinheiro andar com essas roupas mal-amanhadas! Eu, se fosse você, brilhava, vivia no trinque.
Eu pilheriava com ela:
— Marina, nem só de smoking vive o homem.
Outras vezes:
— D. Mercedes estava hoje chamando a atenção de todo mundo na igreja do Rosário. Vestido cor de cinza com vivos encarnados, luvas cor de cinza, bolsa encarnada, chapéu encarnado e sapatos encarnados. Você gosta do encarnado?
D. Mercedes é uma espanhola madura da vizinhança, amigada em segredo com uma personagem oficial que lhe entra em casa alta noite. Possui mobília complicadíssima, passa os dias olhando-se ao espelho e polindo as unhas, metida num penhoar de seda, e quando mergulha na banheira, sente-se de longe o cheiro da água-de-colônia. Marina admirava-a com exagero, arregalando os olhos:
— D. Mercedes é linda. Parece uma artista de cinema.
Eu me aperreava:
— Que tolice! Você elogiando uma tipa ordinária, uma galega de arribação que ninguém sabe donde saiu! Não está direito. Uma bicha feia e velha, um couro, um canhão!
Marina excitava-se:
— Que couro, que nada! D. Mercedes é uma senhora vistosa, bem conservada, muito distinta. E rica. Tem filha no colégio e manda dinheiro ao marido.
Vejam que miolo. E que tendências. Eu, se não fosse um idiota com fumaças de homem prático, lido e corrido, teria cortado relações com aquela criatura. Admirar uma estrangeira que vive só, tem filha no colégio e sustenta marido ausente!
Estirava-me na espreguiçadeira, abria o livro, carrancudo. A leitura não me atraía, mas atirava-me a ela. Marina ficava por ali, rondando, machucando pétalas de rosas, acanhada, o nariz comprido, procurando conversa. Dava um giro entre os canteiros, temperava a goela e, de repente:
— Que livro é esse que você está lendo?
Fingia-me distraído, encostava a cara ao volume.
— Deve ser uma obra interessante.
— Nem por isso.
— Eu também estou lendo um livro interessante, da biblioteca das moças. Muito penoso.
Olhava-a com ódio:
— Passe bem, Marina.
Aproximando-me da cozinha, percebia a voz de Vitória, que resmungava junto à gaiola do Currupaco:
— Franguinha assanhada. Cochichando com um homem no escuro! Cabrita enxerida.
Realmente estava escuro. Às vezes a gente se esquecia do tempo e entrava pela noite na prosa. Um foco da iluminação da rua embranquecia um pedaço do muro.
Currupaco pregava-me o olho redondo, encolhia a perna e escondia a cabeça com tédio.
— Safadinha, enxerida - insistia Vitória quando me via as costas.
Punha-me a passear pela casa. Chegava à porta da rua, voltava, marchava até a sala de jantar, fazia meia-volta, e assim por diante, pisando com força. Um smoking, imaginem. Para que diabo queria eu um smoking? Teria graça estar ali contando os passos ou ir ao café, vestido num smoking. Estúpida.
— Um romance comovente. Esqueci o nome do autor. Enredo bonito.
Estúpida. Lia as notas sociais, casamentos, batizados, aniversários, coisas deste gênero. Estúpida.
Fatigado, sentava-me um instante na sala de jantar. A parada justificava outra, instantes depois, à janela da rua. Debruçava-me, olhava os paralelepípedos, a sarjeta, o poste de ferro, os arames, a calçada da casa à esquerda. Virava-me para a esquerda. O outro lado não me interessava. Uma pancada no postigo, e recomeçava o passeio. Nova demora na sala de jantar. Coçava a barriga do gato, que se espreguiçava, estirava as pernas. Sem-vergonha, parecia mulher. O quintal estava escuro. Por cima das árvores havia claridade, até se enxergava, a distância, um anúncio que se podia ler; mas perto do chão era aquele pretume. Fastidiosa música de grilos, certamente no canteiro das hortaliças.
A quanto subiria a fortuna que Vitória tinha ali enterrada? A minha situação não era das piores. Uns três contos de economias depositados no banco. Há gente que se casa com menos e vive.
Pela porta da cozinha via-se na parede a sombra da cabeça de Vitória, enorme, por cima da sombra do jornal.
— Ó Vitória, prepare o café.
Precisava ir sacudi-la:
— O café, Vitória.
— An!
Afastava-me. A chaleira chiava no fogão. A sombra desaparecia. Arrastar de pés e sons resmungados:
— Peruinha, cabritinha descarada.
Punha-me também a arrastar os pés na sala de jantar, fumava, bebia um trago de aguardente.
— Mulheres há muitas.
E o diabo da música dos grilos. As letras do anúncio eram enormes.
Daí a pouco lá ia de novo para o corredor, chegava à janela da frente, abria o postigo, olhava a rua. Mas não me voltava para a direita. Os paralelepípedos, os arames, a sarjeta. A bichinha sem-vergonha devia andar ali perto, saracoteando na calçada, indo espiar a sala de d. Mercedes e os móveis de d. Mercedes. Não me voltava.
— Para o diabo. Aqui me preocupando com aquela burra! Unhas pintadas, beiços pintados, biblioteca das moças, preguiça, admiração a d. Mercedes - total: rua da Lama. Acaba na rua da Lama, sangrando na pedra-lipes. Vamos deixar de besteira, seu Luís. Um homem é um homem.